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Title: Folhas de Relva

Author(s): Walt Whitman, Luciano Alves Meira

Publication information: Walt Whitman. Folhas de Relva. Tr. Luciano Alves Meira. São Paolo: Editora Martin Claret Ltda., 2005.

Source: Initial transcription derived via optical character recognition and hand-corrected.

Whitman Archive ID: med.00400








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FOLHAS
DE RELVA

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Walt Whitman


TEXTO INTEGRAL
Série Ouro
TRADUÇÃO: LUCIANO ALVES MEIRA



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Os Objetivos, A Filosofia E A Missão Da Editora Martin Claret

O principal Objetivo da MARTIN CLARET é continuar a desenvolver uma grande e poderosa empresa editorial brasileira, para melhor servir a seus leitores.

A Filosofia de trabalho da MARTIN CLARET consiste em criar, inovar, produzir e distribuir, sinergicamente, livros da melhor qualidade editorial e gráfica, para o maior número de leitores e por um preço economicamente acessível.

A Missão da MARTIN CLARET é conscientizar e motivar as pessoas a desenvolver e utilizar o seu pleno potencial espiritual, mental, emocional e social.

A MARTIN CLARET está empenhada em contribuir para a difusão da educação e da cultura, por meio da democratização do livro, usando todos os canais ortodoxos e heterodoxos de comercialização.

A MARTIN CLARET, em sua missão empresarial, acredita na verdadeira função do livro: o livro muda as pessoas.

A MARTIN CLARET, em sua vocação educacional, deseja, por meio do livro, claretizar, otimizar e iluminar a vida das pessoas.

Revolucione-se: leia mais para ser mais!



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COLEÇÃO A OBRA-PRIMA DE CADA AUTOR
Série Ouro


FOLHAS
DE RELVA

—————

Walt Whitman


TEXTO INTEGRAL
MARTIN CLARET



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CRÉDITOS

© Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2005

  • IDEALIZAÇÃO E COORDENAÇÃO
    Martin Claret
  • ASSISTENTE EDITORIAL
    Rosana Gilioli Citino
  • CAPA
    Ilustração
    Marcellin Talbot
  • MIOLO
    Revisão
    Lilian de Aquino
    Durval Cordas
  • Tradução
    Luciano Alves Meira
  • Projeto Gráfico
    José Duarte T. de Castro
  • Direção de Arte
    José Duarte T. de Castro
  • Digitação
    Graziella Gatti Leonardo
  • Editoração Eletrônica
    Editora Martin Claret
  • Fotolitos da Capa
    OESP
  • Papel
    Off-Set, 70g/m²
  • Impressão e Acabamento
    Paulus Gráfica

Editora Martin Claret Ltda. - Rua Alegrete, 62 - Bairro Sumaré
CEP: 01254-010 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3672-8144 - Fax: (11) 3673-7146

www.martinclaret.com.br / editorial@martinclaret.com.br

Agradecemos a todos os nossos amigos e colaboradores — pessoas físicas e jurídicas — que deram as condições para que fosse possível a publicação deste livro.

1ª REIMPRESSÃO - 2008



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A história do livro e a coleção "A Obra-Prima de Cada Autor"

MARTIN CLARET

Que é o livro? Para fins estatísticos, na década de 1960, a UNESCO considerou o livro "uma publicação impressa, não periódica, que consta de no mínimo 49 páginas, sem contar as capas".

O livro é um produto industrial.

Mas também é mais do que um simples produto. O primeiro conceito que deveríamos reter é o de que o livro como objeto é o veículo, o suporte de uma informação. O livro é uma das mais revolucionárias invenções do homem.

A Enciclopédia Abril (1972), publicada pelo editor e empresário Victor Civita, no verbete "livro" traz concisas e importantes informações sobre a história do livro. A seguir, transcrevemos alguns tópicos desse estudo didático sobre o livro.


O livro na Antiguidade

Antes mesmo que o homem pensasse em utilizar determinados materiais para escrever (como, por exemplo, fibras vegetais e tecidos), as bibliotecas da Antiguidade estavam repletas de textos gravados em tabuinhas de barro cozido. Eram os primeiros "livros", depois progressivamente modificados até chegarem a ser feitos — em grandes tiragens — em papel impresso mecanicamente, proporcionando facilidade de leitura e transporte. Com eles, tornou-se possível, em todas as épocas, transmitir fatos, acontecimentos históricos, descobertas, tratados, códigos ou apenas entretenimento.

Como sua fabricação, a função do livro sofreu enormes modifi-

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cações dentro das mais diversas sociedades, a ponto de constituir uma mercadoria especial, com técnica, intenção e utilização determinadas. No moderno movimento editorial das chamadas sociedades de consumo, o livro pode ser considerado uma mercadoria cultural, com maior ou menor significado no contexto socioeconômico em que é publicado. Enquanto mercadoria, pode ser comprado, vendido ou trocado. Isso não ocorre, porém, com sua função intrínseca, insubstituível: pode-se dizer que o livro é essencialmente um instrumento cultural de difusão de idéias, transmissão de conceitos, documentação (inclusive fotográfica e iconográfica), entretenimento ou ainda de condensação e acumulação do conhecimento. A palavra escrita venceu o tempo, e o livro conquistou o espaço. Teoricamente, toda a humanidade pode ser atingida por textos que difundem idéias que vão de Sócrates e Horácio a Sartre e McLuhan, de Adolf Hitler a Karl Marx.


Espelho da sociedade

A história do livro confunde-se, em muitos aspectos, com a história da humanidade. Sempre que escolhem frases e temas, e transmitem idéias e conceitos, os escritores estão elegendo o que consideram significativo no momento histórico e cultural que vivem. E, assim, fornecem dados para a análise de sua sociedade. O conteúdo de um livro — aceito, discutido ou refutado socialmente — integra a estrutura intelectual dos grupos sociais.

Nos primeiros tempos, o escritor geralmente vivia em contato direto com seu público, que era formado por uns poucos letrados, já cientes das opiniões, idéias, imaginação e teses do autor, pela própria convivência que tinha com ele. Muitas vezes, mesmo antes de ser redigido o texto, as idéias nele contidas já haviam sido intensamente discutidas pelo escritor e parte de seus leitores. Nessa época, como em várias outras, não se pensava na enorme porcentagem de analfabetos. Até o século XV, o livro servia exclusivamente a uma pequena minoria de sábios e estudiosos que constituíam os círculos intelectuais (confinados aos mosteiros durante o começo da Idade Média) e que tinham acesso às bibliotecas, cheias de manuscritos ricamente ilustrados.

Com o reflorescimento comercial europeu, nos fins do século XIV, burgueses e comerciantes passaram a integrar o mercado livreiro

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da época. A erudição laicizou-se e o número de escritores aumentou, surgindo também as primeiras obras escritas em línguas que não o latim e o grego (reservadas aos textos clássicos e aos assuntos considerados dignos de atenção). Nos séculos XVI e XVII, surgiram diversas literaturas nacionais, demonstrando, além do florescimento intelectual da época, que a população letrada dos países europeus estava mais capacitada a adquirir obras escritas.


Cultura e comércio

Com o desenvolvimento do sistema de impressão de Gutenberg, a Europa conseguiu dinamizar a fabricação de livros, imprimindo, em cinqüenta anos, cerca de 20 milhões de exemplares para uma população de quase 10 milhões de habitantes, cuja maioria era analfabeta. Para a época, isso significou enorme revolução, demonstrando que a imprensa só se tornou uma realidade diante da necessidade social de ler mais.

Impressos em papel, feitos em cadernos costurados e posteriormente encapados, os livros tornaram-se empreendimento cultural e comercial: os editores passaram logo a se preocupar com melhor apresentação e redução de preços. Tudo isso levou à comercialização do livro. E os livreiros baseavam-se no gosto do público para imprimir, principalmente obras religiosas, novelas, coleções de anedotas, manuais técnicos e receitas.

Mas a porcentagem de leitores não cresceu na mesma proporção que a expansão demográfica mundial. Somente com as modificações socioculturais e econômicas do século XIX — quando o livro começou a ser utilizado também como meio de divulgação dessas modificações e o conhecimento passou a significar uma conquista para o homem, que, segundo se acreditava, poderia ascender socialmente se lesse — houve um relativo aumento no número de leitores, sobretudo na França e na Inglaterra, onde alguns editores passaram a produzir obras completas de autores famosos, a preços baixos. O livro era então interpretado como símbolo de liberdade, conseguida por conquistas culturais. Entretanto, na maioria dos países, não houve nenhuma grande modificação nos índices porcentuais até o fim da Primeira Guerra Mundial (1914/18), quando surgiram as primeiras grandes tiragens de um só livro, principalmente romances, novelas e textos didáticos. O número elevado de

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cópias, além de baratear o preço da unidade, difundiu ainda mais a literatura. Mesmo assim, a maior parte da população de muitos países continuou distanciada, em parte porque o livro, em si, tinha sido durante muitos séculos considerado objeto raro, atingível somente por um pequeno número de eruditos. A grande massa da população mostrou maior receptividade aos jornais, periódicos e folhetins, mais dinâmicos e atualizados, e acessíveis ao poder aquisitivo da grande maioria. Mas isso não chegou a ameaçar o livro como símbolo cultural de difusão de idéias, como fariam, mais tarde, o rádio, o cinema e a televisão.

O advento das técnicas eletrônicas, o aperfeiçoamento dos métodos fotográficos e a pesquisa de materiais praticamente imperecíveis fazem alguns teóricos da comunicação de massa pensarem em um futuro sem os livros tradicionais (com seu formato quadrado ou retangular, composto de folhas de papel, unidas umas às outras por um dos lados). Seu conteúdo e suas mensagens (racionais ou emocionais) seriam transmitidos por outros meios, como por exemplo microfilmes e fitas gravadas.

A televisão transformaria o mundo todo em uma grande "aldeia" (como afirmou Marshall McLuhan), no momento em que todas as sociedades decretassem sua prioridade em relação aos textos escritos. Mas a palavra escrita dificilmente deixaria de ser considerada uma das mais importantes heranças culturais, entre todos os povos.

Através de toda a sua evolução, o livro sempre pôde ser visto como objeto cultural (manuseável, com forma entendida e interpretada em função de valores plásticos) e símbolo cultural (dotado de conteúdo, entendido e interpretado em função de valores semânticos). As duas maneiras podem fundir-se no pensamento coletivo, como um conjunto orgânico (onde texto e arte se completam, como, por exemplo, em um livro de arte) ou apenas como um conjunto textual (onde a mensagem escrita vem em primeiro lugar — em um livro de matemática, por exemplo).

A mensagem (racional, prática ou emocional) de um livro é sempre intelectual e pode ser revivida a cada momento. O conteúdo, estático em si, dinamiza-se em função da assimilação das palavras pelo leitor, que pode discuti-las, reafirmá-las, negá-las ou transformá-las. Por isso, o livro pode ser considerado instrumento cultural capaz de libertar informação, sons, imagens, sentimentos e idéias através do tempo e do espaço. A quantidade e a qualidade de

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idéias colocadas em um texto podem ser aceitas por uma sociedade, ou por ela negadas, quando entram em choque com conceitos ou normas culturalmente admitidos.

Nas sociedades modernas, em que a classe média tende a considerar o livro como sinal de status e cultura (erudição), os compradores utilizam-no como símbolo mesmo, desvirtuando suas funções ao transformá-lo em livro-objeto. Mas o livro é, antes de tudo, funcional — seu conteúdo é que lhe dá valor (como os livros de ciências, filosofia, religião, artes, história e geografia, que representam cerca de 75% dos títulos publicados anualmente em todo o mundo).


O mundo lê mais

No século XX, o consumo e a produção de livros aumentaram progressivamente. Lançado logo após a Segunda Guerra Mundial (1939/45), quando uma das características principais da edição de um livro eram as capas entreteladas ou cartonadas, o livro de bolso constituiu um grande êxito comercial. As obras — sobretudo best sellers publicados algum tempo antes em edições de luxo — passaram a ser impressas em rotativas, como as revistas, e distribuídas às bancas de jornal. Como as tiragens elevadas permitiam preços muito baixos, essas edições de bolso popularizaram-se e ganharam importância em todo o mundo.

Até 1950, existiam somente livros de bolso destinados a pessoas de baixo poder aquisitivo; a partir de 1955, desenvolveu-se a categoria do livro de bolso "de luxo". As características principais destes últimos eram a abundância de coleções — em 1964 havia mais de duzentas, nos Estados Unidos — e a variedade de títulos, endereçados a um público intelectualmente mais refinado. A essa diversificação das categorias adiciona-se a dos pontos-de-venda, que passaram a abranger, além das bancas de jornal, farmácias, lojas, livrarias, etc. Assim, nos Estados Unidos, o número de títulos publicados em edições de bolso chegou a 35 mil em 1969, representando quase 35% do total dos títulos editados.



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Proposta da coleção "A Obra-Prima de Cada Autor"

"Coleção" é uma palavra há muito tempo dicionarizada e define o conjunto ou reunião de objetos da mesma natureza ou que têm alguma relação entre si. Em um sentido editorial, significa o conjunto não-limitado de obras de autores diversos, publicado por uma mesma editora, sob um título geral indicativo de assunto ou área, para atendimento de segmentos definidos do mercado.

A coleção "A Obra-Prima de Cada Autor" corresponde plenamente à definição acima mencionada. Nosso principal objetivo é oferecer, em formato de bolso, a obra mais importante de cada autor, satisfazendo o leitor que procura qualidade.*

Desde os tempos mais remotos existiram coleções de livros. Em Nínive, em Pérgamo e na Anatólia existiam coleções de obras literárias de grande importância cultural. Mas nenhuma delas superou a célebre biblioteca de Alexandria, incendiada em 48 a.C. pelas legiões de Júlio César, quando estes arrasaram a cidade.

A coleção "A Obra-Prima de Cada Autor" é uma série de livros a ser composta por mais de 400 volumes, em formato de bolso, com preço altamente competitivo, e pode ser encontrada em centenas de pontos-de-venda. O critério de seleção dos títulos foi o já estabelecido pela tradição e pela crítica especializada. Em sua maioria, são obras de ficção e filosofia, embora possa haver textos sobre religião, poesia, política, psicologia e obras de auto-ajuda. Inauguram a coleção quatro textos clássicos: Dom Casmurro, de Machado de Assis; O Príncipe, de Maquiavel; Mensagem, de Fernando Pessoa e O Lobo do Mar, de Jack London.

Nossa proposta é fazer uma coleção quantitativamente aberta. A periodicidade é mensal. Editorialmente, sentimo-nos orgulhosos de poder oferecer a coleção "A Obra-Prima de Cada Autor" aos leitores brasileiros. Nós acreditamos na função do livro.

*Atendendo a sugestões de leitores, livreiros e professores, a partir de certo número da coleção, começamos a publicar, de alguns autores, outras obras além da sua obra-prima.



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Introdução
LUCIANO ALVES MEIRA*

Finalmente, surge no Brasil a primeira tradução integral de Folhas de Relva, obra-prima do poeta norte-americano Walt Whitman. Já era tempo de nos aproximarmos dessa obra sobre a qual o sensacionista poeta Álvaro de Campos, um dos mais conhecidos heterônimos de Fernando Pessoa, escreveu uma candente confissão, em sua famosa "Saudação a Walt Whitman":


Nunca posso ler os teus versos a fio. . . Há ali sentir demais. . . [. . .]
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é o mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural.

De fato, Fernando Pessoa foi para os leitores de língua portuguesa o primeiro elo com Whitman. Há uma clara linha de influência entre Whitman, o poeta da Liberdade, e Fernando Pessoa, que experimenta e assim apresenta o poeta de Folhas de Relva:


Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
..........................................................................
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,

*Tradutor e poeta.



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Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
[. . .] E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, dançando o universo na alma.

Até a idade de 36 anos, não havia sinal de que Whitman se tornaria uma importante figura literária dos Estados Unidos. Em 1855, publicou, às suas custas, a primeira edição de Folhas de Relva, contendo 12 longos poemas que causaram estranheza, silêncio, polêmica e severas críticas da imprensa e do mundo literário nos Estados Unidos. O mais eminente escritor norte-americano da época, o filósofo transcendentalista Ralph Waldo Emerson, foi a grande exceção, pois saudou o poeta com entusiasmo: "Felicito-o pelo seu pensamento livre e corajoso, o que me dá uma grande alegria. Encontro coisas incomparavelmente ditas, como o devem ser. Encontro essa ecoragem na maneira de tratar os temas, que tanto prazer dá e que só uma ampla visão pode inspirar. Saúdo-o no começo de uma grande carreira".

Whitman é hoje considerado um dos precursores da moderna literatura mundial. Assistiu de perto às agruras da Guerra de Secessão e ao veloz crescimento americano na segunda metade do século XIX, tornando-se o principal intérprete e cantor dessa epopéia de contradições. Foi também poeta do corpo e do desejo, do desafio e da exaltação mística, buscando sempre um tom genuinamente autóctone para a poesia do Novo Mundo. Embora pouco popular até a sua morte, Whitman granjeou para si, ainda em vida, a admiração de expoentes da literatura mundial, como Oscar Wilde, Algernon Charles Swinburne, Robert Louis Stevenson e Alfred Lord Tennyson, além de Emerson, já citado. O festejado erudito e crítico norte-americano de nossos dias, Harold Bloom, considera Whitman, em uma perspectiva histórica, o maior poeta dos Estados Unidos, ao lado de Emily Dickinson. Diz ainda da influência que

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essa figura representativa do transcendentalismo norte-americano exerceu sobre ele: "No verão de 1854, o poeta leu os ensaios de Emerson com grande atenção, e com conseqüências maravilhosas, pois foi então que iniciou a escrever o que viria a se chamar 'Canção de mim mesmo'. As primeiras versões registradas no caderno expressam extraordinária sensação de alívio: Sou a tua voz — Ela estava presa em ti — Em mim começa a falar./ Celebro a mim mesmo, para celebrar cada homem e cada mulher vivos [. . .]".

O próprio Whitman reconheceu o efeito que as leituras de Emerson tiveram sobre si: "Eu cozinhava, cozinhava, cozinhava — Emerson me pôs em ponto de fervura".

Com Folhas de Relva, pode ser considerado um dos mais importantes precursores da poesia moderna e, sem dúvida, um dos pouquíssimos autores do século XIX a libertar-se, na América, dos modelos europeus. Guardadas as distinções peculiares, os escritores dos Estados Unidos viviam, até Whitman, a mesma contradição que os autores brasileiros experimentavam até Machado de Assis e Mário de Andrade: um hibridismo cultural que consistia em revestir os temas nacionais de códigos europeus, formas esvaziadas de sentido, deslocadas de seu processo social.

Whitman pagou um alto preço de incompreensão pela sua capacidade de inovar. Tinha consciência da importância do que estava fazendo e até tentava de diversas formas estabelecer-se no panteão dos grandes escritores de seu tempo, mas contentava-se com a repercussão escandalosa que promovia entre alguns e com a falta de interesse das massas pelos cânticos que, com tanto amor, tecera para elas. Por isso escreveu: "O meu livro é um candidato para o futuro. Toda a arte original, afirma Taine1, de qualquer modo, é regulada por si mesma, e nenhuma arte original pode ser regulada por algum fator externo; ela carrega o seu próprio contrapeso, e não o recebe de alguma outra parte — vive de seu próprio sangue — um consolo para as minhas contusões freqüentes e minha intratável vaidade". Ele sabia que os efeitos de sua obra na consciência humana surgiriam com o tempo, e vaticinava:

1Hippolyte Adolphe Taine (Vouziers, 1828 — Paris, 1893): filósofo, historiador e crítico literário francês.



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Esperanças, desejos, aspirações, ponderações, vitórias, miríades de leitores,
Revestindo, contornando, cobrindo — depois de incrustações de eras e eras,
Somente então poderão estas canções alcançar fruição.

Whitman acreditava ter rompido os estreitos limites do convencional. Em "Um olhar retrospectivo sobre as estradas viajadas"2, afirmava que "o Mundo Antigo teve os poemas dos mitos, das ficções, do feudalismo, das conquistas, das castas, das guerras dinásticas e de personagens e façanhas esplêndidas e excepcionais, que foram grandes; mas o Novo Mundo precisa dos poemas das realidades e da ciência, e da média democrática e da eqüidade básica, que hão de ser maiores". E realça as circunstâncias sociais que condicionaram o seu trabalho: "Sei muito bem que minhas Folhas não poderiam ter emergido ou ter sido confeccionadas em qualquer outra era que não fosse a segunda metade do século XIX, nem em outra terra que não fosse a América democrática, e nem em uma circunstância distinta do triunfo absoluto dos exércitos da União Nacional".

Os ingredientes que fizeram de Folhas de Relva uma obra revolucionária em seu tempo são os mesmos que causaram grande polêmica na época de seu lançamento: a escolha de temas corriqueiros, o foco sobre o homem comum, a desabrida sensualidade, a licenciosidade poética, a linguagem às vezes chã, as estranhas enumerações, a equiparação de valor entre corpo e alma... Mas o que coloca Whitman na condição de gênio da literatura mundial é o fato de ter feito tudo isso sem perder o fio da iluminação espiritual, que é a grande causa, a causa das causas que o animam. Whitman é menos o cantor da democracia do que o cantor do Eu profundo; por isso, sentir o espírito de sua poesia, a sua misteriosa fórmula de sugerir sem jamais concretizar, a sua estranha e às vezes grosseira espontaneidade lírica, é para o leitor "de primeira viagem" o caminho mais seguro de se evitar a frustração. Como alimento da alma, os poemas de Whitman não têm o apelo condimentado das emoções fáceis, de uma sonoridade harmoniosa, de uma estética superficial e dos lugares-comuns. Saboreá-lo será sempre um exercício de paciência e de sensibilidade até que se obtenha o êxtase de uma convivência

2A íntegra desse texto de Whitman encontra-se nesta edição, p. 527.



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sublime que somente pode se estabelecer no lugar que Fernando Pessoa denomina de "alma interna". Nesse sentido, Whitman logrou o maior de todos os seus objetivos literários, o de fazer com que a obra e o autor se tornassem um único fenômeno:


Companheiro, este não é um livro,
Aquele que toca isto toca um homem,
(Será noite? Estamos juntos aqui, sozinhos?).
Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,
Eu salto destas páginas para dentro de teus braços — a morte me chama.

Para Whitman a essência precisava exalar de sua obra a qualquer custo:


Não foi dito sobre os meus cantos que eles se afastaram da arte?
Que deixei de fundir dentro deles as regras da precisão e da delicadeza?
Que a pulsação comedida do lirista, a graça do templo
ornamentado, que as colunas e os arcos polidos foram esquecidos?
Mas tu revelaste aqui — espírito que formou este cenário,
Que meus cantos lembraram-se de ti.

Naturalmente, Whitman nunca ouviu falar em Teilhard de Chardin, pois no ano de seu falecimento nos Estados Unidos (1892), Chardin, com apenas 10 anos de idade, fazia na França a sua primeira comunhão. Contudo, há muitos pontos de convergência entre o que concluiu o renomado filósofo e paleontólogo francês e a essência dos versos do grande poeta do Brooklin. Estas palavras de Chardin poderiam ser tidas em muitos aspectos como o fundamento da poesia whitmaniana:

  • 1. "Cada um de nós, quer queira quer não, liga-se, por todas as suas fibras materiais, orgânicas e psíquicas, a tudo que o circunda."3
  • 3CHARDIN, Teilhard de. Vida e pensamentos. São Paulo: Livro Clipping — Martin Claret, 2001, p. 99.



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  • 2. "Cada indivíduo carrega em si algo de todo o interesse final do Cosmo."4
  • 3. "Quanto mais o Homem se tornar Homem, menos aceitará se mover senão em direção do interminavelmente e indestrutivelmente novo [. . .] o Absoluto."5
  • 4. "Não há, concretamente, Matéria e Espírito, mas existe só Matéria tornando-se Espírito. Não há no Mundo, nem Espírito, nem Matéria: o estofo do Universo é o Espírito-Matéria."6
  • 5. "Eu creio que o Universo é uma Evolução. Eu creio que a Evolução vai para o Espírito. Eu creio que o Espírito, no Homem, se conclui no Pessoal. Eu creio que o Pessoal supremo é o Cristo-Universal."7

Se a quarta citação de Chardin nos remete aos poemas sensacionistas em que Whitman sacraliza o corpo físico, descrevendo-o como um altar em que se pode encontrar a essência divina, a número cinco nos faz pensar no que diz o crítico norte-americano Harold Bloom:

[. . .] os dois maiores poetas dos Estados Unidos, Walt Whitman e Emily Dickinson, alcançam o universal através do pessoal [. . .]. Os dois poetas, ao lado de Emerson, precursor de ambos, e Henry James, são os escritores mais influentes produzidos pelos Estados Unidos até o presente. [. . .] Os pais de Whitman eram seguidores do carismático Elias Hicks, pregador quacker, rebelde contrário às doutrinas normativas da seita, e um dos fundadores implícitos do que, segundo penso, deveria ser chamado Religião Norte-Americana, a fusão pós-cristã de vertentes gnósticas, órficas e entusiásticas. Há pouca diferença entre Hicks e Emerson, na condição de oradores da Luz interior; Hicks, tanto quanto Emerson, ressaltava a divindade do Eu, e negava a singularidade de Cristo.8

O saudoso filósofo brasileiro Huberto Rohden certamente diria

4Id., ibid.

5Id., ibid, p. 102.

6Id., ibid, pp. 104, 106.

7Id., ibid, pp. 106-107.

8BLOOM, Harold. Gênio — os 100 autores mais criativos da história da Literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 601-604.



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que Whitman e Pessoa expressam poeticamente aquilo que se pode chamar em filosofia de monismo panenteísta. Se para o monoteísta "só há um Deus", para o monista "só há Deus", ou seja, um único Ser que se manifesta e se revela em toda a criação, estando ao mesmo tempo imanente nela e transcendente a ela (eis o sentido das misteriosas palavras de Cristo: "Eu e o Pai somos um. Eu estou no Pai e o Pai está em mim, mas o Pai é maior do que eu").

Há um ensaio de Rohden sobre o pensamento de Teilhard de Chardin que esclarece o assunto com bastante propriedade9. Nas últimas páginas de O Fenômeno Humano, Chardin se defende das acusações de panteísmo de que vinha sendo alvo:

Para terminar e eliminar de uma vez para sempre os receios de panteísmo, constantemente evocados a propósito da evolução por certos campeões do espiritualismo tradicional — como não ver que, no caso de um Universo convergente tal como o apresentei, longe de nascer da fusão e da confusão dos centros elementares que ele reúne, o Centro universal de unificação (precisamente para exercer a sua função motora, coletora e estabilizadora) deve ser concebido como preexistente e transcendente. Panteísmo muito real, se quiserem (no sentido etimológico da palavra), mas panteísmo absolutamente legítimo: pois se, em fim de contas, os centros reflexivos do mundo não se fazem efetivamente senão "um com Deus", esse estado obtém-se não por identificação (tornando-se Deus tudo), mas por ação diferenciadora e comungante de amor (Deus todo em todos) — o que é essencialmente ortodoxo e cristão.

Rohden lamenta que Chardin não tenha utilizado o termo panenteísmo (tudo em Deus), em vez de panteísmo legítimo:

A palavra panenteísmo (pan-en-theô) foi recomendada pelo filósofo alemão Krause para precisar a inegável verdade de que o Infinito está presente em todos os Finitos. [. . .] O monista, ou panenteísta (o "panteísta legítimo" de Teilhard de Chardin) não separa Deus do mundo nem identifica Deus com o mundo, porque sabe que, como dizia Espinoza, "Deus é a alma do Universo, e o Universo é o corpo de Deus".

9CHARDIN, Teilhard de. Op. cit., pp. 24-41.



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Esse panenteísmo de Espinoza aparece claro na poesia de Whitman, em versos como estes:


Vós! Vós! A vital, a universal, a gigante força sem resistência, que não dorme, sempre calma,
Segurando a Humanidade em vossas mãos abertas, como se fora um brinquedo efêmero
Que, doente, sempre vos esquece!

Pois que também vos esqueci,
(Absorvido que estava nessas pequenas potências de progresso, política, cultura, riqueza, invenções, civilização),
Perdi o meu reconhecimento de vosso poder sempre controlador, vós, poderosos, agonia dos elementos,
No qual e sobre o qual flutuamos, no qual todos boiamos.

Em Fernando Pessoa o panenteísmo aparece vigoroso em muitos momentos. Tal como Whitman, seu mestre, o poeta sente o próprio corpo atravessado dessa luz imanente e transcendente:


Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
[. . .]
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
[. . .]
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa [. . .]10

É evidente que Whitman foi visto com suspeitas pelas correntes do cristianismo tradicional de sua época, mas certamente suas crenças caberiam nesta descrição de Rohden:

Em nossos tempos aparece número cada vez maior de homens que, para além do cristianismo teológico, vislumbram a cristicidade

10PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 336.



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espiritual. Cada vez maior se torna a fome duma experiência direta de Deus, em vez duma simples crença em doutrinas sobre Deus. Essa intuição experiencial é de uma elite ainda muito pequena em comparação com a grande massa dos que não conseguem ultrapassar a crença tradicional.11

A mística monista de Whitman, a sua experiência de unidade cósmica, é a essência que perpassa a amplitude dos quadrantes de sua criação poética, a mesma experiência monista que embala Fernando Pessoa em sua inacreditável realização literária, a mesma elevação arrebatada e livre, a mesma transcendência às crenças infantis do dualismo que domina, há milênios, tanto a Ciência quanto a Religião. Álvaro de Campos e Whitman estão irmanados na percepção dos fenômenos quânticos que dissolvem toda a dualidade da relação sujeito/objeto: "Toda Matéria é Espírito porque matéria e espírito são nomes confusos/ dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho/ E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!", escreve o primeiro. "Cada átomo que há em mim igualmente habita em ti. [. . .] É a ânsia central em cada átomo [. . .]. Para retornar à sua divina fonte e origem, não importa a que distância esteja, potencialmente igual em todos os sujeitos e objetos, sem exceção", postula o segundo.

Harold Bloom é categórico em chamar Whitman de "O Cantor do Eu", mostrando a posição secundária que a defesa da democracia ocupa em sua obra:

É difícil acompanhar Whitman; ele está sempre a passar e a nos ultrapassar [. . .]. Duvido que a abrangência de Whitman tenha muito a ver com o fato de ser ele o poeta da democracia, ainda que insistisse nessa identidade. Whitman, na verdade, é poeta hermético, hesitante, reservado e bem mais difícil do que se faz parecer [. . .] Sempre que penso em Whitman e recito seus versos em voz alta, deparo-me com o elegista do eu, o poeta da "Terra Noturna". Em Whitman, quatro grandes imagens se fundem: Noite, Morte, Mãe e Mar. Talvez o gênio de Walt Whitman fosse mais um ponto de chegada do que de partida. Os excluídos nele encontram voz, mas

11ROHDEN, Huberto. A metafísica do cristianismo. São Paulo: Martin Claret, 1991, p. 14.



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o autêntico impacto do seu cantar não é tanto a democracia, mas o elevado custo da confirmação do eu, uma despesa total.12

Resta-nos apresentar alguma evidência do comportamento místico de Whitman no cotidiano para confirmar nossa tese de que a sua espiritualidade monista animava a realização de sua obra extraordinária. Essa evidência, fomo-la encontrar no livro-documentário Walt Whitman: Profeta da Liberdade, de Irineu Monteiro13, que pesquisou o amplo acervo biográfico que existe sobre o autor de Folhas de Relva. Se é pelos frutos que conhecemos a árvore, e se Whitman sempre desejou que sua poesia fosse uma expressão de sua personalidade espiritual, o interessantíssimo relato que se segue fala-nos muito sobre a obra:

O Dr. Richard M. Bucke deixou observações importantes sobre Walt Whitman, especialmente pelo fato de se haver ligado a ele pessoalmente, como amigo e atento observador de sua personalidade e suas respostas ao mundo envolvente. Seu livro Walt Whitman, publicado em Filadélfia, por David McKay, é de 1883. O Cosmic Consciousness é de 1901. Neste último, Bucke destaca Whitman como inserido entre aqueles que alcançaram experiência cósmica, de ordem espiritual, em sua criatividade estética, na captação de mensagens que ultrapassam as fronteiras da literatura comum, de todos os dias. "Creio que toda a percepção do poeta — enfatiza — é excepcionalmente aguda, sua audição, principalmente. Não há som ou modulação de som perceptível a outrem que lhe escape, e parece que ele ouve muitas coisas inaudíveis à gente comum. Tenho ouvido falar a respeito da percepção dele sobre o crescimento da relva e das árvores expressando-se em folhas."
E Bucke continua suas observações, dizendo que a ocupação favorita de Whitman parecia a de estar fora de casa, ao ar livre, em contato com a relva, as árvores, as flores, a luminosidade solar por cima de todas as coisas, as modulações celestes. Gostava de ouvir os pássaros cantando na amplidão livre, os grilos, as rãs, e todos os ruídos da Natureza. Sentia mais atração por esse mundo, essas

12BLOOM, Harold. Op. cit.

13MONTEIRO, Irineu. Walt Whitman: Profeta da Liberdade. São Paulo: Martin Claret, 1984.



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manifestações da vida, do que pelos seres humanos protocolares e frases feitas. "Até o instante em que o conheci, jamais podia eu imaginar que tais coisas lhe proporcionavam tanta felicidade. Amava as flores, selvagens ou domésticas. Como gostava ele de tantas coisas! Como parecia fazer restrições a tantas outras! Não havia um só objeto da Natureza que não produzisse em seu espírito uma sensação maravilhosa. Sons e imagens, manifestações vegetais, minerais e animais provocavam nele emoções incontidas."
Continuando, Bucke comenta que ele parecia gostar de todos os homens, de todas as mulheres e de todas as crianças com as quais se deparava. Todos os que o conheceram podiam afirmar ser Whitman uma pessoa agradável. Também ele, em relação aos outros. Não discutia, não falava sobre dinheiro. Não levava muito a sério o falar em linguagem áspera a respeito de sua pessoa ou de seus escritos. E pondera Bucke: "Isto me fazia pensar que Whitman encontrava prazer na oposição de seus inimigos gratuitos".
Ainda mais: penetrando na intimidade da vida do poeta, disse Bucke que, ao encontrá-lo pela primeira vez, imaginou estar ele em estado de plena vigilância, não permitindo que sua língua deixasse escapar qualquer expressão de desgosto, de antipatia, queixumes ou remorso. Bucke custava a crer que tais sentimentos não participassem de suas emoções, nem o fustigassem. Mas, depois de conhecê-lo melhor, observando-o cuidadosamente, afirmou: "Verifiquei ser essa ausência, ou inconsciência, perfeitamente real".
Mais: "Suas maneiras eram curiosamente calmas e, em conversações, ou em todas as circunstâncias, raramente aparentava excitação. Jamais o vi ficar de mau humor. Parecia sempre alegre com os que o rodeavam. Geralmente, dispensava apresentações formais".
Ninguém, segundo Bucke, ouvia de seus lábios uma só palavra contra o tempo, o sofrimento, as enfermidades. Sua boca era de uma pureza incomparável, dela não saindo uma só expressão desairosa, pejorativa ou uma blasfêmia. E tudo decorria de seu estado interior, seu equilíbrio emocional diante dos fatos, mesmo os mais desagradáveis. Movia-se pela coragem e pelo autocontrole.
Em seguida, explica Bucke que Whitman jamais clamava contra qualquer nacionalidade ou categoria humana, ou períodos históricos (feudalismo, por exemplo), ou contra quaisquer tipos de ocupações. Não se voltava contra quaisquer animais, insetos, plantas ou seres inanimados, nem contra qualquer lei da Natureza, ou mesmo contra os resultados dessas leis, tais como doenças, deformidades ou


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morte. Jamais em conversação ou em companhia de qualquer pessoa, sob quaisquer circunstâncias, usava ele de linguagem que pudesse ser indelicada ("naturalmente usou linguagem em seus poemas que tem sido um tanto indelicada, mas em relação a ninguém procedeu assim . . .").
Mais adiante, o clínico e observador cuidadoso acrescenta: "De fato, jamais eu soube que ele usasse de uma só palavra ou sentimento que não pudesse ser publicado por tornar-se prejudicial à sua fama. Nunca jurou. Nunca falou em estado colérico e, aparentemente, nunca se irritou. Jamais exibiu medo, e não creio que o tivesse alguma vez sentido. Conversava em tom baixo, sempre agradável e, usualmente, o conteúdo era instrutivo. Nunca proferiu saudações formais, cheias de mesura e de desculpas, usando as formas comuns de civilidade tais como 'por favor', 'muito obrigado'. Sua conversa, regra geral, consistia de assuntos correntes, fatos do dia: política, notícias sobre política e história, tanto européias como americanas, um pouco sobre livros, muitos aspectos da Natureza, tais como paisagens, estrelas, pássaros, flores e árvores. Lia os jornais do dia regularmente, gostava de boas descrições e de reminiscências. Suas maneiras eram invariavelmente calmas e simples"14.

Tal descrição pormenorizada fala por si. Percorramos agora os versos cósmicos de Folhas de Relva, com suas maravilhosas sutilezas. Pisemos nessa relva poética como quem anda em solo sagrado, mas sem temor, sem desconfiança. Façamos como Álvaro de Campos, que, para "sentir tudo" entregou-se aos cânticos de Whitman e saiu dançando, "de mãos dadas, Walt, dançando o Universo na alma".

14MONTEIRO, Irineu. Op. cit., pp. 81-84.



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FOLHAS DE RELVA


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Nada pelas palavras do meu livro,
por seu sentido, tudo;
Um livro que existe por si mesmo,
sem relação alguma com os demais
e que não tem sentido se lido apenas
com o intelecto;
Mas vós, em vossos silêncios la-
tentes, haveis de tremer a cada pági-
na, assombrados.
WALT WHITMAN



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Letreiros


Eu canto o meu próprio Ser

Eu canto o meu próprio Ser, pessoa em si e à parte,
Embora expresse o verbo democrático, a expressão das massas.

A fisiologia, o que vai da cabeça aos pés, eu canto,
Não apenas a fisionomia, nem o cérebro somente é digno da Musa, eu digo que a forma completa é muito mais valorosa,
A fêmea, tanto quanto o macho, eu canto.

Da vida plena de paixão, pulso e poderio,
Cheio de alegria, porque, pela forma mais livre que há debaixo das leis de Deus,
O homem moderno eu canto.


À medida que eu refletia em silêncio

À medida que eu refletia em silêncio,
Debruçando-me sobre meus poemas, considerando-os, demorando-me sobre eles,
Um fantasma surgiu diante de meus olhos, com aspecto de desconfiança,
Terrífico em beleza, idade e poder,
O gênio de poetas de terras antigas,
Dirigindo-me a luz de seus olhos como se fossem chamas,
Com o dedo apontado para muitas canções imortais,
Com voz ameaçadora, O que cantas tu?, disse ele,
Não sabes que só existe um único tema para os poetas eternos?


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 26] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E que esse é o tema da guerra, da vitória, das batalhas,
Da preparação de soldados perfeitos?

Que assim seja, respondi então,
Eu também, sombra arrogante, canto a guerra e uma guerra mais duradoura e maior que todas as outras,
Recompensada em meu livro com diversas vitórias, com vôo, avanço e recuo, vitória concedida e irresoluta,
(Mesmo assim, parece-me certa, ou tão boa quanto certa, ao final), o campo de batalha é o mundo.
Pela vida e pela morte, pelo corpo e pela alma eterna,
Contemplai, eu também venho entoando o canto das batalhas,
Eu, acima de todos, promovo corajosos soldados.,


Na cabine dos navios em pleno mar

Na cabine dos navios em pleno mar,
O azul sem limites em toda direção se expande,
Com o assobio dos ventos e a música das ondas, as ondas grandes e imperiais,
Ou alguma nau solitária que baliza a densa marina,
Onde jovial, cheia de fé, abrindo suas velas brancas,
Ela atravessa ao meio o espaço celeste, no brilho e na espuma do dia, ou sob o céu estrelado da noite.
Entre marinheiros jovens e velhos serei eu, uma reminiscência da terra, lido,
Em plena harmonia, afinal.

Aqui estão nossos pensamentos, pensamentos de viajantes,
Aqui não é a terra, a terra firme que aparece sozinha, possam eles dizer então.
O arco do céu alcança aqui, sentimos o convés ondular debaixo dos pés,
Sentimos a longa pulsação, o refluir e o afluir de um movimento sem fim,
Os tons de um mistério nunca visto, as sugestões vagas e vastas do mundo salgado, as sílabas do líquido gracioso,
O perfume, o débil ranger da cordoalha, o ritmo de melancolia,
O panorama infinito e o horizonte longínquo e opaco estão todos aqui,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 27] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E este é o poema do oceano.

Então, ó livro, não hesites! Antes, realiza teu destino.
Não és a reminiscência da terra solitária,
Tu também, como uma nau atravessando o éter — propósito mais claro do que o teu desconheço — repleto sempre de fé,
Casa-te a todo navio que navega, navega tu!
Dá a eles o meu amor que vai depositado (queridos marinheiros,por vós eu deposito aqui o meu amor em cada folha);
Corre, meu livro! Espalha tuas velas brancas, minha ínfima nau, através das ondas imperiais.
Prossegue cantando, navega adiante, desentranha o azul infinito de mim e lança, em cada mar,
Esta canção por todos os marinheiros e suas naus.


Às terras estrangeiras

Ouvi dizer que pediste algo para provar este enigma do Novo Mundo,
E para definir a América, sua atlética Democracia,
Portanto, envio-te meus poemas; que possas neles encontrar o que procuras.


A um historiador

Tu, que celebras eventos passados,
Que exploraste a aparência, a superfície das raças, a vida que se revelou,
Que trataste os Homens como criaturas políticas, agregados,governadores e sacerdotes,
Eu, habitante dos montes Alegânis, tratando do Homem como ele de fato é, em seus plenos direitos,
Tomando o pulso da vida que raramente se expõe (o grande orgulho que o Homem tem de si mesmo),
Cantor da Pessoa Humana, delineando aquilo que ela um dia há de ser,
O que eu arquiteto é a história do futuro.



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A ti, causa antiga!

A ti, causa antiga!
Tu, incomparável, apaixonante causa boa,
Tu, implacável, impiedosa, doce idéia,
Imorredoura através dos tempos, raças, terras,
Após uma triste e estranha guerra, grande guerra por ti,
(Penso que todas as guerras através do tempo foram travadas,e serão sempre travadas no futuro, na verdade, por ti.)
Estes cantos por ti, a marcha eterna por ti.

(Uma guerra, ó soldados que não estão sozinhos,
Muito, muito mais silenciosos, aguardando na retaguarda, e que
agora podem avançar neste livro.)

Tu, globo de muitos globos!
Tu, ardente princípio! Tu, bem guardado gérmen latente! Tu, centro de tudo!
Em torno de tua idéia a guerra gira,
Com toda a tua irada e veemente dança das causas,
(Com vastos resultados por vir, por milhares de anos),
Estes versos recitados por ti — meu livro e a guerra são um,
Fundidos em tal espírito e no meu, como a disputa articulada em ti,
Como uma roda sobre seu eixo, gira este livro, inconsciente de si mesmo,
Em torno de tua idéia.


Espectros

         Com um vidente deparei,
Passando pelos matizes e objetos do mundo,
Os campos da arte e do conhecimento, prazer e sentidos,
         Coligindo espectros.

         Introduz teus cantos, ele disse,
Não mais a hora confusa nem o dia, nem segmentos, partes, introduz,
Começa, antes dos demais, como a luz para todos e por todos a canção de entrada,
         Aquela dos espectros.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 29] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



         Sempre o pálido começo,
Sempre o crescimento, o arredondamento do círculo,
Sempre o ápice e o amálgama afinal (para o certo recomeço),
         Espectros, espectros!

         Sempre mutáveis,
Sempre materiais, transformando-se, fazendo-se em migalhas, readerindo,
Sempre os ateliês, as fábricas divinas,
         Editando espectros.

         Veja-se, eu ou tu,
Ou mulher, ou homem, ou estado, conhecido ou ignorado,
Nós parecemos sólida riqueza, força, beleza construída,
         Mas de fato erguemos espectros.

         A ostentação evanescente,
A substância do humor de um artista ou a longa observação da savana,
As armadilhas de um guerreiro, de um mártir, de um herói,
         Para talhar seu espectro.

         De toda a vida humana,
(As unidades juntas, protegidas, nem um pensamento, a emoção, a realização, deixados de fora)
O todo ou o grande ou o pequeno somado, adicionado,
         Em seus espectros.

         O velho, o antigo anseio,
Baseado nos clássicos pináculos, veja os novos, mais altos pináculos,
Da ciência e do moderno ainda impelidos
         Pelo velho, antigo anseio, espectros.

         O presente, aqui e agora,
Da América, o ocupado, o prolífico, o intrincado turbilhão,
De agregado e segregado, porque dali apenas deixando ir,
         Os hodiernos espectros.

         Esses com o passado,
De terras esvaecidas, de todos os reinos de reis de além mar,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 30] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Velhos conquistadores, velhas campanhas, velhas viagens de marinheiros,
         Juntando-se aos espectros.

         Densidades, crescimento, fachadas,
Estratos de montanhas, terras, rochas, árvores gigantes,
Nascidos à distância, à distância morrendo, vivendo longamente, para deixar,
         Espectros perpétuos.

         Exaltado, arrebatado, extático,
O útero visível, mas deles desde a origem
De esféricas tendências para talhar e talhar e talhar,
         A poderosa Terra-espectro.

         Todo espaço, todo tempo,
(As estrelas, as terríveis perturbações dos sóis,
Dilatando-se, desmoronando, acabando, servindo seu propósito mais breve ou duradouro),
         Plenos de espectros somente.

         Miríades silenciosas,
Os oceanos infinitos onde os rios deságuam,
As incontáveis identidades livres, separadas, como visão,
         As verdadeiras realidades, espectros.

         Não é este o mundo,
Não são esses os universos, eles os universos
Significam e terminam, sempre a permanente vida da vida,
         Espectros, espectros.

         Além de tuas aulas, erudito professor,
Além de teu telescópio ou espectroscópio aguçado, observador,além de toda matemática,
Além da cirurgia dos médicos, da anatomia, além dos químicos e sua química,
         As entidades das entidades, espectros.

         Soltos, ainda que presos,
Sempre serão, sempre foram e são,
Varrendo o presente para o futuro sem fim,



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 31] - - - - - - - - - - - - - - - - -



Espectros, espectros, espectros.

         O profeta e o bardo
Devem embora manter-se em estágios ainda mais elevados,
Devem mediar para o moderno, para a Democracia, ser intérpretes deles ainda,
         Deus e espectros.

         E tu, minha alma,
Alegrias, exercícios incessantes, exaltações,
Teus anelos amplamente atendidos finalmente, preparados paraencontrar,
         Teus companheiros, espectros.

         Teu corpo permanente,
O corpo espreitando lá dentro de teu corpo,
O único sentido da forma de tua arte, o verdadeiro Eu, eu mesmo,
         Uma imagem, um espectro.

         Tuas próprias canções fora de tuas canções,
Sem tensões especiais para cantar, nenhuma por si mesma,
Mas do resultado total, erguendo-se finalmente e flutuando,
         Um giro em círculo total do espectro.


Por ele eu canto

Por ele eu canto,
Eu ergo o agora no que foi,
(Como árvore perene, de pé sobre as raízes, presente no passado)
Com o tempo e o espaço eu a ele expando e eternas leis fundo,
De modo que, por elas, ele seja a lei junto a si mesmo.


Enquanto eu lia o livro

Enquanto eu lia o livro, a ilustre biografia,
Então é isto (eu disse) que o autor considera ser a vida de um homem?
E assim, alguém, quando eu estiver morto ou ausente, escreverá minha vida?


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(Como se qualquer homem soubesse realmente algo sobre a minha vida,
Quando até eu mesmo sempre penso saber pouco ou nada sobre minha vida real,
Apenas algumas dicas, umas poucas dicas pálidas difusas e despistes
Que procuro para meu uso próprio na trilha aqui de fora.)


Ao começar os meus estudos

Ao começar os meus estudos, o passo inicial me agradou tanto,
A mera tomada de consciência dos fatos, essas formas, o poder do movimento,
O menor dos insetos ou animais, os sentidos, a vista, o amor,
Digo que o primeiro passo me assombrou e me deu tanto prazer
Que eu nem sequer teria passado, e dificilmente teria desejado passar além daquele ponto,
Mas quereria parar ali e vaguear o tempo inteiro, cantando tudo aquilo em cantos extáticos.


Precursores

Como eles são dádivas vindas para a terra (aparecendo a intervalos),
Como são queridos e terríveis para o mundo,
Como eles se acostumam a si mesmos, assim como a qualquer outro — que paradoxo parece o tempo deles,
Como as pessoas reagem a eles ainda que os não conheçam,
Como algo de inevitável há no destino deles em todos os tempos,
Como todos os tempos escolhem mal os objetos de sua adulação e sua recompensa,
E como o mesmo preço inexorável tem de ainda ser pago pela mesma grandeza encomendada.


Para os Estados Unidos

Para os Estados Unidos ou qualquer um que neles viva, em qualquer cidade do país: Resisti muito, obedecei pouco,
Uma vez obediência inquestionável, uma vez completa escravatura,


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Uma vez completa escravatura, nenhuma nação, estado, cidade desta terra, resgatará sua liberdade desse dia em diante.


Jornadas pelos Estados Unidos

Em jornadas pelos Estados Unidos começamos,
(Sim, através do mundo, instados por estas canções,
Navegando doravante por toda a terra e todo o mar)
Nós, desejosos aprendizes de tudo, professores de tudo, amantes de tudo.

Assistimos às estações que se doam e passam,
E temos dito: por que não deveria um homem ou uma mulher fazer tal qual as estações, transbordando o mesmo
tanto de si mesmos?

Nós vivemos um pouco em cada cidade e em cada vila,
Passamos pelo Canadá, o Nordeste, o vasto vale do Mississippi e os Estados do Sul,
Nós nos comunicamos em termos igualitários com cada um dos Estados,
Nós fazemos julgamento de nós mesmos e convidamos homens e mulheres para ouvi-lo,
Dizemos a nós mesmos: lembrai-vos, não temais, sede sinceros, promulgai o corpo e a alma,
Vivei o momento e passai adiante, sede copiosos, moderados, castos, magnéticos,
E aquilo que transbordardes pode então retornar, tal qual as estações retornam,
E podereis ser apenas tanto quanto são as estações.


Para uma certa cantarina

Aqui, recebe este presente,
Eu o havia reservado para algum herói, orador ou general,
Alguém que deveria servir à boa e antiga causa, à grande idéia, ao progresso e à liberdade da raça,
Algum valente que encara os tiranos, algum ousado rebelde;
Mas vejo que o que havia reservado a ti pertence tanto quanto a eles.



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Eu imperturbável

Eu imperturbável, de pé, tranqüilo, em meio à Natureza,
Mestre de tudo ou de tudo concubina, aprumado em meio ao que é irracional,
Imbuído como eles, passivo, receptivo, silencioso tal qual eles,
Encontrando minha ocupação, pobreza, notoriedade, excentricidade, crimes, sendo menos importante do que pensava,
Eu, na direção do mar do México, ou em Mannahatta ou Tennessee, ou bem ao norte, ou no interior,
Um homem rio, ou um homem da floresta ou de qualquer vida rural destes Estados Unidos ou da costa, ou dos lagos ou do Canadá,
Eu, onde quer que minha vida seja vivida, eu para ser auto-equilibrado nas contingências,
Para confrontar a noite, as tempestades, a fome, o ridículo, os acidentes, as repulsas, tal como fazem as árvores e os animais.


Sabedoria

Mais longe, enquanto observo, vejo cada resultado e a glória revisitada, aconchegada aqui perto, sempre como obrigação,
Mais longe as horas, os meses, os anos — mais longe os negócios, o que é sólido, os estabelecimentos, até mesmo o mais minúsculo,
Mais longe cada dia da vida, cada discurso, cada utensílio, cada política, as pessoas, os estados;
Mais longe nós também, eu com minhas folhas e canções, confiante, admirador,
Como um pai que vai para seu pai e com ele traz seus filhos.


A nau saindo

Olhem, do mar sem fim,
Em seu seio a nau saindo, içando as velas, levando mesmo suas velas lunares,
No topo do mastro a flâmula ondula, à medida que ela corre, corre altiva — abaixo as ondas rivais impulsionam para frente,
Em torno da nau com brilhantes movimentos curvilíneos e espuma.



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Ouço a América cantando

Eu ouço a América cantando, cantos alegres e variados ouço,
O canto dos mecânicos, cada um entoa seu canto, tal como deveria ser em júbilo e em força,
O carpinteiro cantando quando mede sua prancha ou viga,
O pedreiro cantando quando começa o seu trabalho, ou quando o finda,
O barqueiro cantando o que a ele pertence em seu barco, o taifeiro cantando no convés do barco a vapor,
O sapateiro cantando quando senta em seu banco, o chapeleiro cantando quando está de pé,
A canção do lenhador, a do lavrador quando vai em seu caminho de manhã, ou no descanso ao meio-dia, ou no crepúsculo,
O canto delicioso de uma mãe, ou da jovem esposa em seu trabalho, ou da garota costurando ou lavando,
Cada um cantando o que pertence a si mesmo e a ninguém mais,
O dia canta o que pertence ao dia — à noite, a festa de jovens camaradas, robustos e amigáveis,
Cantando com suas bocas abertas suas fortes e melodiosas canções.


Que lugar está sitiado?

Que lugar está sitiado?
Que lugar está sitiado e em vão procura erguer o sítio?
Vê, eu envio para lá um comandante, veloz, bravo, imortal,
E com ele, que vai a cavalo e a pé, as peças de artilharia,
E artilheiros, os mais letais que já empunharam armas.


Ainda assim eu canto o um

Ainda assim eu canto o um,
(Um, feito em contradições) Eu o dedico à Nacionalidade,
Eu deixo nele a rebelião (Ó latente direito à insurreição! Ó inextinguível, indispensável fogo!)


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Não fecheis as vossas portas
Não fecheis para mim as vossas portas, orgulhosas bibliotecas,
Pois o que estava faltando em vossas bem fornidas prateleiras, ainda que tão pobres, eu trago,
Da guerra recém-saído, um livro eu preparei,
Nada pelas palavras do meu livro, por seu sentido, tudo,
Um livro que existe por si mesmo, sem relação alguma com os demais e que não tem sentido se lido apenas com o intelecto,
Mas vós, em vossos silêncios latentes, haveis de tremer a cada página, assombrados.


Poetas do porvir

Poetas do porvir! Oradores, cantores, músicos que virão!
Não é dia de me justificar e responder a que vim,
Mas vós, uma nova geração de nativos, atléticos, continentais, maiores que quaisquer outros conhecidos,
Levantai-vos! Pois tendes de justificar-me.

Eu mesmo só escrevo uma ou duas palavras indicativas do futuro,
Faço mover a roda para frente um instante e retorno às sombras bem depressa.

Eu sou um homem que, vagando por aí sem nunca ter parada, lança casualmente para vós um olhar e em seguida desvia o próprio rosto,
Deixando para vós a missão de prová-lo e defini-lo,
Esperando de vós as coisas mais altivas.


Para ti

Desconhecido, se tu que passas e me encontras quiseres a mim te dirigir, por que não o farás?
E por que eu não deveria contigo dialogar?



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A ti, leitor

Tu, leitor, que palpitas de vida e orgulho e amor, assim como eu,
Para ti, por isso, os cantos que aqui seguem.


Saindo de Paumanok

1

Saindo de Paumanok com sua forma de peixe, onde nasci,
Bem concebido e educado por uma mãe perfeita,
Depois de vagar por muitas terras, amante de populosos pavimentos,
Vivendo em Mannahatta, minha cidade, ou nas savanas do sul,
Ou como soldado acampado, ou carregando minha mochila e minha arma, ou mineiro na Califórnia,
Ou rude em minha casa nas florestas de Dakota, fazendo minha dieta de carne, sorvendo minha bebida diretamente da fonte,
Ou retirado para a musa e absorto em algum recesso profundo,
Longe do estrépito das massas, vivendo a intervalos, enlevado e feliz,
Consciente do frescor desse Missouri livremente dadivoso, consciente do poderoso Niagara,
Consciente dos rebanhos de búfalos que pastam pelas planícies, o touro de peito forte e cabeludo,
Ó terra, pedras, a experiência das flores com cinco meses, estrelas, chuva, neve, o meu espanto,
Tendo estudado os tons do zombeteiro passarinho e o vôo do falcão montanhês,
E tendo ouvido, na alvorada, aquele sem rival, o tordo ermitão do pântano de cedro,
Solitário, cantando no Oeste, eu me lanço para um Novo Mundo.


2

Vitória, união, identidade, tempo,
Os indissolúveis maciços, riquezas, mistérios,
Progresso eterno, o cosmos, e os relatos modernos,

Isso, então, é vida,
Aqui está o que emergiu depois de tanta agonia e convulsão.



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Que curioso, que real!
Sob os pés, o solo divino, o sol sobre a cabeça.

Vê o globo que gira,
Os continentes ancestrais, distantes uns dos outros, agrupados,
Os continentes presentes e futuros, norte e sul, com os istmos entre eles.

Vê os espaços vastos sem ter trilhos,
Como num sonho mudam e se enchem prontamente,
Massas incontáveis sobre eles desembocam,
Cobertos agora com os povos mais ousados — artes, instituições — conhecidos.

Vê, projetada pelo tempo,
Para mim uma audiência inacabável.

Com passo firme e regular eles caminham, e nunca cessam,
Sucessões de homens, americanos, cem milhões,
Uma geração, vivendo a sua parte, passa,
Uma outra geração, vivendo a sua parte, passa por sua vez,
Com suas faces voltadas para os lados ou para trás, em minha direção para me ouvir,
Com olhos retrospectivos para mim.


3

Americanos! Conquistadores! Marchai, humanitários!
Na dianteira! Marchas seculares! Liberdade! Massas!
Para vós uma programação de canções.

Cantos das campinas,
Cantos do extenso Mississipi, e abaixo para o mar do México,
Cantos de Ohio, Indiana, Illinois, Iowa, Wisconsin e Minnesota,
Cantos avançando do centro, do Kansas, e de lá, eqüidistante,
Atirando em pulsos de fogo ininterrupto para tudo encher de vida.


4

Leva as minhas folhas, América, leva-as para o Sul e leva-as para o Norte,
Dá-lhes em toda parte as boas-vindas, pois são elas crias tuas.
Envolve-as no Leste e no Oeste, pois elas quereriam te envolver,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 39] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E vós, precedentes, uni-vos amavelmente a elas, porque elas a vós se unem amavelmente.

Aprendi a antiguidade,
Sentei-me para aprender aos pés dos grandes mestres,
Agora, se eu for digno, ah, que possam os grandes mestres volver e me estudar.

Em nome destes Estados, devo eu menosprezar o passado?
Ora estão aqui os filhos do passado para justificá-lo.


5

Poetas mortos, filósofos, sacerdotes,
Mártires, artistas, filósofos, inventores, governantes de há muito,
Escultores das línguas de além-mar,
Nações que um dia foram poderosas, agora reduzidas, retraídas ou desoladas,
Eu não ouso prosseguir até que respeitavelmente reconheça o que vós deixastes deste lado.
Eu já o li, confesso o quanto é admirável (movendo-me um instante em meio dele),
Penso que nada pode ser maior, nada pode jamais merecer mais do que ele merece,
Referindo-me a todo ele atenta e demoradamente, e após deixando-o passar,
Eu permaneço em meu posto no meu tempo e lugar.

Aqui as terras, fêmeas e machos,
Aqui os herdeiros e herdeiras do mundo, aqui a chama dos materiais,
Aqui as tradutoras da espiritualidade, abertamente declaradas,
As que tendem para sempre, o final das formas visíveis,
As que satisfazem, após uma longa espera do que agora avança,
Sim, aqui vem minha amante: a alma.


6

A alma,
Para sempre e pela eternidade — por mais tempo do que o solo é pardo e sólido, mais tempo do que a água fluindo e refluindo.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 40] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Quero fazer os poemas da materialidade, pois penso que serão entre todos os mais espirituais,
E farei os poemas do meu corpo e do que há de mortal,
Pois creio assim estar a mim mesmo concedendo os poemas de minha alma e da imortalidade.

Tecerei um cântico a estes Estados para que Estado algum, em circunstância alguma, esteja sujeito a outro Estado,
E entoarei uma canção para que exista polidez noite e dia entre todos os Estados e entre dois deles quaisquer.
E farei uma canção para os ouvidos do Presidente, cheio de armas com pontas ameaçadoras,
E, por trás das armas, incontáveis faces insatisfeitas;
E a canção que eu teço é do Um que é feito do amálgama de todos,
Esse Um cintilante e armado cuja cabeça se eleva sobre todos,
Resoluto e guerreiro Um inclusivo e acima de todos,
(Por mais alto que se eleve qualquer cabeça, aquela cabeça permanecerá por cima).

Reconhecerei as terras hodiernas,
Palmilharei a inteira geografia da terra e saudarei cordialmente cada cidade grande ou pequena,
E os empregos! Porei em meus poemas que em vós está o heroísmo sobre a terra e sobre o mar,
E contarei o heroísmo sob o ponto de vista americano.

Cantarei a canção do companheirismo,
Quero mostrar o que sozinho deve enfim unir-se a estes,
Creio que estes hão de encontrar seu ideal de humano amor indicando-o em mim,
E eu, assim, permitirei que flamejem em mim os fogos abrasadores que ameaçavam consumir-me,
Erguerei o que por muito tempo manteve tíbio esse fogo que queima sem ter chamas,
Eu lhes darei completa liberdade,
Escreverei o poema, evangelho de camaradas e de amor,
Pois quem, senão eu, deveria entender o amor com toda a sua aflição e alegria?
E quem, senão eu mesmo, deveria ser o poeta dos camaradas?




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7

Sou o crédulo homem das qualidades, idades e raças,
Eu desponto do povo em seu próprio espírito,
Aqui está aquilo que se canta com irrestrita fé.

Omnes! Omnes! Deixai que os outros ignorem seja o que for,
Escrevo o poema do mal também, eu também comemoro essa outra parte,
Eu mesmo sou tão mal quanto sou bom, e minha nação é — e digo que não há, de fato, mal algum,
(Ou se há o mal, eu digo, ele é tão importante para vós, para a terra ou para mim quanto qualquer outra coisa.)

Eu também, que muitos sigo e por muitos sou seguido, inauguro uma religião, na arena ingresso,
(Pode ser que eu esteja destinado a soltar lá os gritos mais fortes, os gritos retumbantes dos vencedores,
Quem sabe? Eles podem se elevar de mim ainda e planar acima de todas as coisas.)

Nada há que exista por si mesmo,
Digo que a terra inteira e todos os astros no céu existem em nome da religião.

Eu digo que homem algum foi jamais metade devoto o suficiente,
Ninguém jamais adorou ou cultuou metade do suficiente,
Ninguém começou sequer a pensar o quão divino ele mesmo é, e quão certo é o futuro.

Digo que a grandeza real e permanente desses Estados deve ser sua religião,
De outro modo não há grandeza real e permanente;
(Nem caráter nem vida valem o nome sem religião,
Nem terra nem homem ou mulher sem religião.)


8

O que fazes, meu rapaz?
És tão ardente, tão entregue à literatura, à ciência, à arte, ao namoro?
E essas realidades ostensivas, políticas, esses pontos?
E a tua ambição ou teus negócios, quaisquer que sejam?



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Está bem — contra isso não digo uma palavra, eu sou também poeta deles,
Mas contempla! Uma tal queda é repentina: ser queimado em nome da religião.
Nem toda matéria promove o calor, a flama intangível, a vida essencial da terra,
Tudo isso não é apenas para a religião.


9

O que procuras, tão pensativo e silente?
Do que precisas, camarada?
Amado filho, pensas que é o amor?

Ouve, querido filho — ouve, América, filha ou filho,
É doloroso amar um homem ou uma mulher excessivamente, embora ao mesmo tempo satisfaça, seja grandioso,
Mas há algo mais que é tão imenso e que faz o todo coincidir,
Aquele que suntuoso, além da matéria, com suas mãos continuamente tudo limpa e tudo sustenta.


10

Conhece, apenas para deixar cair na terra as sementes de uma nova religião,
Os seguintes cantos, cada qual do seu tipo, que entôo.

Meu camarada!
Compartilha comigo duas grandezas, e uma terceira erguendo-se inclusiva e resplendente,
A grandeza do Amor e da Democracia, e a grandeza da Religião.

Miscelânea própria de mim, o não visto e o visto,
Oceano misterioso onde há fluxos vazios,
Espírito profético da matéria, transformando-se e bruxuleando em minha volta,
Seres viventes, identidades que agora não hesitam, próximas de nós no ar que desconhecemos,
Contato diário e de cada hora que não me abandona um segundo,
Esses que são seletivos, esses que me pedem sugestões.

Não ele, o beijo diário com o qual me beijas progressivamente desde a infância,


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Esbaforiu-se e cingiu-se em minha volta aquele que a ele me prende,
Tanto quanto eu vivo abraçado aos céus e ao mundo espiritual inteiro,
Após o que eles me criaram soprando tantos temas.

Ah, tais temas! — igualdades! Ah, divina média!
Gorjeios sob o sol, introduzidos como agora, ou ao meio-dia, ou no crepúsculo,
Tensões da música que flui pelas eras, agora chegando até aqui,
Eu tomo as tuas cordas imprudentes e compostas, a elas acrescento e alegremente passo-as adiante.


11

Quando eu fazia no Alabama o meu passeio matinal,
Vi onde a fêmea do pássaro-das-cem-línguas pousou em seu ninho entre as roseiras bravas, chocando suas crias.

Vi também o macho passarinho,
Parei para ouvi-lo próximo de mim inflando o peito e cantando alegremente.

E quando parei ali, notei que não estava ali somente para o que assim cantava,
Nem para a sua companheira, nem para ele mesmo apenas, nem para tudo que é devolvido pelos ecos,
Mas sutil, clandestino, longe e além,
Tecia uma declaração e oculta dádiva para aqueles que nasciam.


12

Democracia! Próxima de ti uma garganta que agora infla e que canta alegremente.

Ma femme! Pela ninhada além de nós e nossa,
Pelos que são daqui e os que virão,
Exulto de estar pronto para eles e quero entoar cânticos, agora mais fortes e mais agudos do que todos os que já foram ouvidos sobre a Terra.

Farei as canções da paixão para lhes dar passagem,


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E também os vossos cantos, criminosos foras-da-lei, pois eu vos fito com olhos consangüíneos e vos trago comigo iguais aos outros.

Tecerei o verdadeiro poema das riquezas,
Ganhando para o corpo e para a alma tudo o que adere e vai adiante e não é suprimido pela morte;
Entornarei o egotismo e revelarei que a tudo ele dá base e serei o bardo da personalidade.
E mostrarei do masculino e do feminino que cada qual é apenas aimagem um do outro,
E os órgãos sexuais e os atos! Concentrai-vos em mim, pois estou determinado a contar-vos, com voz corajosamente clara, para provar-vos ilustres.
E revelarei que não há imperfeição no presente e que ela também não pode existir no futuro,
E mostrarei que tudo o que acontece a uma pessoa qualquer pode redundar em maravilhosos resultados,
E provarei que nada pode ocorrer a alguém que seja mais belo do que a morte,
E enfiarei um raio de luz através de meus poemas que farão do tempo e dos eventos um mesmo ser compacto.
E verás que todas as coisas do Universo são milagres perfeitos, cada um tão profundo quanto o outro.

Não escreverei meus poemas em referência às partes,
Mas escreverei poemas, canções, reflexões, com referência ao conjunto,
E não cantarei fazendo referência a um só dia, mas farei referência a todos os dias,
E não farei um poema, nem a mínima parte de um poema, para referir-me exclusivamente à alma,
Pois tendo observado os objetos do universo, descubro que não há qualquer um deles, e nem sequer uma partícula de um deles, que não seja uma referência à alma.


13

Alguém estava pedindo para ver a alma?
Veja vossa própria forma e expressão, as pessoas, as substâncias, os animais, as árvores, os rios que correm, as pedras e a areia.

Tudo contém alegria espiritual e em seguida dela se desprende;


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Como pode algum dia o corpo real morrer e ser enterrado?

No vosso corpo real, e qualquer corpo verdadeiro de homem ou de mulher,
Item por item confundirá as mãos dos preparadores de cadáver e passará às esferas adequadas,
Levando aquilo que proveio do momento do nascimento até o momento da morte.

As letras pelo tipógrafo dispostas geram a impressão, o sentido, a idéia central,
Tanto quanto a substância e vida de um homem ou a vida e substância de uma mulher são gravados no corpo e na alma,
Antes e depois da morte, indiferentemente.

Notai, o corpo contém e é o sentido, a idéia central; ele contém e é a alma;
Quem quer que sejais vós, quão soberbos e divinos são os vossos corpos, ou qualquer parte deles!


14

Quem quer que sejais vós, para vós mesuras sem fim!

Filhas das terras, esperastes pelo vosso poeta?
Esperastes por aquele com uma boca graciosa e mão indicativa?
Apontando para os homens dos Estados e para as mulheres dos Estados,
Com palavras de exultação, palavras de terras democráticas.

Terras interligadas, generosas por seus frutos!
Terra de carvão e de aço! Terra do ouro! Terra de algodão, açúcar, arroz!
Terra de trigo, de bovinos, de suínos! Terra da lã e do linho! Terra da maçã e da uva!
Terra de planícies pastorais, campos de relva do mundo! Terra daqueles intermináveis platôs de brisa doce!
Terra das manadas, dos jardins, da saudável moradia de argila!
Terras onde sopra o vento nordeste de Colúmbia e o vendo sudeste do Colorado!
Terra de Chesapeake ao leste! Terra do Delaware!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 46] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Terra do Ontário, Erie, Huron, Michigan!
Terra dos Treze Antigos! Terra de Massachusetts! Terra de Vermont e Connecticut!
Terra das costas oceânicas! Terra das serras e dos picos!
Terra de barqueiros e marinheiros! Terra de pescadores!
Inextricáveis terras! Unidas! Apaixonantes!
Lado a lado! Os irmãos mais velhos e os mais jovens! Os ossos em seus membros!
A terra das grandes mulheres! O feminino! As irmãs experientes e as irmãs inexperientes!
Terra das brisas longínquas! Suportada pelo Ártico! Bafejada pelas brisas mexicanas! Diversificada! Densa!
As da Pensilvânia, as da Virgínia, as das duas Carolinas!
Ah, todos bem amados por mim! Minhas intrépidas nações! Ah, eu em todos os graus abraço-vos com perfeito amor!
Eu não posso de vós me desligar! De nenhum de vós mais cedo do que o outro!
Ah, morte! Ah, por tudo aquilo, eu sou ainda por vós não enxergado nesta hora com amor irreprimível,
Andando pela Nova Inglaterra, um amigo, um viajante,
Usando meus pés descalços, para espirrar a água das ondinhas de verão, nas bordas das areias, em Paumanok.
Cruzando os prados, vivendo em Chicago uma vez mais, vivendo em toda cidade,
Testemunhando espetáculos, nascimentos, progresso, estruturas, artes,
Ouvindo oradores e oradoras falar em átrios públicos,
Nestes Estados, deles e através deles, cada homem e mulher, um vizinho meu.
Os da Louisiana, os da Geórgia, tão próximos de mim, tal como eu tão próximo deles e delas,
Os de Mississippi e os de Arkansas até agora comigo, e eu até agora com qualquer um deles,
E também sobre as planícies, a oeste do rio raquiano, ainda em minha casa de argila,
E também voltando para o Leste, e ainda no Estado costeiro ou em Maryland,
E também os canadenses, alegremente suportando o inverno, a neve e o gelo, são bem-vindos para mim,
E também um filho verdadeiro do Maine ou dos Estados do Granito, ou do Estado da Baía de Narragansett, ou do Estado do Império,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 47] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E também navegando a outras praias para juntar-me aos mesmos, dando ainda as boas-vindas para cada novo irmão,
Aqui introduzindo estas folhas para os novos do momento que se unem aos antigos,
Eu venho entre os novos para ser deles companheiro e igual, vindo a vós pessoalmente agora,
Ordenando-vos para ações, personagens, espetáculos, comigo.


15

Comigo, com um abraço firme, contudo pressa! Apressai-vos!

Por vossa vida uni-vos a mim
(Eu posso ter de ser persuadido muitas vezes antes de consentir entregar-me a vós completamente, mas o que tem isso?
Não tem de ser persuadida muitas vezes também a própria Natureza?)

Não um eu delicado, doce e afetuoso,
Mas barbado, queimado de sol, com pescoço pardo, proibitivo. Eu cheguei,
Para participar das lutas na medida em que caminho no rumo dos sólidos prêmios do universo,
Pois é isso tudo o que ofereço a quem quer que persevere para vencê-los.


16

Em meu caminho eu paro por um instante,
Aqui por vós! E aqui pela América!
Paralisado no presente eu me ergo e fico em suspensão, paralisado no futuro destes Estados eu inspiro o alegre e o sublime,
E pelo passado eu pronuncio aquilo que guarda o éter dos aborígines vermelhos.

Os aborígines vermelhos,
Respirando ao natural, ao som dos ventos e da chuva, têm nomes de pássaros, de animais na floresta, têm nomes que são sílabas para nós,
Okonee, Koosa, Ottawa, Monongahela, Sauk, Natchez, Chattahoochee, Kaqueta, Oronoco,
Wabash, Miami, Saginaw, Chippewa, Oshkosh, Walla-Walla,
Deixando esse legado para estes Estados, eles se desfazem, partem, lançando sobre a água e sobre as terras os seus nomes.




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17

Expandindo-se sem delongas, doravante,
Elementos, procriadores, que se ajustam, turbulentos, ligeiros e audaciosos,
Um mundo primitivo novamente, visões da glória incessante que se ramifica,
Uma nova raça, dominando as que a antecedem, capaz de avançar muito mais longe, com novas disputas,
Novas políticas, nova literatura e religião, novos inventos e arte.

Tendo isso minha voz anunciado — não mais dormirei, mas erguer-me-ei,
Vós, oceanos que estivésseis calmos dentro de mim! Como vos sinto, Incompreensíveis, agitando-se, preparando ondas sem igual e tempestades.


18

Vede navios a vapor soltando vapores através de meus poemas,
Vede, em meus poemas, imigrantes constantemente vindo e aterrissando,
Vede, em arriere, a tenda de convenções, a trilha, a cabana do caçador, a canoa, a palha de milho, a reivindicação, a cerca ndelicada, e a vila tão remota,
Vede de um lado o Mar do Oeste e do outro o Mar do Leste, como avançam e recuam sobre os meus poemas, tal como o fazem sobre as suas próprias praias,
Vede pastos e florestas em meus poemas — vede animais selvagens e domesticados — vede além do gado as manadas e búfalos sem conta na relva baixa e crespa,
Vede, em meus poemas, cidades sólidas, vastas, interioranas, com ruas pavimentadas, com edifícios de aço e pedra, com veículos que não cessam e comércio,
Vede as gráficas a vapor com seus muitos cilindros — vede o telégrafo elétrico que se espicha através do continente,
Vede os pulsos que viajam nas profundezas atlânticas da América até a Europa, pulsos que da Europa retornam pontualmente,
Vede a locomotiva forte e rápida à medida que ela parte, pintando o céu, tocando seu apito a vapor,
Vede lavradores arando as fazendas — vede mineiros escavando as minas — vede as fábricas inumeráveis,


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Vede os mecânicos ocupados em seus assentos com as ferramentas — vede que entre eles emergem juízes superiores, filósofos, presidentes, vestidos em roupas de operário,
Vede, caminhando entre as lojas e os campos dos Estados, eu bem amado, abraçadinho dia e noite,
Ouvi os altos ecos de meus cantos lá — lede as sugestões que chegam afinal.


19

Ó camarada que estás próximo! Ó tu e eu finalmente, e nós dois apenas.
Ó uma palavra para abrir o caminho de alguém que possa ir em frente sem limites!
Ó algo extático e inexprimível! Ó música selvagem!
Ó agora eu triunfo — e tu também;
Ó de mãos dadas — Ó prazer saudável — Ó mais um amante cheio de desejos!
Ó apressa-te neste abraço firme — apressa-te, apressa-te comigo.



Canção de mim mesmo

1

Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.

Crenças e escolas quedam-se dormentes,
Retraindo-se por hora na suficiência do que são, mas nunca esquecidas,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 50] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.


2

Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, não tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado,
Irei até à colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-me da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis por encontrar),
Não possuirás coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através dos olhos de quem já morreu, nem te


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 51] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



          alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.


3

Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.

Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora.

O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.

Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.

Não vale a pena elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.
Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.
Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível,
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.

Apresentando o melhor e isolando-o do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a equanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.

Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 52] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.

Estou satisfeito — vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?


4

Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta,
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.

Longe do que puxa e do que arrasta, ergue-se o que de fato eu sou,
Ergue-se divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Olha para baixo, está ereto, ou descansa o braço sobre certo apoio impalpável,
Olhando com a cabeça pendida para o lado, curioso sobre o que está por vir,
Tanto dentro como fora do jogo, e o assistindo, e intrigado sobre ele.

No passado vejo em meus próprios dias quando suei através do nevoeiro com lingüistas e contendores,
Não trago zombarias ou argumentos, apenas testemunho e aguardo.




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5

Acredito em ti, minha alma, o outro que eu sou não deve se humilhar para ti,
E tu não deves te humilhar para o outro.

Vadia comigo sobre a relva, solta a válvula de tua garganta,
Nem palavras, nem música ou rima eu desejo, nem fantasias ou discursos, nem mesmo os melhores,
Só da calmaria eu gosto, do zumbido da tua voz valvulada.

Lembro-me de como certa vez nós nos deitamos numa manhã de verão transparente como a de hoje,
De como pousaste obliquamente tua cabeça sobre meu colo e gentilmente te viraste para mim,
Abriste a camisa no meu peito e impeliste a língua no meu coração despido,
E alcançaste a minha barba até senti-la, e alcançaste o extremo dos meus pés para segurá-los.

De repente, tu te levantaste e espalhaste em minha volta a paz e o conhecimento que vão além de todos os argumentos da terra,
Eu sei que a mão de Deus é a promessa da minha,
E eu sei que o espírito de Deus é o irmão do meu espírito,
E que todos os homens que já nasceram são igualmente meus irmãos, e todas as mulheres minhas irmãs e amantes.
E que a sobrequilha da criação é o amor,
E que infinitas são as folhas rijas ou caídas pelos campos,
E as formigas marrons nos pequenos poços sob elas,
E as crostas musgosas da cerca, das rochas empilhadas, do ancião, do verbasco e da erva-dos-cancros.


6

Uma criança disse O que é a relva?, encantadora para mim, apresentando-a em suas mãos;
O que eu poderia responder à criança? Ignoro o que a relva é tanto quanto esse menino.

Penso que seja a bandeira de minha disposição, tecida a partir de um algo verde esperançoso.



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Imagino que seja o lenço do Senhor,
Um presente perfumado, uma lembrança deixada para nós como um desígnio,
Tendo o nome do dono gravado de algum modo nos cantos, para que possamos ver e destacar, e dizer De quem?

Ou é possível que a relva ela mesma seja uma criança, o bebê criado pela vegetação.

Imagino que seja um hieróglifo uniforme,
E significa que brota tanto nas zonas largas quanto nas estreitas,
Crescendo tanto entre os negros quanto entre os brancos,
Canadenses, tuckahoes, congressistas, presos — eu dou a eles o mesmo, eu deles recebo o mesmo.

E agora me parece que ela é o lindo cabelo longo dos túmulos.

Com carinho eu te usarei, relva crespa,
Pode ser que transpires do peito de jovens rapazes,
Pode ser que se eu os tivesse conhecido eu os teria amado,
Pode ser que venhas dos velhos, ou de recém-nascidos arrancados prematuramente do colo de suas mães,
E aqui tu te transformas em colos de mãe.

Esta relva é muito escura para que provenha dos cabelos brancos das mães,
Mais escura que as barbas sem cor dos anciãos,
Escura para vir de sob os desfalecidos céus vermelhos das bocas.

Ah! percebo afinal tantas línguas pronunciando,
E percebo que elas não vêm dos céus da boca à toa.

Eu gostaria de poder traduzir as insinuações sobre os rapazes e as moças mortas,
E as insinuações sobre os velhos e as mães, e das criancinhas que foram levadas prematuramente dos colos.

O que achas que foi feito dos jovens e dos velhos?
E o que achas que foi feito das mulheres e das crianças?

Eles estão vivos e bem em alguma parte,


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O brotinho é a prova de que de fato não há morte,
E se acaso algum dia ela existiu, conduziu-se adiante para a vida; não ficou à espera no final para prendê-la,
E deixou de ser a morte no momento em que a vida apareceu.

Tudo avança e se expande, nada entra em colapso,
Morrer é algo diferente do que qualquer um pode supor, é uma sorte maior.


7

Alguém se julgou afortunado por ter nascido?
Apresso-me a informá-lo ou informá-la que morrer é ter a mesma sorte, e disso tenho ciência.

Passo pela morte com aquele que morre e pelo nascimento com o nascituro, e não estou contido entre o meu chapéu e minhas botas.
E examino muitos objetos; não há dois que sejam idênticos e todos são bons,
A Terra é boa e as estrelas são boas, e seus adjuntos são bons.

Não sou uma Terra nem o adjunto de uma Terra,
Eu sou o parceiro e o companheiro dos povos, todos tão imortais e insondáveis como eu sou
(Eles não têm ciência de sua imortalidade, mas eu tenho.)

Cada tipo para si e para aquilo que é seu, para mim o meu macho ou minha fêmea,
Para mim os que foram meninos e que amam as mulheres,
Para mim o homem orgulhoso que sabe a dor de ser desprezado,
Para mim a moça amada e a velha solteirona, para mim as mães e as mães das mães,
Para mim lábios que já sorriram, olhos que verteram lágrimas,
Para mim as crianças e aqueles que geram as crianças.

Descortinai-vos! Não sois culpados para mim, nem caducos, nem descartados,
Eu vejo através da lã e do algodão pelo sim e pelo não,
E estou próximo, tenaz, ambicioso, incansável, e não posso ser afugentado.




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8

O pequenino dorme em seu berço,
Ergo a tela e o observo por um tempo longo, e sem alarde espanto as moscas com a mão.

O jovem e a moça de rosto rosado se viram para o lado na montanha repleta de arbustos,
Eu os perscruto olhando-os lá do alto.

O suicida está esparramado no chão, ensangüentado no quarto de dormir,
Eu testemunho o cadáver com seus úmidos cabelos e noto onde a pistola caiu.

A tagarelice das calçadas, as rodas das carroças, a lama na sola das botas, a conversa no passeio público,
O ônibus pesado, o motorista com seu polegar interrogativo, o estrépito das ferraduras no chão de granito,
Os trenós, os estalidos, as piadas gritadas, o impacto das bolas de neve,
As saudações para os favoritos do povo, a fúria das hordas inflamadas,
A agitação das cortinas da liteira, um doente carregado ao hospital,
O encontro de inimigos, a blasfêmia repentina, as pancadas e a queda,
A multidão excitada, os policiais com sua estrela forçando apressadamente a passagem para o centro da turba,
As rochas impassíveis que recebem e devolvem tantos ecos,
Que gemidos de empanzinados ou famintos que caem de insolação ou com espasmos,
Que exclamações de mulheres que entram subitamente em trabalho de parto e correm para suas casas dando à luz os seus bebês,
Que discurso vivo e subterrâneo está sempre aqui vibrando, que uivos reprimidos pelo decoro,
A prisão de criminosos, desprezados, ofertas adúlteras feitas, consentimentos, rejeições com lábios convexos,
Eu os percebo ou a sua aparição ou a sua ressonância — eu chego e me vou.




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9

As grandes portas do celeiro no interior mantêm-se abertas e prontas,
A relva seca do tempo de colheita enche o vagão da carroça levada lentamente,
A luz cristalina brinca com o marrom acinzentado e com o verde misturado,
As braçadas enfeixadas no monte de feno movediço.

Eu estou lá, eu ajudo, vim estirado no alto da carga,
Senti o sacolejar macio, uma perna reclinada sobre a outra,
Pulo das vigas e arranco o trevo e o capim,
Dou cambalhotas e emaranho meus cabelos plenos de mechas.


10

Solitário, nas longínquas selvas e montanhas eu caço,
Perambulando espantado com a minha própria leveza e meu júbilo,
No fim da tarde, escolhendo um local seguro para passar a noite,
Acendendo uma fogueira e cozinhando a caça fresca,
Adormecendo sobre um monte de folhas com meu cachorro, tendo meu rifle ao meu lado.

O veleiro ianque está debaixo de suas velas de céu, ele corta as chispas e desliza,
Meus olhos divisam a terra, debruço-me sobre a proa ou grito alegremente do convés.

Os marinheiros e os catadores de marisco levantaram bem cedo e vieram me apanhar,
Eu enfiei as barras de minhas calças dentro das botas e fui e me diverti;
Tinhas de estar conosco naquele dia junto ao caldeirão de ensopado.

Assisti ao casamento do caçador de peles ao ar livre, no Oeste longínquo, a noiva era uma pele-vermelha,
O pai dela e seus amigos sentaram próximos com suas pernas cruzadas e fumavam mudos; eles calçavam mocassins e tinham spessos cobertores sobre os ombros,
Numa elevação assentava-se o caçador, ele estava vestido quase inteiramente com suas peles, sua barba e os cachos do cabelo pulentos protegiam seu pescoço, ele conduzia sua noiva pelas mãos,
Ela tinha longos cílios, sua cabeça estava nua, sua cabeleira lisa e



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grossa caía sobre os braços voluptuosos e alcançava até os pés.

O escravo fugitivo chegou à minha casa e parou lá fora,
Ouvi os movimentos com os quais ele quebrou os gravetos na pilha de lenha,
Pela porta entreaberta da cozinha, eu o vi hesitante e frágil,
E fui até o tronco em que ele se sentava, trouxe-o para dentro e o acalmei,
Trouxe água e enchi uma banheira para o seu corpo suado e seus pés feridos,
Dei-lhe um quarto contíguo ao meu, dei-lhe algumas roupas ordinárias e limpas,
Lembro-me perfeitamente bem de seus olhos agitados e de seu constrangimento,
E lembro-me de colocar emplastros nas escoriações de seu pescoço e de seus tornozelos;
Ele ficou comigo durante uma semana até se recuperar e continuar sua jornada para o norte,
Eu fazia com que se sentasse ao meu lado na mesa, meu mosquete encostado a um canto.


11

Vinte e oito rapazes banham-se na praia,
Vinte e oito rapazes, e todos tão amigos;
Vinte e oito anos de vida feminina e todos tão solitários.

Ela é a proprietária daquela bela casa na subida da margem,
Ela se esconde bela e bem vestida por trás das persianas da janela.

Qual dos rapazes ela mais ama?
Ah! até o mais simplório entre eles lhe parece lindo.

Aonde vais, senhora? Pois te vejo,
Brincas lá na água e ainda assim estás imóvel no teu quarto.

Dançando e rindo pela praia veio a vigésima nona banhista,
Os outros não a viram, mas ela os viu e os amou.

As barbas dos rapazes cintilavam porque estavam molhadas, com a água escorrida de seus cabelos longos.


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Pequenos riachos passaram pelos corpos deles.

Uma mão invisível também passou pelos seus corpos,
Descendo trêmula de suas frontes e costelas.

Os rapazes bóiam de costas, suas barrigas brancas salientes estão voltadas para o sol, eles não perguntam quem os segura com tanta rapidez,
Não sabem quem sopra e se debruça como um arco pendente que se curva,
Eles não imaginam a quem encharcam quando borrifam a água.


12

O rapaz que trabalha no açougue tira o seu avental de matadouro ou afia a sua faca na tenda do mercado,
Eu me demoro apreciando as suas réplicas, o seu barulho e confusão.

Ferreiros de peito horrendo e cabeludo fazem um círculo em torno da bigorna,
Cada um tem o seu malho principal, eles estão todos trabalhando, há um grande calor na forja.

Da soleira coberta de cinzas, acompanho seus movimentos,
A leve agitação de suas cinturas joga até mesmo com seus braços maciços,
De cima para baixo balançam seus martelos, de cima para baixo tão devagar, de cima para baixo com tanta precisão,
Eles não se apressam, cada homem trabalha em seu posto.


13

O negro segura firme as rédeas dos seus quatro cavalos, o bloco cambaleia embaixo da corrente bem atada,
O negro dirige a longa carreta no pátio de pedra; impassível e alto ele se ergue tendo uma perna sobre a longarina,
Sua camisa azul expõe seus vastos pescoço e tórax e se afrouxa sobre os quadris,
Seu olhar de relance é calmo e imperativo, ele afasta da testa a aba do chapéu,
O sol cai sobre os seus crespos cabelos e bigode, cai sobre os seus membros polidos e perfeitos.



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Contemplo o gigante pitoresco e o amo, e não paro por lá,
Sigo com a equipe também.

Em mim aquele que faz carícias na vida para onde quer que se mova, voltando-se para frente ou para trás,
Debruçado sobre nichos laterais e novos, não perco qualquer pessoa ou objeto,
Absorvo tudo para mim mesmo e para esta canção.

Bois sacudindo ruidosamente o jugo e as correntes ou parando sob a sombra das folhas, o que é que expressais em vossos olhos?
Isso me parece mais do que todo impresso que já li em minha vida.

Meus passos assustam o pato selvagem e sua fêmea nesse passeio distante que dura o dia inteiro,
Eles se erguem juntos, eles voam em círculos com lentidão.

Eu creio nesses propósitos alados,
Reconheço o vermelho, o amarelo, o branco, brincando comigo,
E considero o verde e o violeta e a coroa plumada intencional,
E não desprezo o valor da tartaruga porque ela é algo mais,
E o gaio na floresta nunca estudou a escala musical, e ainda assim gorjeia belamente em meu conceito,
E o olhar da égua baia revela a vergonha de minha estupidez.


14

O ganso selvagem guia o seu bando pela noite fria,
Ya-honk, ele diz, e para mim o seu canto soa como um convite.
O insolente pode supor que isso não tem significado, mas, ouvindo com atenção,
Descubro seu propósito e seu lugar na direção do céu de inverno.

O alce de cascos afiados do norte, o gato no peitoril da casa, o canário, o cão dos prados,
A ninhada do javali grunhe quando puxa as tetas da mãe,
Os filhotes da perua e ela têm as asas parcialmente abertas,
Vejo neles e em mim mesmo a mesma velha lei.

A pressão de meu pé sobre a terra faz jorrar uma centena de afeições,
Elas escarnecem do máximo que faço para descrevê-las.



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Estou enamorado da experiência de crescer ao ar livre,
Entre os homens que vivem entre o gado ou degustam os oceanos ou as florestas.
Entre os construtores e capitães de navios, os que empunham machados e marretas e os que conduzem cavalos,
Posso comer e dormir com eles semana após semana.

O que é mais comum, mais barato, mais próximo, mais fácil, sou Eu,
Eu me lançando sobre as minhas chances, investindo para alcançar um retorno vasto,
Enfeitando-me para me entregar ao primeiro que me escolher,
Sem pedir ao céu que baixe para a minha boa vontade,
Espalhando-a livremente para sempre.


15

O puro contralto canta no paiol do órgão,
O carpinteiro reveste a sua prancha, a língua de sua plaina assobia em seu louco e crescente balbucio,
Os filhos casados e solteiros dirigem-se para casa, para o seu jantar de Ação de Graças,
O piloto segura o leme, ele o empurra para baixo com braço forte,
O parceiro ergue-se amparado no barco baleeiro: a lança e o arpão estão prontos,
O caçador de patos anda em silêncio e a passos cautelosos,
Os diáconos são ordenados tendo suas mãos cruzadas no altar,
A tecelã recua e avança ao sabor do zunido do grande tear.
O fazendeiro pára nos bares quando anda no ócio de um fim de semana e observa a aveia e o centeio,
O lunático é finalmente levado para o hospício, um caso confirmado,
(Ele nunca mais dormirá como fazia no abrigo do quarto de dormir de sua mãe)
O impressor diarista, com sua cabeça grisalha e queixo macilento, trabalha no seu estojo,
Ele masca tabaco enquanto seus olhos se embaçam com o manuscrito;
Os membros malformados estão atados à mesa do cirurgião,
Ouve-se o horrível baque daquele que é amputado e cai num balde;
A moreninha é vendida na sala de leilão, o bêbado inclina a cabeça ao lado do aquecedor do bar,
O maquinista arregaça as mangas, o policial faz sua ronda, o sentinela nota quem passa por ali,


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O rapaz dirige o vagão expresso (eu o amo, apesar de não conhecê-lo);
O mestiço calça suas botas leves para competir na corrida,
O tiro ao peru no Oeste atrai velhos e moços, alguns se apóiam em seus rifles, outros sentam-se em troncos de madeira,
Destacado da multidão, o atirador caminha, toma a sua posição, faz mira;
Os grupos de recém-chegados imigrantes cobrem o ancoradouro ou a doca,
Enquanto os negros capinam nas plantações de cana-de-açúcar, o supervisor os observa do alto de sua sela,
A corneta toca no salão de baile, os cavalheiros perseguem suas parceiras, os dançarinos fazem mesuras,
O jovem deita-se desperto no sótão de telhado de cedro e ouve atentamente a chuva musical,
O caçador em Michigan põe armadilhas no riacho que ajuda a encher o Huron,
A índia embrulhada em seu pano amarelo embainhado está oferecendo mocassins e sacos de contas,
O especialista observa a galeria com olhos semi-abertos, inclinando- se para o lado,
Enquanto os marinheiros aceleram o barco a vapor, a prancha é lançada aos passageiros que ficarão em terra,
A irmã mais nova agarra-se à meada, enquanto a mais velha faz uma bola de novelo, e pára às vezes para desatar os nós,
A mulher casada há um ano se recupera e está feliz, tendo dado à luz seu primeiro filho há uma semana,
A jovem ianque de cabelos limpos trabalha em sua máquina de costura ou na fábrica ou no moinho,
O pedreiro se apóia em seu martelo de duas alças, o lápis do repórter desliza suavemente sobre o caderno, o pintor de sinais está escrevendo em azul e dourado,
O menino do canal trota pelo caminho do reboque, o guarda-livros calcula em sua mesa, o sapateiro encera a sua fibra,
O maestro marca o compasso da banda e todos os músicos seguem seu comando,
A criança é batizada, o convertido faz suas primeiras profissões de fé,
A regata está esparramada pela baía, a corrida começou (como as velas brancas brilham!)
O vaqueiro guardando seu rebanho orienta os animais que iriam se perder,


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O mascate com a mercadoria em suas costas (o comprador pechincha cada centavo);
A noiva alisa seu vestido branco, o ponteiro de minutos do relógio se move vagarosamente,
O viciado em ópio reclina a cabeça rígida com os lábios entreabertos,
A prostituta arrasta o xale, sua touca bamboleia em seu pescoço ébrio e marcado,
A multidão acha graça em suas blasfêmias injuriosas, os homens dela escarnecem piscando uns para os outros,
(Miserável! Eu não rio de tuas injúrias nem zombo de ti);
O Presidente realizando uma reunião de gabinete é cercado por seus grandes Secretários de Governo,
Na praça caminham três matronas faustosas e amigáveis, de braços dados,
A tripulação do navio pesqueiro acumula camadas de linguado no estoque,
O morador do Missouri atravessa as planícies carregando suas mercadorias e seu gado,
Enquanto o cobrador vai pelos corredores do trem denunciando sua presença pelo retinir das moedas,
Os trabalhadores estão assentando o piso, os estanhadores estão revestindo o telhado, os pedreiros pedem mais argamassa,
Em fila indiana, cada um tendo sobre os ombros o seu balde, passam adiante os trabalhadores;
De estação em estação, a multidão indescritível se reúne, é o quarto dia do sétimo mês (que saudações de canhão e pequenos exércitos!)
De estação em estação o arado ara, o ceifador ceifa e os grãos de inverno caem no chão;
Lá nos lagos o pescador de lúcio observa e aguarda junto ao buraco na superfície congelada,
Os tocos grossos de pé em torno da clareira, o posseiro acerta a fundo com seu machado,
Os condutores da chalana ancoram ao entardecer, perto dos algodoeiros e das nogueiras pecãs,
Os caçadores de escravos atravessam as regiões do Rio Vermelho, ou aquelas que são banhadas pelo Tennessee, ou as do Arkansas,
Tochas brilham na escuridão que pende sobre os Chattahooche ou Altamahaw,
Patriarcas sentam-se para jantar, tendo ao redor seus filhos, netos e bisnetos,


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Entre paredes de argila, em tendas de lona, descansam caçadores e armadores depois do seu dia de esporte,
A cidade dorme e dorme o campo,
Os vivos dormem para seu tempo, os mortos dormem para o seu,
O velho marido dorme ao lado da esposa e o marido jovem dorme ao lado da esposa;
E eles vêm para o meu interior, e eu saio ao seu encontro,
E tal como aquilo que pertence a eles, mais ou menos eu sou,
E de cada um deles, e de todos, eu teço a canção de mim mesmo.


16

Sou dos velhos e dos jovens, sou dos tolos e dos sábios,
Sem consideração aos outros, sempre os considerando,
Maternal tanto quanto paternal, uma criança tanto quanto um homem,
Cheio das coisas que são ásperas e cheio daquilo que é fino,
Um ente da Nação de muitas nações, indiferente às menores e às maiores,
Um sulista tanto quanto um nortista, um plantador desinteressado e hospitaleiro próximo ao Oconee eu vivo,
Um ianque atraído para os meus próprios modos, pronto para negociar, minhas são as mais ágeis juntas da terra e as mais rígidas também.
Um homem do Kentucky, caminhando pelo vale do Elkhorn em minhas perneiras de pele de veado, um homem da Louisiana ou da Geórgia.
Um barqueiro em lagos ou em baías ao longo da costa, um homem de Indiana, Wisconsin, Ohio;
Sinto-me em casa nas montanhas de neve do Canadá ou acima no mato, ou com os pescadores das terras recém-descobertas,
Sinto-me em casa na frota de navios quebra-gelos, navegando com os demais e bordejando,
Sinto-me em casa nos morros de Vermont, ou nas florestas do Maine, ou nos ranchos do Texas,
Camarada entre os californianos, camarada entre os livres do Noroeste (amando seu porte avolumado),
Camarada entre balseiros e entre carvoeiros, camarada entre todos os que acolhem, dão as boas-vindas, oferecem bebida e comida,
Um aprendiz dos mais simples, um professor dos mais pensantes,
Um noviço dando os primeiros passos, contudo experimentado em miríades de estações,
De toda cor e casta eu sou, de toda classe e religião,


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Um fazendeiro, mecânico, artista, cavalheiro, navegante, quacre,
Prisioneiro, proxeneta, arruaceiro, advogado, médico, sacerdote.

Resisto a qualquer coisa melhor do que à minha própria diversidade,
Respiro o ar, mas deixo muito dele atrás de mim,
Não sou presunçoso, e ocupo o meu posto.

(A mariposa e as ovas de peixe estão em seus postos,
Os sóis brilhantes vejo e os sóis escurecidos que eu não posso ver estão em seus postos,
O palpável está em seu posto, o impalpável está em seu posto).


17

Na verdade esses são os pensamentos de todos os homens, em todos os tempos e lugares, eles não são originais em mim,
Se não são seus tanto quanto meus, não são nada, ou próximos de nada,
Se não são o enigma e a solução do enigma, não são nada,
Se não são tão próximos quanto distantes, não são nada.

Esta é a relva que cresce onde quer que haja terra e haja água,
Este é o ar comum que banha o globo.


18

Com música poderosa eu venho, com minhas cornetas e tambores,
Não toco marchas para os vitoriosos conhecidos, toco marchas para os conquistados e assassinados.

Ouviste dizer que é bom ganhar o dia?
Digo que também é bom cair; batalhas são perdidas no mesmo espírito em que são ganhas.

Bato e alardeio pelos mortos,
Eu sopro através de minha embocadura, bem alto e alegremente para eles.

Vivas àqueles que perderam!
E para aqueles cujas naus de guerra naufragaram no oceano!
E para aqueles que se afogaram no oceano!
E para todos os generais derrotados em suas empresas, e todos os heróis abatidos!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 66] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E os incontáveis heróis desconhecidos, tão grandes quanto os grandes e aclamados heróis!


19

Esta é a refeição servida com igualdade, esta é a carne para a fome natural,
Ela serve aos maus tanto quanto aos justos, minha festa é para todos,
Não deixarei uma única pessoa desprezada ou deixada de lado,
A cortesã, o aproveitador, o ladrão são por meio desta convidados.
O escravo de lábios grossos está convidado, o que sofre de doenças venéreas está convidado;
Não haverá diferença entre eles e os demais.

Esta é a estampa de uma mão tímida, este é o movimento e o perfume dos cabelos,
Este é o toque de meus lábios nos seus, este é o murmúrio do anelo,
Esta é a profundidade e a altura refletindo minha própria face,
Esta é a incorporação refletida de mim mesmo e a vasão reencontrada.

Pensas que tenho algum propósito intrincado?
Bem, eu tenho, pois a chuva do quarto mês tem, e a mica na superfície lateral da rocha também tem.

Pensas que o que desejo é surpreender?
A luz do dia surpreende? O rabo-ruivo da manhã pipila na floresta?
Será que eu surpreendo mais que ambos?

Neste momento eu conto o que conto em confidência,
Possivelmente não contarei a todos, mas a ti eu conto.


20

Quem vai ali? Cheio de realizações, tosco místico, nu;
Como extraio energia da carne que consumo?

O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?

Tudo o que marco como sendo meu tu deves compensar com o que é teu.
De outro modo seria perda de tempo me ouvir.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 67] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Não lanço a lamúria da minha lamúria pelo mundo inteiro,
De que os meses são vazios e o chão é lamaçal e sujeira.

Choradeira e servilismo são encontrados junto com os remédios para inválidos, a conformidade polariza-se no ordinário mais remoto.
Uso meu chapéu como bem entender dentro ou fora de casa.

Por que eu deveria orar? Por que deveria venerar e ser cerimonioso?

Tendo inquirido todas as camadas, analisado as minúcias, consultado os doutores e calculado com perícia,
Não encontro gordura mais doce do que aquela que se prende aos meus próprios ossos.

Em todas as pessoas enxergo a mim mesmo, em nenhuma vejo mais do que eu sou, ou um grão de cevada a menos.
E o bem e o mal que falo de mim mesmo eu falo delas.

Sei que sou sólido e sadio.
Para mim os objetos convergentes do universo perpetuamente fluem,
Todos são escritos para mim, e eu devo entender o que a escrita significa.

Sei que sou imortal,
Sei que a órbita do meu eu não pode ser varrida pelo compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como os círculos luminosos que as crianças fazem à noite, com gravetos em brasa.

Sei que sou augusto.
Não perturbo meu próprio espírito para que se defenda ou seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem desculpas,
(Reconheço que me comporto com um orgulho tão alto quanto o do nível com que assento a minha casa, afinal).

Existo como sou, isso me basta,
Se ninguém mais no mundo está ciente, fico satisfeito.
E se cada um e todos estiverem cientes, satisfeito fico.



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Um mundo está ciente e esse é incomparavelmente o maior de todos para mim, e esse mundo sou eu mesmo,
E se venho para o que é meu, ainda hoje ou dentro de dez mil anos, ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou esperá-lo com alegria igual.

Meus pés estão espigados e encaixados no granito,
Debocho daquilo que chamas de dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.


21

Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,
O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua.

Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem,
E digo que é tão grandioso ser uma mulher como ser um homem,
E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.

Canto o canto da expansão ou do orgulho,
Já tivemos fuga e censura o suficiente,
Revelo que o tamanho é apenas o desenvolvimento.

Ultrapassaste os demais? És o Presidente?
Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.

Eu sou aquele que caminha com a noite que cresce brandamente,
Clamo à terra e ao mar, em parte abraçados pela noite.

Estampa-te em mim, noite de seio nu — estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva!
Noite do vento sul — noite de estrelas grandes e escassas!
Noite imóvel e ondulante — noite de verão louca e desnuda.

Sorri, ó voluptuosa terra de hálito fresco!
Terra das árvores sonolentas e líquidas!
Terra do crepúsculo finado — terra das montanhas dos topos de neblina!
Terra da vertente vítrea da lua cheia, subtilmente tingida de azul!
Terra do brilho e da escuridão que mosqueiam a maré do rio!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 69] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Terra do cinza límpido, das nuvens que são mais brilhantes e mais claras em meu nome!
Terra angulada dos grandes precipícios — terra rica em flores de macieira!
Sorria, teu amante está chegando.

Pródiga, tu me deste amor — assim sendo eu também te dou amor!
Ó amor apaixonado e indizível.


22

Tu, ó mar! Eu também me entrego a ti — adivinho o que queres dizer,
Vejo da praia teus dedos deformados que me convidam,
Creio que recusas retornar sem antes me sentir,
Precisamos juntos dar uma volta, eu me dispo, me apresso para fora da vista da terra,
Amortece-me suavemente, embala-me em encapelado adormecimento,
Espirra-me tua umidade amorosa, eu posso te recompensar.

Mar de estendidos elementos avultados,
Mar de respirações vastas e convulsivas,
Mar da água da vida e das sepulturas não cavadas sempre prontas,
Uivador e escavador de tempestades, caprichoso e requintado mar,
Sou um contigo, também sou de uma fase e de todas as fases.

Compartilhador do influxo e do efluxo eu, cantor do ódio e da conciliação,
Cantor dos amigos e daqueles que dormem nos braços uns dos outros.

Eu sou aquele que oferece solidariedade,
(Devo fazer minha lista das coisas que estão dentro da casa e esquecer a casa que as sustenta?)

Não sou o poeta da bondade apenas, não rejeito a possibilidade de ser também o poeta da maldade.

Que besteira é essa de virtude e vício?
O mal me impele e a reforma do mal também me impele, e eu permaneço indiferente,
Meu modo de andar não é o de um crítico ou o de alguém que contesta,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 70] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Eu molho a raiz de tudo o que cresceu.

Temias alguma escrófula após a persistente gravidez?
Pensavas que as leis celestiais precisariam ser aperfeiçoadas e corrigidas?

Encontro de um lado o equilíbrio e do lado oposto um equilíbrio,
Uma doutrina maleável é tão segura quanto uma doutrina estável,
Pensamentos e feitos do presente são nosso despertar e nosso início prematuro.

Este minuto que me chega após os decilhões passados,
Não há nada melhor do que ele agora.

O que se comportou bem no passado ou se comporta bem no presente não é por isso um assombro,
O assombro é sempre e sempre que possa haver um homem mau ou infiel.


23

Interminável desdobramento de verbos de eras!
E o meu é o verbo do moderno, o verbo da Massa.

Um verbo de fé que nunca empaca,
Aqui, ou daqui em diante, tudo é o mesmo para mim, aceito o tempo de modo absoluto.

Só ele não tem falha, só ele a tudo circunda e tudo completa,
Essa mística e desconcertante maravilha a tudo completa.

Aceito a realidade e não ouso questioná-la,
O materialismo saturando o alfa e o ômega.

Hurra para a ciência positiva! Vida longa para a demonstração exata!
Alcança a erva-pinheira misturada com o cedro e os galhos de lilás,
Este é o lexicógrafo, este é o químico, este fez uma gramática de antigos cartuchos,
Estes marinheiros colocam o navio por mares perigosos e desconhecidos,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 71] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Este é o geologista, este trabalha com o escalpelo e este é um matemático.

Cavalheiros, para vós sempre as primeiras honras!
Vossos fatos são úteis, mas não são o meu domínio,
Apenas cruzo com eles em uma área de meu domínio.

Minhas palavras são menos que lembranças de propriedades descritas,
E são mais as lembranças da vida oculta, e de liberdade e desenredo,
E fazem pouco caso de eunucos e castrados, favorecendo homens e mulheres totalmente equipados,
E batem o gongo da revolta, e acampam com fugitivos e com aqueles que tramam e conspiram.


24

Walt Whitman, um Cosmos, de Manhattan o filho,
Turbulento, corpulento, sensual, comendo, bebendo e reproduzindo,
Sem sentimentalismo, sem estar acima de homens e mulheres ou separado deles,
Não mais modesto do que imodesto.

Desatai as fechaduras das portas!
Desatai mesmo as portas de seus batentes!

Quem quer que degrade o outro, degrada a mim,
E tudo o que é feito e dito retorna ao final para mim.

Através de mim a inspiração chega em ondas sobre ondas, através de mim a corrente e o catálogo.

Digo a senha primordial, eu dou o sinal da democracia,
Por Deus! Não aceitarei nada de que todos não possam ter sua compensação nos mesmos termos.

Através de mim muitas vozes emudecidas há muito tempo,
Vozes das gerações intermináveis de prisioneiros e escravos,
Vozes de doentes e desesperados e de ladrões e anões,
Vozes dos ciclos de preparação e crescimento,
E das linhas que se conectam aos astros, dos úteros e das coisas dos pais,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 72] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E dos direitos daqueles submetidos aos outros,
Dos deformados, dos fúteis, dos apáticos, dos tolos, dos desprezados,
Nevoeiro no ar, besouros rolando bolas de esterco.

Por mim, vozes proibidas,
Vozes de sexos e de desejos, vozes veladas e eu retiro o véu,
Vozes indecentes, por mim clarificadas e transfiguradas.

Não aperto meus dedos sobre a boca,
Cuido com delicadeza de meus intestinos, do mesmo modo com que cuido da cabeça ou do coração,
A cópula não é mais digna para mim do que a morte.

Acredito na carne e nos apetites,
A visão, a audição, o tato são milagres, e cada parte e fragmento de mim é um milagre.

Divino eu sou por dentro e por fora e tudo o que toco ou aquilo por que sou tocado torna-se sagrado.
O cheiro dessas axilas é um perfume mais elevado do que a prece,
Esta cabeça é mais do que as igrejas, as bíblias, e todas as crenças.

Se eu cultuar algo com especial intensidade esse algo será a extensão de meu próprio corpo ou de qualquer parte dele.
Translúcido molde meu, serás tu!
Telhado e descanso que a sombra oferece, serás tu!
Arado firme e masculino, serás tu!
Qualquer coisa que vá para a minha lavoura serás tu!
Tu, meu rico sangue! Teu córrego lácteo são tiras pálidas da minha vida!
Peito que se aperta a outros peitos, serás tu!
Meu cérebro serão tuas recônditas torções!
Raiz de cálamo lavado! Temerosa narceja do lago! Ninho de ovos duplos vigiados! Serás tu!
Dança rústica misturada e indistinta de cabeça, barba, músculo, serás tu!
Gotejo de seiva de ácer, fibra de másculo trigo, serás tu!
Sol tão generoso, serás tu!
Vapor que ilumina e faz sombra em minha face, serás tu!
Regatos e orvalhos suados, sereis vós!


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Ventos cujos genitais gotejam suavemente ao se roçarem contra mim, sereis vós!
Vastos campos musculares, ramos de carvalho vivo, amantes vadios em meus caminhos sinuosos, sereis vós!
Mãos que segurei, rosto que beijei, mortal que sempre toquei, sereis vós!

Tenho loucura por mim, há tanto de mim, e tudo tão saboroso,
Cada momento — aconteça o que acontecer — me enche de deleite.
Não posso dizer como meus tornozelos se torcem, nem a origem de meus menores desejos,
Nem a causa da amizade que irradio, nem a causa da amizade que recebo em troca.

Quando ando até o alpendre, paro para conjeturar sobre a realidade deste fato:
Uma planta que cresce em minha janela me satisfaz mais do que a metafísica dos livros.

Testemunhar a alvorada!
A luz débil enfraquece a sombra diáfana e imensa,
O ar tem um gosto bom para o meu paladar.

A maior parte de um mundo em movimento, em inocentes cambalhotas se erguendo silenciosamente, gotejando com frescor.
Fugindo obliquamente acima e abaixo.

Algo que não posso ver ergue seus forcados libidinosos,
Mares de fluidos brilhantes inundam o céu.

A terra pelo céu acompanhada, o fechamento diário de sua junção,
Desafio do leste erguido naquele momento sobre minha cabeça,
O insulto zombeteiro. Vê, então, se serás o Mestre!


25

Fascinante e tremendo, com que rapidez o nascer do sol me mataria,
Se eu pudesse agora e sempre emitir, de dentro de mim, o nascer do sol.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 74] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Também nos erguemos fascinantes e tremendos como o sol,
Encontramos o que é nosso, ó minha alma, na calmaria e no frescor da alvorada.

Minha voz persegue o que meus olhos não alcançam,
Com um giro de minha língua abarco mundos e volumes de mundos.

A fala é gêmea de minha visão, ela é inigualável em sua própria medida,
Ela me provoca para sempre, ela diz sarcasticamente,
Walt, conténs o bastante, por que não te abres para o mundo?

Vem agora, não serei atormentado, concebes articulação em demasia,
Não sabes, ó discurso, como os botões sob ti se fecham?
Esperando na escuridão, protegido pela geada,
A poeira retrocedendo perante os meus gritos proféticos,
Eu sublinhando causas para equilibrá-las finalmente,
Meu conhecimento são minhas partes vivas, ele mantém a conta do significado de todas as coisas,
Felicidade (quem quer que me ouça deixe que se lance em busca dela neste dia).

Meu mérito final recuso a ti, recuso-me a entregar o que de fato sou,
Abrange os mundos, mas nunca tentes me abranger,
Preencho o que tens de mais macio e de melhor simplesmente olhando para ti.

A escrita e a fala não me provam.
Carrego a plenitude das provas e tudo o mais em minha face,
Na quietude de meus lábios o céptico desconcerta-se inteiramente.


26

Agora nada farei além de ouvir,
Para acrescer o que ouço aos meus cantos, para deixar que os sons contribuam em sua direção.

Eu ouço o talento dos pássaros, o alvoroço do trigo que cresce, a fofoca das chamas, os estalos dos gravetos cozinhando minhas refeições,
Eu ouço o som que amo, o som da voz humana,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 75] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Eu ouço todos os sons se propagando juntos, combinados, fundidos ou em seqüência,
Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens faladores com os que deles gostam, a risada estridente dos trabalhadores durante as refeições,
A base irritada da amizade desfeita, os tons débeis dos doentes,
O juiz com as mãos presas à mesa, seus lábios pálidos pronunciando uma sentença de morte,
Os altos brados dos estivadores descarregando os navios no cais, o refrão dos levantadores de âncora,
O toque dos alarmes, o grito de "fogo!", o ronco dos motores rápidos e do carro com mangueiras e tinidos premonitórios e luzes coloridas.
O apito a vapor, o rolamento sólido do trem que vem chegando,
A marcha lenta tocada à frente da associação, marchando dois a dois,
(Eles vão recolher alguns corpos, o topo das bandeiras drapejado com musselina negra).

Ouço o violoncelo (é o lamento do coração do rapaz),
Ouço a corneta de teclado que desliza rapidamente pelos meus ouvidos,
Ela causa uma agonia louca e doce que atravessa minhas entranhas e meu peito.

Ouço o coro, é a grande ópera,
Ah, isso sim é música! — isso se casa comigo.

Um tenor grande e novo como a criação me preenche,
O céu esférico de sua boca está jorrando em mim e me realizando.

Ouço a soprano virtuosa (o que é este trabalho quando comparado ao dela?)
A orquestra me faz rodopiar numa órbita mais larga que a do vôo de Urano,
Faz surgir em mim tais ardores que não imaginava possuir,
Ela me faz navegar, mergulho meus pés descalços, eles são lambidos pelas ondas indolentes,
Sou cortado por um granizo amargo e irado, perco o fôlego,
Macerado por melíflua morfina, minha traquéia sufocada em farsas da morte,
Ao fim, solto-me uma vez mais para sentir o enigma dos enigmas,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 76] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E aquilo que chamamos Ser.


27

Ser em qualquer forma, o que é isso?
(Movemo-nos em círculos, todos nós, retornamos sempre ao ponto de partida)
Se nada se assenta mais desenvolvido, o mexilhão em sua concha calosa seria suficiente.

Eu não vivo em uma concha calosa,
Há condutores instantâneos por toda parte de meu ser, quer eu passe quer eu pare.
Eles tomam todo o objeto e o conduzem, sem fazer dano, através de mim.

Eu apenas agito, pressiono, sinto com meus dedos e estou feliz,
Tocar minha pessoa na de outro alguém é praticamente tudo o que posso suportar.


28

É isto, então, um toque? Um estremecimento que me dá uma nova identidade,
Chamas e éter correndo pelas minhas veias,
Desleal pedaço de mim alcançando e entrando pela multidão para ajudá-la,
Minha carne e meu sangue jogando raios para derrubar o que mal difere de mim mesmo,
De todos os lados lúbricos provocadores imobilizando meus membros.
Puxando o úbere de meu coração para obter a seiva interna,
Comportando-se licenciosamente em relação a mim, não aceitando recusa,
Despojando-me do meu melhor a pretexto de uma causa,
Desabotoando minhas roupas, abraçando-me pela cintura nua,
Enganando minha confusão com a calma da luz solar e das pastagens,
Sem modéstia, afastando de mim os sentidos companheiros,
Eles os subornaram em troca do toque e foram pastar à beira de mim,
Nenhuma consideração, nenhuma atenção às minhas forças exauridas ou minha raiva,
Atraíram o resto do rebanho em torno de si para desfrutar deles por um momento,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 77] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Depois, todos se uniram em pé sobre um promontório a me afligir.

As sentinelas abandonam todas as outras partes de mim,
Deixaram-me desamparado diante de um saqueador escarlate,
Todos eles vêm ao promontório para testemunhar e se unir contra mim.

Sou entregue por traidores,
Falo abertamente, perdi minhas graças, eu e ninguém além de mim sou o maior dos traidores,
Fui o primeiro a ir ao promontório, minhas próprias mãos me carregaram até lá.

Tu, toque canalha! O que estás fazendo? Minha respiração está apertada na garganta,
Abre tuas comportas, és demais para mim.


29

Toque cego, amante e lutador, toque embainhado, encapuzado, de dentes afiados!
O fato de teres me deixado causou-te alguma dor?

Partida seguida de chegada, perpétuo pagamento de perpétuo empréstimo,
Chuva forte e rica, e recompensa mais rica a seguir.
Brotos recebem e acumulam, erguem-se sobre o parapeito prolíficos e vitais,
Paisagens que se projetam masculinas, grandes e douradas.


30

Todas as verdades esperam em todas as coisas,
Elas não apressam o tempo de sua entrega nem resistem a ele,
Elas não precisam do fórceps obstétrico do cirurgião,
O insignificante é tão grande para mim como tudo o mais,
(O que é maior ou menor do que um toque?)

A lógica e os sermões nunca convencem,
A umidade da noite cala mais fundo em minha alma.

(Apenas aquilo que se prova para todo homem e mulher é real,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 78] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Só aquilo que ninguém nega é real.)

Um minuto e uma gota de mim estabelecem meu cérebro,
Acredito que os torrões encharcados se tornarão amantes e luzes,
E um compêndio de compêndios é a carne de um homem ou de uma mulher,
E um cimo e uma flor ali são o sentimento que eles têm um pelo outro,
E eles estão para se ramificar, ilimitadamente, por força daquela lição até que se torne onípara.
E até que um e todos nos deliciarão, e nós a eles.


31

Creio que uma folha de relva não faz menos que a jornada diária das estrelas,
E a formiga é igualmente perfeita, e o grão de areia, e o ovo da garriça,
E a raineta é uma obra-prima para o altíssimo,
E um corredor de amoras pretas adornaria os salões do céu,
E a mais estreita junta de minha mão faz qualquer máquina parecer desprezível,
E a vaca ruminando com sua cabeça volúvel supera qualquer estátua,
E uma ratazana é um milagre suficiente para dobrar os joelhos de sextilhões de infiéis.

Percebo que incorporo gnaisse, carvão, musgo de fios longos, frutas, grãos, raízes comestíveis,
Sou todo revestido com figuras de quadrúpedes e aves,
Estou distante do que deixei atrás de mim por bons motivos,
Mas chamo de volta qualquer coisa quando desejar.

Em vão a velocidade ou a timidez,
Em vão as rochas plutônicas enviam seu velho calor contra a minha abordagem,
Em vão o mastodonte se recolhe embaixo de seus próprios ossos pulverizados,
Em vão os objetos se mantêm a léguas de distância e assumem formas diversas,
Em vão o oceano se assenta em depressões e os grandes monstros se escondem,
Em vão o urubu faz sua casa no céu,
Em vão a cobra desliza pelas plantas rasteiras e os troncos,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 79] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Em vão o alce se recolhe para as pastagens mais recônditas da floresta,
Em vão o mergulhão navega para o norte extremo em Labrador,
Eu sigo rápido, galgo até o ninho na fissura do penhasco.


32

Penso que eu poderia mudar-me para viver com os animais, eles são tão plácidos e independentes,
De pé, eu olho para eles por muito e muito tempo.

Eles não suam nem se lamentam de sua condição,
Não se deitam e rolam acordados no escuro chorando por seus pecados,
Não me deixam enjoado discutindo seus deveres perante Deus,
Nenhum está insatisfeito, nenhum está ensandecido com a mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha diante do outro, nem para os de sua espécie que viveram há milhares de anos,
Nenhum é respeitável ou infeliz na terra toda.

Então eles mostram seus laços familiares para mim e eu os aceito,
Eles me trazem sinais de mim mesmo, exibem-nos com clareza em sua posse.

Fico imaginando em que paragens encontraram esses sinais,
Terei passado por lá há muito tempo, terei sido negligente ao deixá-los cair?

Eu sigo adiante como então, como agora e como sempre,
Juntando e mostrando sempre mais e com velocidade,
Infinito e omniforme, e semelhante a esses entre eles,
Não muito exclusivo para com aqueles que alcançam minhas lembranças,
Escolhendo aqui um que eu amo, e agora vou com ele em termos fraternos.

Uma gigantesca beleza de garanhão, jovem e sensível às minhas carícias,
Cabeça com testa alta, orelhas bem separadas,
Patas lustrosas e ágeis, cauda arrastando-se no chão,
Olhos cheios de brilhante travessura, orelhas bem talhadas, movendo-se flexivelmente.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 80] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Suas narinas se dilatam à medida que meus calcanhares o abraçam,
Seus membros bem modelados tremem de prazer quando corremos e voltamos.

Eu te uso apenas por um momento, e depois te renuncio, garanhão,
Que necessidade tenho de teus passos se eu mesmo galopo com eles?
Mesmo quando estou em pé ou sentado passo mais rápido do que tu.


33

Espaço e Tempo! Agora vejo que é verdade o que já tinha adivinhado,
O que adivinhei quando vadiava na relva,
O que adivinhei quando estava deitado sozinho em minha cama,
E de novo enquanto andava na praia sob as estrelas pálidas da manhã.

Meus laços e lastros me deixam, meus cotovelos repousam em abismos no mar,
Contorno as serras, minhas palmas cobrem continentes,
Caminho a pé com a minha visão.

Pelas casas quadrangulares da cidade — em cabanas de madeira, acampando com lenhadores,
Ao longo dos buracos das estradas, ao longo da ravina seca e do leito do riacho,
Capinando meu canteiro de cebolas, ou cavando, com a enxada, fileiras de cenouras e mandioca, atravessando savanas, penetrando em florestas,
Fazendo prospecção, procurando ouro no solo, cortando as cascas das árvores de uma terra recém-adquirida,
Os tornozelos queimados pela areia quente, arrastando meu barco pelo rio raso,
Onde a pantera anda de um lado para outro sobre um galho alto,onde o cervo se volta com fúria contra o caçador,
Onde a cascavel leva ao sol sua flácida extensão sobre uma pedra, onde a lontra se nutre de peixe,
Onde o crocodilo, com sua dura carapaça, dorme num braço de rio,
Onde o urso negro procura por raízes ou mel, onde o castor dá um tapa na lama com seu rabo em forma de remo;
Sobre a cana-de-açúcar que cresce, sobre o pé de algodão de flores amarelas, sobre o arroz em seu campo baixo e úmido,
Sobre a casa de fazenda de telhado pontiagudo, com sua escória em



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 81] - - - - - - - - - - - - - - - - -



forma de leque e brotos delgados que nascem das calhas,
Sobre o caquizeiro no oeste, sobre o milho de longas folhas, sobre o delicado linho de flores azuis,
Sobre o trigo-sarraceno branco e marrom, um beija-flor e uma cigarra, lá com os outros.
Sobre o verde escuro do centeio que ondula e sombreia na brisa;
Escalando montanhas, galgando com cuidado, firmando-me em galhos baixos e raquíticos,
Caminhando pela trilha gasta na grama, aberta entre as folhas do mato,
Onde a codorna está assobiando entre o bosque e o campo de trigo,
Onde o morcego voa na noite de sétimo mês, onde o grande besouro dourado cai na escuridão,
Onde o arroio brota das raízes da velha árvore e corre para o prado,
Onde o gado está, espantando as moscas com o rápido estremecimento de seu couro,
Onde os panos de curar o queijo estão pendurados na cozinha, onde os trasfogueiros cruzam a lareira, onde as teias caem como guirlandas dos caibros;
Onde o bate-estaca colide, onde a máquina de impressão gira seus cilindros,
Onde quer que o coração humano bata com espasmos terríveis sob as costelas,
Onde o balão em forma de pêra flutua sem rumo (eu mesmo flutuo nele e olho serenamente para baixo),
Onde a viatura da vida é puxada por uma corda, onde o calor incuba ovos de um verde pálido na areia serrilhada,
Onde a baleia nada com seu filhote sem nunca deixá-lo só,
Onde o barco a vapor arrasta atrás de si sua longa flâmula de fumaça,
Onde a barbatana do tubarão corta como um floco negro a superfície da água,
Onde o brigue meio queimado está navegando em correntes desconhecidas,
Onde as conchas crescem em seu convés pegajoso, onde os corpos dos mortos se decompõem;
Onde o pendão repleto de estrelas é carregado à frente dos regimentos,
Aproximando-se de Manhattan pela ilha comprida,
Sob o Niagara, a catarata caindo como um véu sobre o meu semblante,
Sobre a soleira, sobre o bloco de madeira maciça para se montar nos cavalos do lado de fora,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 82] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Sobre a pista de corridas, ou aproveitando um piquenique, uma dança ou um bom jogo de beisebol,
Em festivais masculinos, com troças sujas, licença irônica, danças de tourada, bebedeira, risos,
No engenho de sidra, provando a doce mistura marrom, tomando o suco por um canudo,
Na atividade de descascar maçãs, querendo um beijo para cada fruto vermelho que encontro,
Em recrutamentos, festas na praia, em reuniões de vizinhos, na debulha do milho, em mutirões;
Onde o tordo-dos-remédios faz soar seus deliciosos gorjeios, cacarejos, gritos, choros,
Onde o monte de feno se ergue no terreiro, onde os talos secos estão espalhados, onde a vaca reprodutora espera no curral,
Onde o touro avança para fazer seu trabalho masculino, onde o garanhão pára a égua, onde o galo está montando na galinha,
Onde as novilhas pastam, onde os gansos mordiscam sua comida com um rápido movimento da cabeça,
Onde as sombras do pôr-do-sol se estendem sobre a pradaria vasta e solitária,
Onde as manadas de búfalo transformam numa chapada rastejante as milhas quadradas longe e perto,
Onde vacila o beija-flor, onde o pescoço do longevo cisne está se curvando e se enroscando,
Onde o martim-pescador voa perto da praia, onde ele ri seu riso quase humano,
Onde as colméias estão dispostas sobre um banco cinza no jardim, semi-oculto pelas ervas altas,
Onde as perdizes de pescoço listrado se empoleiram, fazendo um círculo no chão com suas cabeças para fora,
Onde os carros fúnebres entram pelos arcos dos portais do cemitério,
Onde os lobos do inverno latem em meio às vastidões de neve e árvores congeladas,
Onde a garça de coroa amarela vem à beira do brejo à noite e se alimenta de caranguejinhos,
Onde a água espirrada pelos nadadores e mergulhadores refresca a tarde quente,
Onde a fêmea do grilo faz soar sua flauta de cana cromática na nogueira sobre o poço,
Por fileiras de cidreiras e pepinos com folhas de fios prateados,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 83] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Pela salina ou pela clareira alaranjada, ou sob abetos cônicos,
Pelo ginásio, pelo salão enfeitado de cortinas, pelo escritório ou sala de reunião;
Satisfeito com o nativo e satisfeito com o estrangeiro, satisfeito com o novo e com o velho,
Satisfeito com a mulher simples tanto quanto com a que é linda,
Satisfeito com a quacre quando ela tira a touca e fala melodiosamente,
Satisfeito com o tom do coral da igreja caiada,
Satisfeito com as palavras fervorosas do suado pregador metodista, ditas com seriedade no culto campestre;
Olhando as vitrines da Broadway a manhã inteira, apertando a carne do meu nariz contra o vidro espesso,
Passeando na mesma tarde com o rosto voltado para as nuvens, ou por uma alameda, ou ao longo da praia,
Meu braço esquerdo e meu braço direito em torno de dois amigos, e eu no meio;
Chegando em casa com o menino cansado silencioso e de pele escura (atrás de mim, ele cavalga no final do dia),
Longe dos povoados estudando pegadas de animais, ou de mocassim,
Ao lado do leito de hospital, estendendo um copo de limonada para um paciente febril,
Perto do corpo no caixão quando tudo está quieto, examinando com uma vela;
Viajando por todos os portos em busca de permutas e aventuras,
Correndo com a multidão moderna, ansioso e volúvel como qualquer um,
Cheio de raiva contra alguém que odeio, pronto na minha loucura para esfaqueá-lo,
Solitário à meia-noite no meu quintal, meus pensamentos longe de mim por um bom tempo,
Atravessando as velhas colinas da Judéia com o Deus belo e gentil ao meu lado,
Voando pelo espaço, voando pelo céu e pelas estrelas,
Voando entre os sete satélites e o largo anel e o diâmetro de oitenta mil milhas,
Voando com os meteoros e suas caudas, atirando bolas de fogo como o resto,
Carregando a criança crescente que, por sua vez, carrega sua própria mãe cheia na barriga,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 84] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Esbravejando, aproveitando, planejando, amando, acautelando,
Recuando e preenchendo, aparecendo e desaparecendo,
Passo dia e noite por essas estradas.

Visito os pomares das esferas e espio o produto,
E olho para os quintilhões amadurecidos e os quintilhões verdes.

Vôo aqueles vôos de uma alma fluida e esfaimada,
Meu curso corre mais abaixo que os ruídos de todos os prumos.

Sirvo-me daquilo que é material e imaterial,
Nenhum vigia pode me barrar, nenhuma lei pode me evitar.

Ancoro meu navio por um instante apenas,
Meus mensageiros partem continuamente ou trazem suas conquistas para mim.

Vou caçar peles polares e a foca, saltando abismos com um cajado pontiagudo, agarrando-me a cimos quebradiços e azuis.

Subo à borla no mastro de proa,
Ocupo meu lugar, tarde da noite, no cesto do corvo,
Navegamos pelo mar ártico, abundante é a luz que nos basta,
Através da clara atmosfera expando-me na beleza maravilhosa,
As enormes massas de gelo passam por mim e eu passo por elas, o cenário é plano em todas as direções,
As montanhas de topo branco aparecem à distância, solto minha imaginação na direção delas,
Estamos nos aproximando de um grande campo de batalha, no qual logo seremos inseridos,
Atravessamos os colossais postos avançados do acampamento, passamos com pés silenciosos e com cuidado,
Ou estamos entrando pelos subúrbios de uma vasta cidade em ruínas,
Os blocos e a arquitetura destruída, mais do que todas as cidades vivas do globo.

Sou um mercenário, acampo junto às fogueiras dos invasores,
Expulso o noivo da cama e fico eu mesmo com a noiva,
Aperto-a a noite inteira às minhas coxas e a meus lábios.

Minha voz é a voz da esposa, o guincho junto ao corrimão da escada,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 85] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Mandam vir o corpo do meu homem encharcado e afogado.

Entendo os grandes corações dos heróis,
A coragem do tempo presente e de todos os tempos,
Como o capitão viu o destroço lotado e desorientado do navio a vapor, e a Morte perseguindo-o para a frente e para trás na tempestade,
Como ele se submeteu com garra e não recuou um centímetro sequer, e foi fiel durante os dias e fiel durante as noites,
E escreveu com grandes letras numa lousa, Não desanimeis, não vos abandonaremos;
Como ele os seguiu e os acompanhou durante três dias e não desistiu,
Como salvou o grupo à deriva, por fim.
Como era a aparência das mulheres delgadas em suas roupas largas quando foram embarcadas, retiradas dos túmulos que já estavam preparados para elas,
Como as silenciosas crianças de rosto envelhecido e os doentes levantados de suas camas, e os homens por barbear de lábios ásperos;
Tudo isso engulo, tem um bom sabor, gosto muito, torna-se parte de mim,
Eu sou o homem, sofri, estava lá.

O desdém e a calma dos mártires,
A mãe idosa, condenada como bruxa, queimada com o fogo da madeira seca, seus filhos a tudo testemunhando,
O escravo perseguido que desiste na corrida, apóia-se na cerca, ofegante, coberto de suor,
As fisgadas que ferem como agulhas suas pernas e seu pescoço, o tiro assassino de chumbo grosso e as balas,
Tudo isso eu sinto ou sou.

Sou o escravo perseguido, estremeço com a mordida dos cães,
O inferno e o desespero caem sobre mim, os atiradores atiram e outra vez atiram,
Aperto os paus da cerca, meu sangue goteja, diluído pela exsudação da minha pele,
Tombo sobre as ervas e as pedras,
Os cavaleiros esporeiam seus cavalos arredios, aproximam-se,
Dirigem seu escárnio contra meus ouvidos aturdidos e me batem com violência na cabeça, usando o cabo dos chicotes.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 86] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



As agonias estão entre as roupas que visto,
Não pergunto ao ferido como se sente, eu mesmo me torno o ferido,
Minhas dores se voltam lívidas para mim quando me apóio na bengala e observo.

Sou o bombeiro esmagado com o esterno quebrado,
Paredes desabadas me enterraram em seus escombros,
O calor e a fumaça inspirei, ouvi os gritos dos meus camaradas,
Ouvi os golpes distantes de suas pás e picaretas,
Eles conseguiram abrir espaço entre as vigas, agora me erguem com cuidado.

Estou deitado no ar noturno na minha camisa vermelha, o silêncio geral é por minha causa,
Sem dor afinal, fico deitado, exausto mas não infeliz,
Pálidos e belos são os rostos em torno de mim, as cabeças despiram seus capacetes,
A multidão ajoelhada se apaga na luz das lanternas.

Os distantes e os mortos ressuscitam,
Aparecem como o mostrador ou se movem como ponteiros de mim, eu mesmo sou o relógio.

Sou um velho artilheiro, narro o bombardeio contra o meu forte,
Estou lá novamente.

Mais uma vez o longo rufar dos tambores,
Mais uma vez o ataque dos canhões, dos morteiros,
Mais uma vez aos meus ouvidos atentos, a reação dos nossos canhões.

Eu participo, vejo e ouço tudo,
Os gritos, as maldições, os urros, os aplausos por um tiro bem dado,
A ambulância passando lentamente, deixando um filete de sangue atrás de si,
Trabalhadores examinando danos, fazendo reparos indispensáveis,
A queda de granadas pelo teto arrombado, a explosão em forma de leque,
O som de membros, cabeças, pedras, madeira, ferro, alto no ar.

Mais uma vez gorgoleja a boca do meu general moribundo, ele sacode a mão com fúria,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 87] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Sussurra através do sangue coagulado: Não se importem comigo — dêem atenção às trincheiras.


34

Agora conto o que soube no Texas no início de minha juventude,
(Não conto a queda de Álamo,
Ninguém escapou para contar a queda de Álamo,
Os cento e cinqüenta ainda estão mudos em Álamo),
Esta é a história do assassinato a sangue frio de quatrocentos e doze jovens.

Ao recuar eles tinham formado um quadrado usando sua bagagem como barricada,
Novecentas vidas do inimigo que os cercava, que tinha nove vezes o seu número, foi o preço que cobraram,
Seu coronel estava ferido e a munição tinha acabado,
Fizeram um tratado de rendição honrosa, receberam documentos e selos, entregaram as armas e marcharam de volta prisioneiros de guerra.

Eram a glória da raça dos rancheiros,
Incomparáveis com o cavalo, o rifle, a canção, a comida, a corte,
Grandes, turbulentos, generosos, belos, orgulhosos e afetuosos,
Barbados, queimados de sol, vestidos à maneira livre dos caçadores,
Nenhum deles tinha mais de trinta anos de idade.

Na segunda manhã de domingo foram trazidos para fora em bandos e massacrados; era um belo início de verão,
O trabalho começou por volta das cinco e terminou às oito.

Nenhum obedeceu à ordem de se ajoelhar,
Alguns se lançaram a uma corrida louca e inútil, outros ficaram imóveis, firmes e eretos,
Alguns caíram imediatamente, atingidos na têmpora ou no coração, os vivos e os mortos jaziam juntos,
Os feridos e os mutilados cavavam a terra, os que chegavam os viam lá,
Alguns meio mortos tentavam se arrastar para longe dali,
Estes eram despachados com golpes de baioneta ou espancados com a coronha dos mosquetes,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 88] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Um jovem que ainda não tinha dezessete anos agarrou seu assassino até que dois outros viessem libertá-lo,
Os três ficaram todos feridos e cobertos com o sangue do menino.

Às onze horas começou a queima dos corpos;
Esta é a história do assassinato dos quatrocentos e doze jovens.


35

Ouvirias a história de uma batalha naval muito antiga?
Queres saber a quem pertenceu a vitória sob a luz da lua e das estrelas?
Registra o fio dessa história, tal como o pai de minha avó, o marinheiro, contou-a para mim.

Nosso inimigo não estava esquivo em seu navio, eu te digo (contou ele)
Ele tinha o espírito ríspido do inglês, e não há ninguém mais durão ou mais franco, e nunca houve nem nunca haverá;
Junto do anoitecer ele veio horrivelmente em nosso encalço.

Nós nos atracamos, as jardas se emaranharam, o canhão foi acionado,
Meu capitão avançou com as próprias mãos, chicoteando.

Havíamos levado alguns tiros de dezoito libras embaixo d'água.
Em nosso convés baixo de artilharia, dois grandes canhões haviam explodido no primeiro tiro, matando todos os que estavam em volta e destruindo o que havia acima.

Lutas ao pôr-do-sol, lutas na escuridão,
Dez horas da noite, a lua cheia bem em cima, os vazamentos crescendo e a notícia de que cinco pés de água já tinham invadido a nau.
O mestre da armada libertou os prisioneiros de suas celas, oferecendo-lhes uma chance de sobrevivência.

O trânsito de ida e volta ao paiol está agora interrompido pelos vigias,
Eles vêem tantas faces estranhas que não conhecem, pessoas nas quais não podem confiar.

Nossa fragata se incendeia,
O inimigo questiona se nos entregamos,
Se nossa bandeira estava arriada e se a luta havia chegado ao fim.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 89] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Agora eu rio contente, pois escuto a voz do meu pequeno capitão,
Não arriamos nossa bandeira, ele grita solenemente, aqui é que tem início nossa parte da luta.

Somente três canhões ainda atiram,
Um é apontado pelo próprio capitão para o mastro principal do inimigo,
Dois bem abastecidos de metralha e lata silenciam os mosqueteiros e limpam os conveses do inimigo.

As gáveas somente secundam o fogo dessa pequena bateria, especialmente a gávea principal,
Elas se mantêm bravamente durante o desenrolar das ações.

Não há momento qualquer de repouso,
Os vazamentos são mais rápidos que as bombas, o fogo devora o navio em direção ao paiol de pólvora.

Uma das bombas foi atingida por um disparo, há uma crença geral de que estamos naufragando.

O pequeno capitão está sereno.
Ele não tem pressa, sua voz não é alta nem baixa,
Seus olhos nos fornecem mais luz do que nossos faróis de batalha.

Perto da meia-noite, ali sob os raios da lua, eles se rendem a nós.


36

Extensa e imóvel jaz a meia-noite,
Dois grandes cascos inertes no seio da escuridão,
Enquanto nossa nau lenta e enigmaticamente naufraga, preparamo-nos para passar à nau que conquistamos,
O capitão no tombadilho está friamente dando suas ordens com aparência alva,
Perto dali está o corpo da criança que servia na cabine,
O rosto morto de um velho marinheiro com seu cabelo branco e cachos cuidadosamente enrolados,
As chamas, apesar de tudo o que se pode fazer, bruxuleiam em cima e embaixo,
A voz rouca de dois ou três oficiais que ainda estão aptos ao dever,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 90] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Pilhas disformes de corpos e corpos deixados sozinhos, partes de corpos sobre mastros,
Cortes de cordame, cordame balançando, leves choques do impacto das ondas,
Armas negras e impassíveis, sujeira das caixas de pólvora, cheiro forte,
Algumas estrelas grandes sobre as cabeças, brilhando em lúgubre silêncio,
Delicadas inalações de brisa marítima, cheiro de grama com juncos nos campos perto da praia, mensagens dos moribundos confiadas aos sobreviventes,
O sibilo da faca do cirurgião, os dentes cortantes da sua serra,
Um chiado, uma batida surda, um jorro de sangue que cai, um breve grito selvagem e o gemido longo, apático e agudo,
Isso tudo dessa forma, isso tudo irreparável.


37

Vós molengões que estais de guarda! Atentai para as vossas armas!
As multidões estão nos portões conquistados! Estou possesso!
Incorporo todas as presenças foras da lei ou sofredoras,
Vejo-me na prisão na forma de um outro homem,
E sinto a dor entorpecida e ininterrupta.
Por mim os guardiões dos condenados carregam nos ombros as suas carabinas e ficam vigiando,
Permitem que eu saia de manhã e me prendem à noite.

Não há um só amotinado caminhando algemado para a cadeia sem que eu esteja algemado a ele e caminhando ao seu lado
(Eu não sou o entusiasmado que vai ali, sou, sim, o silencioso com suor em meus lábios retorcidos.)

Nenhum jovem é pego por furto sem que eu seja preso junto dele, e com ele sou julgado e sentenciado.

Nenhum paciente com cólera dá o seu último suspiro sem que eu também dê o meu último suspiro,
Meu rosto tem a cor das cinzas, meus tendões se retorcem, as pessoas se retraem à vista de mim.

Pedintes se incorporam em mim e eu me incorporo neles,
Estendo meu chapéu, sento-me com o rosto envergonhado e esmolo.




- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 91] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



38

Basta! Basta! Basta!
Por alguma razão estou atormentado. Afastai-vos!
Dai-me algum tempo além de minha cabeça esbofeteada, do sono, dos sonhos, das fissuras,
Descubro que estou à beira de cometer um erro comum.

Que eu pudesse esquecer os que zombam e insultam!
Que eu pudesse esquecer as lágrimas que escorrem e as pancadas das clavas e martelos!
Que eu pudesse olhar com um olhar isolado a minha própria crucificação e coroação sangrenta.

Lembro-me agora,
Retomo a fração que ficou além do tempo,
O túmulo de pedra multiplica o que foi a ele confiado, ou a quaisquer túmulos,
Corpos se erguem, feridas se fecham, grilhões rolam de mim.

Marcho adiante restabelecido com poder supremo, sou um no meio de uma procissão normal e infindável.
Pela terra e ao longo da costa prosseguimos e passamos por todas as linhas fronteiriças,
Nossos batalhões ligeiros a caminho, espalhados pela terra inteira,
As flores que levamos em nossos chapéus cresceram durante mil anos.

Discípulos, eu vos saúdo! Avançai!
Continuai vossas anotações, prossegui com vossos questionamentos.


39

O selvagem amigável e fluente, quem é ele?
Ele está à espera de civilização ou tendo-a ultrapassado deseja dominá-la?

É ele algum nativo do sudoeste criado nas ruas? É canadense?
É ele da região do Mississippi? Iowa, Oregon, Califórnia?
Das montanhas? Dos prados, dos arbustos? Ou marinheiro oceânico?

Onde quer que ele vá, homens e mulheres aceitam-no e o desejam,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 92] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Desejam que ele goste deles, que os toque, que fale com eles, que fique com eles.

Comportamento sem lei, tal como são os flocos de neve, palavras simples como a relva, cabelo despenteado, risos e ingenuidade.
Pés que andam devagar, feições comuns, modos comuns e emanações,
Eles caem em novas formas da ponta de seus dedos,
Flutuam com o perfume de seu corpo ou seu hálito, voam de um relance de seus olhos.


40

Ostentação do brilho do sol, não preciso de teu calor — relaxa!
Iluminas apenas a superfície, eu forço as superfícies e as profundezas igualmente.

Terra! Pareces procurar por algo em minhas mãos,
Dize, velho elevado, o que desejas?
Homem ou mulher, eu gostaria de dizer o quanto gosto de ti, mas não posso,
E talvez dizer-te o que há em mim e o que há em ti, mas não posso,
E talvez dizer-te que anseios eu tenho, aquele pulso de meus dias e noites.

Atenção, não dou palestras nem faço um pouco de caridade,
Quando dou algo, dou-me por inteiro.

Tu que estás aí, impotente, de pernas bambas,
Abre o lenço que cobre a tua boca até que sopre coragem para dentro de ti,
Abre as palmas de tuas mãos e ergue a aba de teus bolsos.
Não posso ser rejeitado, posso compelir-te, tenho abundância de depósitos, tenho-os de sobra,
E tudo o que tenho eu ofereço.

Não pergunto quem és, isso não importa para mim,
Nada podes fazer, nem podes ser alguma coisa diferente do que eu te moldar.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 93] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Ao escravo dos campos de algodão ou aos limpadores de latrina me inclino,
Em sua face direita deixo o meu beijo familiar,
E em minha alma juro que nunca o negarei.

Em mulheres prontas para a concepção, gero bebês maiores e mais ágeis,
(Hoje estou atirando a essência de repúblicas muito mais arrogantes.)

A qualquer um que esteja morrendo, corro para alcançá-lo e viro a maçaneta da porta,
Viro os lençóis na direção do pé da cama,
Permito ao médico e ao padre que voltem para casa.

Pego o homem que cai e levanto-o com vontade irresistível,
Ó desesperado, aqui está o meu pescoço,
Por Deus, não podes cair! Solta todo o teu peso sobre mim.

Eu te dilato com um sopro tremendo,te faço boiar,
Todos os quartos da casa sinto com uma força armada,
Amantes de mim, estorvos dos túmulos.

Dorme — eu e eles vigiaremos a noite inteira,
Nem dúvida, nem doença ousarão colocar um dedo sobre ti,
Eu te abracei, e daqui em diante, eu te possuo.
E quando te levantares pela manhã, saberás que o que te digo é verdade.


41

Sou aquele que traz ajuda para os doentes quando eles se mostram arquejantes,
E para os homens fortes e aprumados, trago um auxílio ainda maior.

Ouvi o que foi dito sobre o Universo.
Ouvi e ouvi por muitos milhares de anos;
É mediocremente bom, até onde se sabe — mas será que isso é tudo?

Ampliando e aplicando venho,
Cobrindo, de saída, o lance dos velhos comerciantes,
Medindo, eu mesmo, as exatas dimensões de Jeová,
Litografando Cronos, Zeus, seu filho, e Hércules, seu neto,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 94] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Comprando desenhos de Osíris, Ísis, Belus, Brahma, Buda,
Em minha pasta tenho Manitu livre, Alá numa folha e o crucifixo gravado,
Com Odin, Mexitli, que tem a face horrenda, e todos os outros ídolos e imagens,
Levando por eles tudo aquilo que valem e nenhum centavo a mais,
Admitindo que eles já estiveram vivos e que cumpriram a missão de seus dias,
(Eles davam insetos para os pássaros implumes que agora têm de se erguer, voar e cantar por si mesmos.)
Aceitando os esboços deíficos para que se sintam melhores em mim, ofertando-os livremente em cada homem e mulher que vejo,
Descobrindo tanto quanto ou mais no construtor que edifica a casa,
Valorizando mais a ele que está lá, com as mangas arregaçadas, orientando a marreta e o cinzel,
Sem fazer objeções a revelações especiais, considerando uma espiral de fumaça ou os pêlos nas costas de minha mão, com a mesma curiosidade sobre qualquer revelação,
Os rapazes dentro dos carros de bombeiro e nas cordas das escadas de incêndio não são menos importantes para mim que os deuses das guerras da Antiguidade,
Prestando atenção às suas vozes que ressoam pelo estrondo da destruição,
Seus membros musculosos passando seguros sobre as ripas carbonizadas, com suas testas brancas, saem incólumes e inteiros do calor das chamas;
Junto à esposa do mecânico com o seu bebê, em seu seio intercedendo por toda pessoa que nasce,
Três foices na colheita zumbindo em seqüência de três anjos vigorosos cujas camisas caem frouxas em suas cinturas,
O cavalariço de dentes salientes com seu cabelo vermelho redimindo pecados passados e futuros,
Vendendo todas as posses, viajando a pé para contratar advogados para seu irmão e sentando-se ao seu lado quando é julgado por fraude;
O que foi esparramado mais longe, esparramando-se por metros quadrados em volta de mim, e nem assim enchendo os metros quadrados,
Nem o touro nem o besouro foram alguma vez adorados o suficiente,
O esterco e a sujeira são mais admiráveis do que se sonhava,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 95] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O sobrenatural não é valorizado, eu espero o meu momento de ser um dos seres supremos,
Um dia se prepara para mim em que farei tanto bem quanto o melhor e serei igualmente prodigioso;
Pelas minhas massas de vida! Tornando-me já um criador,
Situando-me aqui e agora no útero emboscado das sombras.


42

Uma chamada no meio da multidão,
Minha própria voz, bombástica, completa e final.

Vinde, crianças minhas,
Vinde, meus meninos e meninas, minhas mulheres, familiares e íntimos,
Agora o artista lança a sua fibra, ele já tocou o seu prelúdio nos cálamos dentro de si.

Cordas fáceis e frouxas — sinto o dedilhar de seu clímax e paro.

Minha cabeça gira sobre meu pescoço,
A música flui, mas não vem do órgão,
As pessoas estão em minha volta, mas não são meus parentes.

Sempre o chão duro e inflexível,
Sempre os comilões e beberrões, sempre o sol que sobe e desce, sempre o ar e as marés incessantes,
Sempre eu e meus vizinhos, repousantes, cruéis, reais,
Sempre a mesma velha inexplicável questão, sempre aquele dedo ferido, o sussurro de coceiras e sedes,
Sempre os brados do atormentador: uuh! uuh! até que encontramos onde o astuto se esconde e o trazemos para a luz,
Sempre o amor, sempre o soluçante líquido da vida,
Sempre o curativo sob o queixo, sempre os cavaletes que sustentam a morte.

Aqui e ali, andando com moedas nos olhos,
Para alimentar a ganância da barriga, o cérebro, liberalmente, usando a colher,
Comprando ingressos, tomando, vendendo, mas nunca estando na festa uma única vez,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 96] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Muitos suando, arando, debulhando, e então recebendo por pagamento apenas os farelos.
Alguns proprietários ociosos continuamente exigindo o trigo.

Esta é a cidade e eu sou um dos cidadãos,
Tudo o que interessa aos demais interessa a mim: a política, as guerras, os mercados, os jornais, as escolas,
O prefeito e a câmara, os bancos, as tarifas, os navios a vapor, as fábricas, as ações, as lojas, os imóveis e os bens pessoais.
Os inúmeros manequins saltando de um lado para o outro em seus colarinhos e fraques,
Estou ciente de quem são (positivamente não são minhocas nem moscas),
Reconheço os clones de mim mesmo, o mais fraco e superficial é imortal comparado a mim,
O que faço e digo, o mesmo espera por eles,
Todo pensamento que se debate em mim também se debate neles.

Conheço perfeitamente bem meu egotismo,
Conheço minhas linhas onívoras e não devo escrever menos,
E te pegaria, quem quer que sejas, para receberes comigo a coroa.

Não há palavras rotineiras nesta minha canção,
Mas abruptamente questiono, salto para além e ainda assim me aproximo;
Há este livro impresso e encadernado — mas e o impressor e o ajudante do impressor?
As fotografias bem tiradas — mas e a tua esposa ou o teu amigo, próximos e firmes em teus braços?
Há o navio negro blindado com ferro, suas armas poderosas posicionadas nas torres — mas e o ânimo do capitão e dos engenheiros?
Há nas casas a louça, as provisões e os móveis — mas e o anfitrião e a anfitriã e o que seus olhos exprimem?
Há o céu lá em cima — contudo e aqui, ou na casa ao lado, ou do outro lado da rua?
Há os santos e os sábios na história — mas e tu?
Há sermões, crenças, teologia — mas e a incompreensível mente humana?


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 97] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E o que é a razão? E o que é o amor? E o que é a vida?


43

Não vos desprezo, sacerdotes, o tempo inteiro, mundo afora,
Minha fé é a maior das fés e a menor delas,
Ela inclui os cultos antigos e os modernos, e tudo o que há entre o antigo e o moderno,
Crendo que voltarei à Terra dentro de cinco mil anos,
Aguardando respostas de oráculos, honrando os deuses, saudando o sol,
Criando um fetiche da primeira pedra ou do primeiro pedaço de madeira, fazendo conferências com gravetos no círculo de obis,
Ajudando o lama ou o brâmane a limpar as lâmpadas dos ídolos,
Dançando ainda pelas ruas na procissão fálica, enlevado e austero nas florestas, um gimnosofista,
Bebendo hidromel, tendo um crânio por copo, admirando Shastas e Vedas, atento ao Alcorão,
Escalando as teocalis, borrado de sangue da pedra e da faca, tocando o tambor de pele de serpente,
Aceitando os evangelhos, aceitando aquele que foi crucificado, tendo a certeza de que ele é divino,
Ajoelhando-me perante a multidão ou ajoelhando-me para a prece do puritano, ou sentando-me pacientemente num banco de igreja,
Altercando e espumando em minha crise de insanidade, ou fingindo-me de morto até que meu espírito me erga,
Olhando adiante no pavimento e na terra, ou fora do pavimento e da terra,
Pertencendo àqueles que enrolam o circuito dos circuitos.

Membro da quadrilha centrípeta e centrífuga, eu me volto e falo como um homem que deixa suas ordens antes de uma jornada.

Desmotivados, incrédulos, melancólicos e excluídos,
Frívolos, mal-humorados, apáticos, raivosos, enfermos, desencorajados, ateus,
Conheço cada um de vós, conheço vosso mar de tormentas, vossas dúvidas, desespero e descrença.

Como os linguados se debatem!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 98] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Como eles se contorcem rapidamente como raios, com espasmos e esguichos de sangue!

Ficai em paz, linguados que sangram, de incrédulos e de apáticos esfregões,
Tomo meu lugar entre vós, tal como o faço entre os demais,
O passado é o que vos empurra para adiante, e também a mim e a todos, sempre do mesmo modo,
E aquilo que ainda não foi tentado, e aquilo que já foi, é para vós, para mim e para todos, sempre do mesmo modo.

Eu não sei o que não foi tentado e o que já foi,
Mas sei que quando sua vez chegar ela será suficiente, e não poderá falhar.

Cada um que passa é considerado, cada um que pára é considerado, e nenhum deles poderá falhar.

Não falhará o jovem homem que morreu e foi enterrado,
Nem a jovem mulher que morreu e foi colocada ao lado dele,
Nem a pequena criança que espiou pelo vão da porta, e que recuou e jamais foi vista novamente,
Nem o homem velho que viveu sem ter propósito, e sente-o com amargor pior que o do fel,
Nem aquele que está no albergue de indigentes, tuberculoso, em virtude do rum e da perturbação mental.
Nem os numerosos chacinados e destruídos, nem a ralé embrutecida, rotulada de excremento da humanidade,
Nem os sacos que andam por aí com a boca aberta para receber comida,
Nem qualquer outra coisa na terra ou dentro dos túmulos antigos da terra,
Nem qualquer coisa entre as miríades de esferas ou as miríades de miríades de seres que as habitam,
Nem o presente, nem o menor farrapo conhecido.


44

É hora de me explicar — vamos ficar de pé.

Aquilo que é conhecido, removo,
Lanço todos os homens e mulheres para frente, comigo, em meio ao Desconhecido.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 99] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O relógio indica o instante — mas o que é indicado pela eternidade?

Temos, pois, exaurido trilhões de invernos e verões,
Há trilhões adiante desses que se foram e outros trilhões mais para frente.

Nascimentos nos trouxeram riqueza e variedade,
E outros nascimentos nos trarão riqueza e variedade.

Eu não chamo um de maior e outro de menor,
Aquele que realiza seu tempo e seu lugar é tal como outro qualquer.

A humanidade foi assassina e invejosa para contigo, meu irmão, minha irmã?
Sinto muito por ti, ela não é assassina nem invejosa para comigo,
Todos têm sido gentis comigo, não tenho lamentações para exprimir.
(Que tenho eu com as lamentações?)

Sou um clímax das coisas que já foram conquistadas e em mim está guardado tudo aquilo que há de vir.

Meus pés batem no vértice do ápice dos degraus,
Em todos os degraus, bandos de eras e bandos maiores entre os meus passos,
Tudo que está abaixo foi devidamente percorrido, e ainda subo e subo cada vez mais.

E, a cada lance de ascensão, os fantasmas sobem atrás de mim,
Ao longe, lá embaixo, vejo o primeiro Nada monumental, sei que eu também estava lá,
Esperei ignoto e sempre, e dormi através das brumas letárgicas,
E aguardei meu tempo, e não me feri com o carbono fétido.

Por muito tempo fui abraçado fortemente, por muito e muito tempo.

Imensas foram as preparações para mim,
Fiéis e amigáveis os braços que me suportaram.

Os ciclos transportaram meu berço, remando e remando como alegres barqueiros,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 100] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Para me dar espaços, as estrelas se mantiveram apartadas em suas próprias órbitas,
Elas enviaram influências para cuidar daquilo que iria me sustentar.

Antes que eu nascesse de minha mãe, gerações me guiaram,
Meu embrião nunca foi entorpecido, nada podia oprimi-lo.

Para ele, a nebulosa inteira sintetizou-se num orbe,
As camadas vagarosamente se acumularam para lhe servir de alicerce,
Vastos vegetais deram-lhe substância,
Dinossauros transportaram-no em suas bocas e o depositaram com cuidado.

Todas as forças foram empregadas consistentemente para completar-me e deleitar-me,
Agora, neste exato lugar, eu me ergo com alma robusta.


45

Ó envergadura da juventude! Elasticidade sempre forçada!
Ó virilidade, equilibrada, florida e repleta.

Meus amantes me sufocam
Enchendo meus lábios, fechando os poros de minha pele,
Empurrando-me pelas ruas e pelos corredores públicos, vindo a mim durante a noite,
Bradando de dia: Ó de bordo! das pedras dos rios, balançando e gorjeando sobre a minha cabeça,
Chamando meu nome desde os canteiros das flores, das vinhas, debaixo de arbustos intrincados,
Iluminando cada instante de minha vida,
Dando beijinhos em meu corpo, com beijocas balsâmicas e macias,
Silenciosamente, passando punhados de seus corações e doando-os para se tornarem meus.

A velhice erguendo-se soberbamente! Ó bem-vinda graça inefável dos dias moribundos!

Toda condição promulga mais que ela mesma, promulga aquilo que cresce após e a partir dela,
E o sombrio silêncio promulga tanto quanto o resto.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 101] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Abro minha escotilha à noite e vejo os sistemas borrifados, ao longe,
E tudo o que vejo multiplicado, até o limite do que posso decifrar, tangencia a beira dos sistemas mais distantes.

Cada vez maior o raio em que se expande, expande-se sempre mais,
Para fora e para fora e para sempre para fora.

Meu sol tem o seu sol e em torno dele gira obedientemente,
Ele se une aos seus parceiros em um grupo de circuito superior,
E grupos maiores se seguem, fazendo com que pareçam pontinhos os maiores dentre eles.

Não há interrupção e nunca pode haver interrupção,
Se eu, tu e os mundos, e tudo que há embaixo ou acima de suas superfícies, fôssemos neste momento reduzidos de novo a uma
pálida bóia, de nada adiantaria, a longo prazo,
Certamente alcançaríamos de novo o ponto evolutivo em que hoje estamos,
E com certeza iríamos mais longe, e mais longe e ainda mais longe.

Alguns quatrilhões de eras, alguns octilhões de léguas cúbicas, não ameaçam o instante nem o tornam impaciente,
Eles são apenas partes, qualquer coisa é apenas uma parte do todo.

Ainda que enxergues a distância, há espaços sem limites fora dela,
Conta tanto quanto desejares, mas há tempo ilimitado em volta disso.

Meu encontro está marcado, ele é certo,
O Senhor estará lá e aguardará minha chegada em termos perfeitos,
O grande Camarada, o verdadeiro amante por quem anseio estará lá.


46

Sei que tenho o melhor do tempo e do espaço, que nunca foi e nunca será medido.

Percorro uma jornada perpétua (vinde todos ouvir!)
Meus sinais são um casaco à prova de chuva, bons sapatos e um cajado de madeira da floresta,
Nenhum amigo meu descansa em minha cadeira,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 102] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Não tenho cadeira, não tenho igreja, nem filosofia,
Não levo homem algum para o jantar, para a biblioteca, para a bolsa de valores,
Mas cada homem e cada mulher entre vós eu conduzo ao cimo de um outeiro,
Minha mão esquerda abraça-os pela cintura,
Minha mão direita aponta para as paisagens de continentes e estradas públicas.

Não eu, ninguém mais pode viajar aquela estrada em teu lugar,
Deves viajá-la com teus próprios passos.

Ela não é distante, ela está dentro do alcance,
Talvez estejas nela desde o teu nascimento e não saibas,
Talvez ela esteja em toda parte pela água e pela terra.

Põe tua mochila em teus ombros, filho amado, e eu farei o mesmo, e vamos apressar nossa jornada,
Cidades maravilhosas e nações livres tomaremos no caminho.

Se te cansares, entrega-me ambos os fardos e descansa o fôlego de tua mão em meus quadris,
E quando a hora chegar, tu hás de fazer o mesmo por mim,
Pois quando tivermos partido não repousaremos mais.

Hoje, antes do nascimento do sol, subi ao cimo de uma montanha e enxerguei o céu povoado,
E disse para o meu espírito: Quando nos tornarmos os guardiões desses orbes e de todo o prazer e do conhecimento que neles há, estaremos, então, plenos e satisfeitos?
E meu espírito respondeu: Não, superaremos essa etapa apenas para passar adiante e ir mais além.

Estás, também, fazendo-me perguntas e eu posso ouvir-te,
Respondo que não posso responder, pois é mister que encontres a resposta por ti mesmo.

Senta-te por um instante, filho amado,
Aqui estão alguns biscoitos para comeres e aqui algum leite para beberes,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 103] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Mas assim que dormires e te vestires com roupas limpas, eu te darei um beijo de despedida e abrirei o portão para que saias daqui.

Por tempo suficiente tens sonhado sonhos desprezíveis,
Agora, limpo a remela de teus olhos,
Deves habituar-te ao fascínio da luz e de todos os momentos de tua vida.

Por muito tempo, tu te agarraste timidamente a uma prancha na praia,
Agora quero que sejas um nadador ousado,
Para que mergulhes em alto mar, te ergas novamente, acenes para mim, grites e, sorrindo, agites teus cabelos.


47

Sou o professor de atletas,
Aquele que graças a mim tem seu torso avantajado, mais que o meu, prova a largura de meu torso,
Aquele que mais honra meu estilo é o que aprende com ele a destruir o professor.

O rapaz que amo torna-se um homem, não por algum poder emprestado, mas por mérito próprio,
Antes iníquo que virtuoso por conformidade ou medo,
Afetuoso por sua namorada, saboreando bem o seu bife,
Amor não correspondido ou desprezo ferem-no mais que aço afiado,
Primeira classe para cavalgar, lutar, bater nos olhos do búfalo, navegar um esquife, cantar uma canção ou tocar banjo,
Preferindo as cicatrizes e a barba e os rostos manchados pela varíola a todas as espumas,
E os bem bronzeados a aqueles que se mantêm longe do sol.

Ensino que se desviem de mim, contudo quem pode se desviar de mim?
Persigo-te, quem quer que sejas na presente hora,
Minhas palavras fazem coçar os teus ouvidos até que sejam entendidas.

Não afirmo essas coisas por um dólar ou para passar o tempo enquanto espero por um barco,
(Tu falas tanto quanto eu. Ajo como se fosse a tua língua,
Presa à tua boca, pois na minha ela começa a se soltar).



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 104] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Juro que jamais mencionarei outra vez o amor ou a morte dentro de uma casa,
E juro que jamais traduzirei a mim mesmo, exceto para aquele ou aquela que privar da minha intimidade ao ar livre.

Se podes me compreender, sobe para o cume das montanhas ou segue para as praias,
O inseto mais próximo é uma explicação, e uma gota ou o movimento das ondas é uma chave,
O malho, o remo, o serrote corroboram minhas palavras.

Nenhuma sala ou escola fechada pode afinar-se comigo,
Mas os brutos e as criancinhas são nisso melhores do que eles.

O jovem mecânico é mais próximo de mim, ele me conhece bem,
O lenhador que carrega seu machado e seu cântaro carrega-me também o dia inteiro,
O jovem agricultor na fazenda, arando os campos, sente-se bem ao som de minha voz,
Os barcos que navegam acompanham as minhas palavras; viajo com pescadores e marinheiros e os amo.

O soldado acampado ou marchando é meu,
Na noite que antecede a próxima batalha muitos me procuram, e eu não os decepciono,
Naquela noite solene (pode ser a sua última) aqueles que me conhecem me procuram.

Meu rosto se esfrega ao rosto do caçador quando ele está deitado na solidão, embaixo do cobertor,
O condutor que pensa em mim não se importa com o sacolejo de sua carroça,
A jovem mãe e a velha mãe me compreendem,
As moças e a esposa descansam suas agulhas por um instante e se esquecem do lugar em que se acham,
Elas e todos recapitulariam o que eu lhes disse.


48

Eu disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 105] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo,
E quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral vestindo sua mortalha,
E eu ou tu sem um centavo no bolso podemos comprar a nata da terra,
E vislumbrar com um olho, ou apresentar um grão na sua vagem, confundindo o conhecimento de todas as eras,
E não há negócio ou emprego em que um jovem, seguindo a carreira, não se possa tornar um herói,
E não há objeto que seja tão delicado que não possa funcionar como o centro em que se ligam todas as rodas que movem o Universo,
E digo para qualquer homem ou mulher, Deixe que sua alma esteja tranqüila e íntegra perante um milhão de universos.

E digo para a humanidade, Não tenha curiosidade sobre Deus,
Pois eu que sou curioso sobre todas as coisas não tenho curiosidade alguma sobre Deus,
(Não há uma gama de termos grande o suficiente com a qual eu possa dizer o quanto estou em Paz sobre Deus e sobre a morte.)

Ouço e observo Deus em todos os objetos e ainda assim não compreendo Deus minimamente,
Nem posso compreender quem possa haver que seja mais maravilhoso do que eu.

Por que eu deveria ver Deus melhor do que este dia?
Eu vejo algo de Deus a cada hora das vinte e quatro horas do dia, e a cada momento,
Nos rostos de homens e mulheres eu vejo Deus, e em minha própria face no espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pelas ruas e todas elas estão assinadas por Ele,
E deixo-as ficar onde se encontram, pois sei que onde quer que vá,
Outras virão pontualmente para toda a eternidade.


49

E quanto a ti, Morte, e tu, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentar me assustar.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 106] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Para o seu trabalho sem vacilo vem o parteiro
Vejo a mão do idoso pressionando, recebendo, auxiliando,
E me reclino sobre o peitoril das portas flexíveis e requintadas,
E indico a saída e indico o alívio e a fuga.

E quanto a ti, Corpo frio, penso que serás um bom adubo, mas isso não me ofende,
Sinto o perfume doce das rosas brancas que crescem,
Alcanço os lábios folhosos, alcanço os peitos polidos de melão.

E quanto a ti, Vida, reconheço-te nos restos de muitas mortes,
(Sem dúvida eu mesmo já morri umas dez mil vezes antes.)

Eu vos ouço assobiando aí, ó estrelas do Céu,
Ó sóis — ó relva dos túmulos — ó perpétuas transferências e promoções,
Se vós não dizeis nada, como eu posso dizer alguma coisa?

Do lago de águas turvas que jaz no meio da floresta outonal,
Da lua que desce as escarpas do crepúsculo murmurante,
Arremessai-vos, centelhas do dia e do anoitecer — arremessai-vos sobre os caules negros que apodrecem no esterco.
Arremessai-vos à gemebunda algaravia dos galhos secos.

Subo da lua, subo da noite,
Percebo que o lampejo cadavérico são os raios do sol do meio-dia refletidos,
E desemboco no que é estável e central, a partir de uma descendência grande ou pequena.


50

Há isso em mim — eu não sei o que isso é — mas sei que está em mim.

Angustiado e suado — calmo e tranqüilo, então, meu corpo se torna,
Durmo — durmo por um longo tempo.

Não sei o que é — é algo que não tem nome — é uma palavra que jamais foi dita,
Não está em dicionário algum, expressão vocal, símbolo.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 107] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Balança sobre algo maior do que a terra em que balanço,
Para ele a criação é o amigo cujo abraço me desperta.

Talvez eu possa dizer mais. Perfis! Imploro por meus irmãos e irmãs.

Vedes, ó meus irmãos e minhas irmãs?
Não é o caos ou a morte — é a forma, a união, o plano — é a vida eterna — é a Felicidade.


51

O passado e o presente definham — eu os preenchi, eu os esvaziei,
E procedo para completar meu próximo aprisco do futuro.

Ouvinte que aí estás! Que confidências tens para me fazer?
Olha nos meus olhos enquanto sorvo o andar de esguelha da noite,
(Fala honestamente, ninguém mais te ouve e eu fico apenas por mais um minuto.)

Eu me contradigo?
Muito bem, então me contradigo,
(Sou vasto, contenho multidões.)

Concentro-me naqueles que estão próximos, espero na soleira da porta.

Quem já cumpriu o trabalho do dia? Quem terminará o seu jantar mais cedo?
Quem deseja andar comigo?

Falarás antes que eu parta? Chegarás tarde demais?


52

O gavião pintado mergulha e me acusa, ele reclama de minha tagarelice e de minha vadiagem.

Eu também não sou muito domado, eu também sou intraduzível,
Lanço no ar o meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.

A última sombra do dia espera por mim,
Ela arremessa minha imagem atrás das outras e, tão verdadeira quanto qualquer coisa no agreste sombrio,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 108] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Me arrasta para o vapor e para o crepúsculo.

Eu parto como o ar, agito minhas mechas brancas sob o sol fugitivo,
Derramo minha carne em remoinhos e deixo-a à deriva em saliências rendilhadas.

Lego-me ao pó para crescer da relva que amo,
Se queres me ver novamente, procura-me grudado à sola de tuas botas.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,
Mas hei de ser para ti boa saúde assim mesmo,
E filtrarei e darei fibra ao teu sangue.

Se não puderes me encontrar na primeira vez, mantém a esperança,
Não me achando em certo lugar, procura em outro,
Fico em alguma parte à tua espera.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 109] - - - - - - - - - - - - - - - - - -




Filhos de Adão


Ao jardim, o mundo torna

Ao jardim, o mundo torna se elevando,
Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,
O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,
Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,
Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,
Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,
Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles, por razões — quase todas assombrosas
Que ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,
Feliz com o presente, feliz com o passado,
Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,
Ou vai à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.


Desde os rios confinados à dor

Desde os rios confinados à dor,
Sem aquilo de mim, sem o que eu não seria nada,
Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre, mesmo que eu viva solitário entre os homens,
Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico,
Entoando o canto da procriação,
Cantando a necessidade de crianças soberbas, e a esse respeito soberbos adultos,
Cantando o impulso muscular e a hemorragia,
Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!
Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!
Ó por ti, quem quer que sejas, o teu corpo correspondente! Ó isso, mais que coisa qualquer, tu te deliciando!)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 110] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Desde o roedor faminto que me devora noite e dia,
Desde os momentos nativos, desde as dores acanhadas, cantando-as,
Pesquisando algo que ainda não pude descobrir, embora tenha diligentemente procurado anos a fio,
Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso,
Renascido com a natureza grotesca ou entre os animais,
Disso, deles e aquilo que vai a título de informação com meus poemas,
Do perfume das maçãs e dos limões, da poda dos pássaros,
Da umidade das florestas, da curvatura das ondas,
Das loucas investidas das ondas sobre a terra, eu então cantando,
Fazendo soar levemente a abertura, a tensão antecipando,
A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,
O nadador nadando nu na banheira ou boiando sem movimentos em seu dorso deitado,
As formas femininas se aproximando, eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,
A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,
O rosto, os membros, o índice da cabeça aos pés, e aquilo que faz com que ele se levante,
O delírio do místico, a loucura amorosa, o completo abandono,
(Chega perto e calado escuta o que agora sussurro para ti,
Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,
Ó tu e eu fugimos do mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,
Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois.)
A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente,
O juramento de inseparabilidade dos dois que se unem, da mulher que me ama e a quem amo mais que a própria vida, esse juramento fazendo,
(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,
Ó deixe-me estar perdido se necessário for!
Ó tu e eu! O que significa para nós o que os outros fazem ou pensam?
O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro e nos exaurimos se necessário for.)
Desde o mestre, ao condutor entrego a nau,
O general me comanda, comanda a todos, dele recebemos permissão,
Desde o tempo, o programa apressando (tenho vadiado muito até agora)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 111] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Desde o sexo, desde a urdidura e desde a textura,
Desde a privacidade, desde as lamentações solitárias,
Desde muitas pessoas próximas e, ainda assim as pessoas certas distantes,
Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos pelos meus cabelos e minha barba,
Desde o longo beijo sustentado na boca ou nos seios,
Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem até desmaiá-lo pelo excesso,
Desde aquilo que o marido divino conhece, desde o trabalho da paternidade,
Desde a exultação, a vitória e o alívio, desde o abraço do companheiro de cama durante a noite,
Desde os poemas de ação dos olhos, das mãos, dos quadris e dos seios,
Desde a pegada do braço que treme,
Desde a curva flexionada e o abraço,
Desde o movimento de tirar a coberta flexível que nos cobre de um lado a outro,
Desde aquele que não deseja me ver partindo, e eu que também não desejo partir,
(Será um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei,)
Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,
Desde a noite um momento em que vou emergindo fugaz,
Celebro-te, ato divino, e vós, filhos preparados,
E vós, corajosos leões.


Eu canto o corpo elétrico

1

Eu canto o corpo elétrico,
Os exércitos daqueles que amo estão em minha volta e estou em torno deles,
Eles não me deixarão partir até que eu vá com eles, até que lhes dê uma resposta,
E os descarregue e os carregue a todos com a carga da alma.

Foi posto em dúvida se aqueles que corrompem seus próprios corpos se disfarçam?


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 112] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E se aqueles que desafiam os vivos são tão maus quanto os que desafiam os mortos?
E se o corpo não faz o mesmo tanto quanto a alma faz?
E se o corpo não for a própria alma, o que é a alma?


2

O amor do corpo masculino ou feminino é indescritível, o próprio corpo é indescritível,
O do macho é perfeito, e o da fêmea é perfeito.

A expressão do rosto é indescritível,
Mas a expressão de um homem bem feito não aparece apenas em seu rosto,
Ela está em seus membros e nas suas juntas igualmente, está curiosamente nas juntas de seus quadris e de seus punhos,
Transparece em seu modo de caminhar, na força de seu pescoço, na flexão de sua cintura e de seus joelhos, e as roupas não conseguem escondê-lo,
A qualidade docemente poderosa que ele tem rompe através do algodão e da lã,
A visão de sua passagem nos transmite algo comparável ao melhor dos poemas, talvez ainda mais,
Pára para observar suas costas, sua nuca e suas espáduas.

O espreguiçar e a plenitude dos bebês, os seios e as cabeças das mulheres, as dobras de seus vestidos, seus estilos, quando as vemos nas ruas, e suas formas vistas de cima para baixo,
O nadador desnudo na piscina, visto enquanto cruza as translúcidas águas verdes e brilhantes ou deitado com sua face para cima, rolando silenciosamente para lá e para cá com a ondulação da água,
A inclinação dos remadores para frente e para trás em seus barcos, o cavaleiro em sua sela,
Moças, mães, empregadas, em meio aos seus afazeres,
Ao meio-dia o grupo de operários está sentado com suas marmitas abertas, enquanto suas esposas aguardam,
A fêmea amamentando uma criança, a filha do fazendeiro no jardim ou no curral,
O mocinho cultivando milho, o cocheiro dirigindo a carruagem de seis cavalos por entre a multidão,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 113] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A luta dos lutadores, dois garotos aprendizes, bem crescidos, sensuais, de boa natureza, nativos, saindo pelo descampado ao fim do dia de trabalho,
Os casacos e os bonés jogados ao chão, o abraço de amor e a resistência,
O golpe por cima e o golpe por baixo, o cabelo caindo sobre os olhos e atrapalhando a visão;
A marcha dos bombeiros que vestem suas fardas, o jogo másculo de músculos por entre suas calças limpas e cinturões,
O retorno tranqüilo do incêndio, a pausa quando a sirene toca, de repente, outra vez, e a escuta em estado de alerta,
As atitudes naturais, perfeitas, variadas, a cabeça inclinada, o pescoço inclinado e a conta;
É isso que amo — e me entrego, passando livremente, estou no seio da mãe com a criança de colo,
Nado com os nadadores, luto com os lutadores, marcho alinhado com os bombeiros, e pauso, e escuto, e conto.


3

Conheci um homem, um fazendeiro comum, o pai de cinco filhos,
E eles mesmos pais de outros filhos, que por sua vez eram pais de outros filhos.

Esse homem tinha um vigor fabuloso, calma e uma bela personalidade,
A forma de sua cabeça, a cor pálida amarela e branca de seus cabelos e de sua barba, o significado imensurável de seus olhos negros, a riqueza e a amplitude de suas maneiras,
Para ver essas suas qualidades, eu costumava visitá-lo, ele era também muito sábio,
Tinha cerca de um metro e oitenta de altura, tinha mais de oitenta anos de idade, seus filhos eram fortes, limpos, barbados, tinham o rosto queimado de sol, eram belos,
Tanto seus filhos quanto suas filhas o amavam, todos que o conheciam o amavam,
Eles não o amavam pelo dinheiro, eles tinham um verdadeiro amor pela pessoa,
Bebia água, somente, seu sangue era visivelmente vermelho por trás de sua pele morena,
Era um caçador e pescador assíduo, ele mesmo velejava seu barco, um barco excelente que ganhara de um barqueiro, tinha armas de caça presenteadas por homens que o amavam,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 114] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Ao vê-lo saindo com seus cinco filhos e muitos netos para uma caçada ou pescaria, dizíamos que ele era o mais belo e vigoroso do grupo,
Desejávamos por muito tempo estar com ele, desejávamos nos sentar ao lado dele no barco, de modo que pudéssemos tocar uns aos outros.


4

Percebi que estar com os que amo é o suficiente,
Descansar na companhia dos demais, à noitinha, é o suficiente,
Estar cercado por pessoas lindas, curiosas, arejadas, sorridentes é o que basta,
Passar por entre elas ou tocar qualquer um deles, ou descansar meu braço sempre tão leve em torno do pescoço dele ou dela, por um momento, o que é isso então?
Não peço nada mais delicioso do que isso, nado nessa experiência como se fosse o oceano.

Há algo especial em estar próximo de homens e mulheres, observando-os, em contato com eles e com seu perfume, e é isso que dá tanto prazer à alma,
Todas as coisas dão prazer à alma, mas com esses prazeres a alma de fato se sente bem.


5

Esta é a forma da fêmea,
Ela exala uma auréola divina da cabeça aos pés,
Ela atrai com inegável e arrebatadora atração,
Sou arrastado pelo seu hálito, como se eu não fosse mais que um vapor indefeso, tudo que há em volta se esvaece exceto ela e eu,
Letras, arte, religião, as eras, a terra visível e sólida, e do que era esperado do céu e temido do inferno, agora está tudo acabado:
Loucos filamentos e renovos saltam para fora dela, com uma reação também desgovernada,
Cabelos, seios, quadris, pernas dobradas, negligentes mãos caídas, todas difusas, as minhas também difusas,
Refluxo tocado pela correnteza e correnteza tocada pelo refluxo, carne de amor dilatando e doendo deliciosamente,
Ilimitados e límpidos jatos de amor quentes e enormes, geléia trêmula de amor, explosão branca e suco delirante,
Noite de amor de noivo tecendo certa e maviosamente até se prostrar no amanhecer,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 115] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Ondulando dentro do produtivo dia de desejos,
Perdido na divisão do dia de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois é a vez da criança nascer da mulher, o homem nasce da mulher,
Eis o banho da origem, eis o batismo do pequeno e do grande e a saída de novo.
Não vos envergonheis, mulheres, vosso é o privilégio de conter os outros e de dar a eles a saída,
Vós sois os portões do corpo, e sois o portão da alma.
A fêmea contém todas as qualidades e as tempera,
Ela ocupa seu posto e se move com em perfeito equilíbrio,
Ela é todas as coisas devidamente veladas, ela é ambos, o passivo e o ativo,
Ela existe para conceber tanto filhas como filhos, e filhos como filhas.
Assim como na Natureza, vejo minha alma refletida,
Assim como vejo através de um nevoeiro, Uma de inexprimível plenitude, saúde e beleza,
Vejo sua cabeça inclinada e seus braços cruzados sobre seus seios, a Fêmea eu vejo.


6

O macho não é menos nem mais do que a alma, ocupa também o seu posto,
Ele possui as mesmas qualidades, sendo a ação e o poder,
O fluxo do universo conhecido está nele,
O escárnio cai-lhe bem, e o apetite e a rebeldia caem-lhe bem,
As maiores paixões, as mais selvagens, a felicidade em seu limite extremo caem-lhe bem, o orgulho cai-lhe bem,
O orgulho em sua máxima potência no homem é calmante e excelente para a alma,
O conhecimento é próprio dele, ele sempre o aprecia, tudo ele aproxima de si para experimentar,
Qualquer tipo de pesquisa, qualquer que seja o mar e o veleiro é aqui, finalmente, que ele faz as sondagens
(Onde mais ele poderia fazer as sondagens além de aqui mesmo?)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 116] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O corpo do homem é sagrado e o corpo da mulher é sagrado,
Não importa quem ele seja, é um ser sagrado — é ele o pior de um grupo de operários?
É um dos imigrantes que, com expressão melancólica no rosto, acaba de desembarcar no cais?
Cada um deles pertence a esta terra, ou a qualquer outra parte, tanto quanto os bem-nascidos, tanto quanto vós,
Cada um tem seu lugar na procissão.

(Tudo é uma procissão,
O universo é uma procissão que se move em medida perfeita.)

Sabeis tanto que podeis chamar o menos preparado de ignorante?
Supondes que tendes direito a uma boa compreensão das coisas, e ele e ela não têm direito algum?
Pensais que a matéria se fez una e coesa a partir de seu movimento difuso e que o solo está na superfície e as águas correm e a vegetação brota
Apenas para vós? E não para ele ou para ela?


7

Um corpo de homem está para ser leiloado,
(Pois antes da guerra vou com freqüência ao mercado de escravos e assisto ao pregão),
Ajudo o leiloeiro, pois o desleixado não conhece metade de seu ofício.

Senhores, contemplai esta maravilha,
Por mais altos os lances dos licitantes, não serão altos o suficiente para comprá-la,
Pois para formar este corpo o globo terrestre aguardou quintilhões de anos antes mesmo de haver a possibilidade de surgir um único animal ou uma planta,
Para formá-lo, desdobraram-se, genuínos e consistentes, os ciclos da evolução.

Nesta cabeça, o todo habilidoso cérebro,
Nela e abaixo dela a substância de que são feitos os heróis!

Examinai estes membros, vermelhos, negros, ou brancos, tendões e nervos graciosos,
Terão eles de ser abertos para que os enxergueis?


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Sentidos apurados, olhos iluminados para a vida, garra, vontade,
Tórax musculoso, espinha e pescoço maleáveis, carne rija, braços e pernas bem proporcionados,
E lá dentro muitas outras maravilhas.

Lá dentro o sangue a correr,
O mesmo antigo sangue! O próprio sangue em sua vermelha jornada!
Aqui o coração bate, fazendo circular o sangue, aqui residem todas as paixões, desejos, conquistas, aspirações,
(Pensais que tudo isso inexiste só por não ser assunto de discursos nos auditórios e salões de conferências?)

Este não é apenas um homem, é aquele que será o pai daqueles que serão pais por sua vez,
Nele está a gênese de estados populosos e repúblicas prósperas,
A partir dele há vidas imortais e incontáveis com incontáveis encarnações e alegrias.

Como sabeis quem surgirá das gerações que surgirão das gerações deste homem pelos séculos?
(De quem vós mesmos descobriríeis que descendeis, se acaso pudésseis traçar uma linha retroativa pelos séculos dos séculos?)


8

O leilão de um corpo de mulher,
Ela também não é apenas ela mesma, mas a fértil mãe de tantas mães,
E a portadora daqueles que hão de crescer e se tornar os pares de tantas outras mães,

Já amastes o corpo de uma mulher?
Já amastes o corpo de um homem?
Não vedes que são exatamente os mesmos para todos em todos os tempos e nações da terra inteira?

Se algo há que seja sagrado, então esse algo é o corpo humano,
E a glória e a doçura de um homem é o dom de sua virilidade impoluta,
E no homem ou na mulher, um corpo limpo, forte e saudável é mais belo que a mais bela das faces.

Já vistes o tolo que corrompeu seu próprio corpo vivo? Ou a tola que corrompeu seu próprio corpo vivo?


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 118] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Eles não se encontram escondidos e não podem, em verdade, esconder-se.


9

Ó meu corpo! Não ouso abandonar as tuas semelhanças em outros homens e mulheres, nem as semelhanças das tuas partes,
Creio que as tuas semelhanças hão de se manter ou terminar com as semelhanças da alma (e com o fato de que elas são a alma)
Creio que as tuas semelhanças devem se manter ou terminar com meus poemas e com o fato de que elas são os meus poemas,
Poemas de mulheres, de crianças, de jovens, de esposas, de maridos, de mães, de pais, de moços e moças,
Cabeça, pescoço, cabelo, ouvidos, diafragma e tímpano dos ouvidos,
Olhos, franjas dos olhos, íris dos olhos, sobrancelhas, e o abrir e fechar das pálpebras,
Boca, língua, lábios, dentes, céu da boca, maxilares, e as juntas dos maxilares,
Nariz, narinas, e a divisória das narinas,
Bochechas, têmporas, testa, queixo, garganta, nuca, entorno do pescoço,
Ombros fortes, barba masculina, omoplata, juntas dos ombros e a ampla parte lateral da caixa torácica,
Antebraço, sovaco, encaixe do cotovelo, braço, nervos dos braços, ossos dos braços,
Pulso, e juntas dos pulsos, mão, palma das mãos, nós dos dedos, dedão, dedos, juntas dos dedos, unhas das mãos,
Ampla frente do tórax, pêlos enrolados do peito, osso do peito, parte lateral do peito,
Costelas, barriga, espinha, juntas da espinha,
Quadris, encaixe dos quadris, força dos quadris, movimentos rotatórios dos quadris para dentro e para fora, testículos do homem, pênis,
Força dos fêmures que tão bem suporta o tronco acima,
Fibras das pernas, joelhos, cavidade do joelho, perna,
Tornozelos, peito do pé, bola do pé, dedões, juntas do dedão;
Tudo o que pertence ao meu ou ao teu corpo, ou o corpo de qualquer pessoa, seja um corpo feminino ou masculino,
Os filamentos do pulmão, o saco do estômago, os intestinos doces e limpos,
As dobras cerebrais dentro dos ossos do crânio,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 119] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Conexões, válvulas do coração, válvulas do palato, sexualidade, maternidade,
Feminilidade, e tudo o que é uma mulher, e o homem que vem da mulher,
O útero, os seios, os mamilos, leite materno, lágrimas, risada,lamentos, olhares amorosos, perturbações amorosas e ereções,
A voz, a articulação, a linguagem, o sussurro, o grito,
Comida, bebida, pulso, digestão, suor, sono, o ato de andar, de nadar,
O equilíbrio sobre os quadris, os saltos, a reclinação, o abraço, a envergadura do braço e o aperto,
As alterações contínuas do molejo da boca, e em torno dos olhos,
A pele, a queimadura do sol, sardas, cabelo,
A curiosa sensação de quem toca a carne nua do corpo com sua mão,
O ciclo da respiração, a inspiração e a expiração,
A beleza da cintura, descendo aos quadris, e desse ponto descendo para os joelhos,
As geléias finas e vermelhas dentro de ti ou de mim, os ossos e o tutano que há nos ossos,
A estranha consciência da saúde;
Ó eu digo que esse não é apenas o poema das partes do corpo, mas também o da alma,
Ó eu digo que estas partes são a alma!



Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, ela contém tudo em si, nada lhe falta,
Não obstante, tudo estaria faltando se o sexo estivesse faltando ou se a umidade do homem certo estivesse faltando.

O sexo contém tudo em si, os corpos e as almas,
Os significados, as provas, a pureza, a delicadeza, os resultados, as promulgações,
As canções, as ordens, a saúde, o orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,
Todas as esperanças, os benefícios, os favores, todas as paixões, os amores, as belezas, as delícias da terra,
Todos os governos, os juízos, os deuses, todas as pessoas do mundo que têm seguidores,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 120] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Essas estão contidos no sexo como partes de si mesmas, como justificativas de si mesmas.

Sem sentir-se envergonhado, o homem de quem gosto conhece e declara as delícias de seu sexo,
Sem sentir-se envergonhada, a mulher de quem gosto conhece e declara as delícias do seu.

Agora me despeço das mulheres impassíveis,
Ficarei com aquela que me aguarda e com aquelas mulheres de sangue quente e suficientes para mim,
Vejo que elas me compreendem e não me negam,
Vejo que elas me merecem, serei o marido robusto daquelas mulheres.

Elas não são nem um til a menos do que sou,
Elas têm seus rostos queimados pelo brilho do sol e pelo sopro dos ventos,
Seus corpos são dotados de divina elasticidade e potência,
Elas sabem nadar, remar, andar a cavalo, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defender a si mesmas,
Elas são definitivas em seus direitos — são calmas, claras, seguras de si mesmas.

Trago-vos para junto de mim, vós, mulheres,
Não posso deixar-vos ir, eu seria bom para vós,
Sou por vós e sois por mim, não apenas em nosso benefício, mas em benefício de outros,
Engendrados em vós dormem grandes heróis e poetas,
Eles se recusam a acordar ao toque de qualquer outro homem que não seja eu.

Sou eu, mulheres, faço o meu caminho,
Sou severo, ríspido, grande, indissuasivo, mas vos amo,
Não vos firo mais do que julgais necessário,
Derramo em vós a semente para gerar os filhos e filhas bem preparados para estes Estados, aperto-vos com músculos rudes e vagarosos,
Abraço com eficácia, não dou ouvidos a exigências,
Não ouso parar até que deposite em vós aquilo que por tanto tempo esteve acumulado em mim.



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Através de vós, eu dreno os rios enclausurados de mim mesmo,
Em vós envolvo mil anos de porvir,
Em vós enxerto o enxerto do que é mais amado por mim e pela América,
As gotas que destilo sobre vós devem gerar garotas impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos, e cantores,
Os bebês que procrio convosco se tornarão bebês procriadores por sua vez,
Demandarei homens e mulheres perfeitos, saídos de meus investimentos amorosos,
Espero que eles interpenetrem-se com outras, como eu e vós nos interpenetramos agora,
Eu hei de contar os frutos de suas chuvas efusivas, tal como eu conto os frutos da chuva efusiva que vos dou agora,
Hei de esperar pelas colheitas amorosas do nascimento, da vida, da morte, da imortalidade, que planto tão amorosamente neste momento.


O Eu espontâneo

O Eu espontâneo, a Natureza,
O dia amoroso, o sol engastado, o amigo com quem estou feliz,
O braço de meu amigo apoiado, preguiçosamente, sobre o meu ombro,
A encosta embranquecida pelas flores da sorveira brava,
À mesma altura do outono, os matizes de escarlate, amarelo, castanho, púrpura e verde claro e escuro,
A colcha rica da grama, os animais, os pássaros, a margem desaprumada e isolada, as maçãs selvagens, os cristais de rocha,
Os belos fragmentos gotejantes, a lista negligente de um após o outro quando os chamo ou penso sobre eles,
Os poemas reais (o que chamamos poemas sendo apenas imagens),
Os poemas da intimidade da noite, e de homens como eu,
Este poema desfalecendo, tímido e incógnito, que carrego sempre, e que todos os homens carregam,
(Que tu conheças, de uma vez por todas, o propósito declarado: onde quer que haja homens como eu, estão nossos poemas masculinos, vigorosos e secretos.)
Pensamentos de amor, fluidos de amor, cheiro de amor, oferta de amor, trepadeiras de amor, seiva trepadeira,


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Braços e mãos de amor, lábios de amor, dedão fálico de amor, seios de amor, barrigas unidas e pressionadas uma na outra com amor,
Terra de casto amor, vida que é apenas a vida após o amor,
O corpo de meu amor, o corpo da mulher que amo, o corpo do homem, o corpo da terra,
Ares macios da manhã que sopram de sudoeste,
A abelha selvagem, peluda, que zune e expressa os seus anseios subindo e descendo, que aborda a moça flor plenamente desabrochada e curva-se sobre ela com pernas firmes e amorosas, toma a sua vontade de possuí-la, e se aperta trêmula e com força até estar inteiramente saciada;
A floresta orvalhada através das primeiras horas do dia,
Dois que dormem à noite, deitados próximos um do outro, um com o braço oblíquo atravessado em torno e abaixo da cintura do outro,
O perfume das maçãs, aromas de ramonas esmagadas, menta, cascade vidoeiro,
As saudades do menino, o brilho e a tensão no momento em que ele me confessa o teor de seus sonhos,
A folha seca girando em seu redemoinho e caindo paralisada e satisfeita no chão,
Os espinhos disformes que se avistam, as pessoas, os objetos, com os quais me aguilhoam,
O espinho furador de mim mesmo, aguilhoando-me tanto quanto se pode aguilhoar alguém,
Os irmãos sensíveis, esféricos, subpostos, de quem apenas os tentáculos privilegiados podem ser íntimos no lugar em que estão,
O curioso vagante tem a sua mão vagando pelo corpo inteiro, a tímida retirada da carne onde os dedos verdadeiramente param e cingem a si mesmos,
O líquido límpido dentro do jovem homem,
A corrosão irritada, tão reflexiva e tão dolorosa,
A tormenta, a maré irritável que não se acomodará,
A semelhança dos mesmos eu sinto, a semelhança do mesmo nos outros,
O jovem homem que se excita e se excita, a jovem mulher que se excita e se excita,
O jovem homem que desperta no meio da noite, a mão quente procurando reprimir aquilo que o dominaria,
A noite amorosa do místico, a estranha angústia quase bem-vinda, as visões, o suor,


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O pulso que bate pela palma das mãos, cujos dedos tremulam envolventes, o rapaz que tem o rosto vermelho,
envergonhado, nervoso;
A salmoura sobre mim vem do mar, meu amante, quando me deito desnudo e ardente,
A folia dos bebês gêmeos que engatinham na grama sob o sol, a mãe em momento algum desvia seu olhar vigilante sobre ambos,
O tronco da nogueira, as cascas das nozes e as nozes que amadurecem ou já maduras, as nozes graúdas,
A continência dos vegetais, dos pássaros, dos animais,
Minha vileza conseqüente; eu deveria esquivar-me ou achar-me indecente, enquanto os pássaros e os animais nunca se esconderam nem jamais se acharam indecentes,
A grande castidade da paternidade, para equiparar-se à grande castidade da maternidade,
O voto da procriação eu já fiz, minhas filhas adâmicas e novas,
A cobiça que me devora dia e noite com fome roedora, até que eu me enjoe daquilo com que hei de produzir meninos para me substituir quando eu passar,
O alívio por inteiro, o repouso, o contentamento,
E esse bando arrancado de mim ao acaso,
Já cumpriu sua missão — eu o lanço sem cuidado para cair em qualquer parte.


Uma hora para a loucura e o regozijo

Uma hora para a loucura e o regozijo! Ó furioso! Eu não me contenho!
(O que é isso que me liberta de tal modo em tempestades?
O que são os meus gritos em meio aos relâmpagos e aos ventos furiosos?)

Ó beber o delírio místico mais profundamente do que qualquer outro homem!
Ó dores selvagens e frágeis! (Eu as deixo como um legado para vós, meus filhos,
Para vós eu as narro, por razões que conheço, ó noivo, ó noiva.)
Ó ser entregue para ti, quem quer que sejas, e tu sendo entregue para mim, como um ato de rebeldia do mundo!


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Ó retornar ao Paraíso! Ó tímido e feminino!
Ó atrair-te para mim, colocando em ti, pela primeira vez, os lábios de um homem determinado.

Ó o quebra-cabeças, ó o nó sumamente atado, ó o poço fundo e obscuro, desamarrado inteiramente e iluminado!
Ó a corrida onde o espaço nos basta e onde o ar é o bastante afinal!
Ser libertado de convenções e compromissos prévios, eu dos meus e tu dos teus!
Encontrar um novo impensado, algo que está na indiferença, com o melhor da Natureza!
Tirar a mordaça da boca de alguém!
Ter o sentimento de que hoje ou em qualquer dia eu me basto a mim mesmo!

Ó algo não provado! Algo em êxtase!
Escapar inteiramente das garras e das âncoras do outro!
Avançar livremente! Amar firmemente! Arrojar-se despreocupadamente com perigo!
Cortejar a destruição com insultos, com convites!
Subir, saltar para os céus do amor indicado para mim!
Elevar-se mais longe com a minha alma inebriada!
Perder-se, se necessário for!
Alimentar o que resta da vida com uma hora de plenitude e liberdade!
Com uma hora breve de loucura e de alegria.


Do encapelado oceano da multidão

Do encapelado oceano da multidão
Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,
Sussurrando Eu te amo, bem antes de eu morrer,
Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,
Pois não poderia morrer antes de olhar-te.
Pois temia que mais tarde poderia te perder.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros,
Volta em paz para o oceano, meu amor,
Também eu sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,
Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 125] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Mas quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,
Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes, por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;
Não sejas impaciente — um interregno — sabe tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todos os dias no crepúsculo, pelo amor de ti, meu amor.


Eras e eras retornando a intervalos

Eras e eras retornando a intervalos
Eras e eras retornando a intervalos,
Intocadas, vagando imortalmente,
Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,
Eu, cantor de canções adâmicas,
Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,
Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os, oferecendo a mim mesmo,
Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,
Fruto da minha carne.


Nós também, por quanto tempo fomos enganados

Nós também, por quanto tempo fomos enganados,
Agora transmutados, rapidamente escapamos, tal qual a Natureza,
Somos a Natureza, por muito tempo estivemos ausentes, mas agora retornamos,
Tornamo-nos plantas, troncos, folhagem, raízes, cascas,
Estamos enterrados no solo, somos rochas,
Somos carvalhos, crescemos ao ar livre, um ao lado do outro,
Pastamos, somos duas entre as ervas selvagens, tão espontâneas quanto quaisquer outras,
Somos dois peixes nadando, juntos no mar,
Somos o que são as flores da acácia meleira, destilamos o aroma em torno das estradas, nas manhãs e à noitinha,
Somos, também, a sujeira áspera das feras, dos vegetais, dos minerais,
Somos dois falcões predadores, planamos nas alturas e olhamos para baixo,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 126] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Somos dois sóis resplendentes, mantemos o equilíbrio planetário e estelar de nós mesmos, somos dois cometas,
Andamos a esmo com nossas garras, em nossas quatro patas, nas florestas, perseguimos as presas,
Somos duas nuvens de manhã e, à tarde, avançando sobre as cabeças,
Somos mares que se misturam, somos duas daquelas ondas vibrantes, rolando uma sobre a outra e nos molhando mutuamente,
Somos o que a atmosfera é, transparente, receptiva, antecipada, impermeável,
Somos neve, chuva, frio, escuridão, somos cada produto e influência do globo,
Viemos circulando e circulando até chegarmos em casa novamente, nós dois,
Anulamos tudo menos a liberdade, tudo menos a nossa própria alegria.


Ó hímen! Ó himeneu!

Ó hímen! Ó himeneu! Por que me tantalizas assim?
Ó por que me acicatas neste momento fugaz?
Por que não podes continuar? Por que cessas agora?
Será porque se continuasses além deste momento breve, certamente haverias de matar-me?


Sou aquele que sofre por amor

Sou aquele que sofre por amor;
A terra gravita? Não é fato que toda a matéria, sofrendo, atrai toda a matéria?
Assim se dá com o meu corpo em relação a tudo o que encontro ou conheço.


Momentos puros

Momentos puros — quando vens sobre mim — ó estás aqui agora,
Dá-me agora prazeres libidinosos tão-somente,
Dá-me a poção de minhas paixões, dá-me a vida áspera e viçosa,
Hoje eu me consorcio aos amores da Natureza, esta noite também,


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Estou com aqueles que acreditam em delícias licenciosas, compartilho das orgias dos jovens à meia-noite,
Danço com os dançarinos e bebo com os beberrões,
Os ecos fazemos soar com nossos gritos indecentes, escolho uma pessoa rasteira para ser o meu amigo mais querido,
Ele há de ser sem lei, rude, analfabeto, há de ser alguém condenado pelos outros por seus feitos,
Não mais estarei apartado, por que deveria eu me exilar de meus companheiros?
Ó tu, que evitas as pessoas, pelo menos eu não te evito,
Avanço para o centro de onde estás, serei teu poeta,
Serei mais para ti do que para qualquer outro.


Certa vez passei por uma cidade populosa

Certa vez passei por uma cidade populosa e registrei em meu cérebro, para utilização futura, os seus eventos, a sua arquitetura, os seus costumes, as suas tradições,
E ainda assim, agora, de tudo o que havia naquela cidade, lembro-me apenas de uma mulher, com quem casualmente me encontrei, que me deteve por me amar,
Dia após dia, noite após noite estivemos juntos — tudo o mais já esqueci há muito tempo,
Lembro-me, como já disse, apenas dessa mulher que se apegou a mim apaixonadamente,
E novamente vagamos, nos amamos, e nos separamos novamente,
Novamente ela me segura pela mão, não devo partir,
Vejo-a próxima, ao meu lado, com lábios silenciosos tristes e trêmulos.


Eu vos escutei, solenes e doces tubos do órgão

Eu vos escutei, solenes e doces tubos do órgão
Eu vos escutei, solenes e doces tubos do órgão, quando, na manhã de domingo passado, passei em frente à igreja,
Ventos do outono, quando andava pela floresta, no crepúsculo, ouvi os vossos suspiros alongados, lá em cima, tão lúgubres,
Ouvi o perfeito tenor italiano cantando na ópera, ouvi o soprano no meio do quarteto cantando;


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Coração do meu amor! A ti também ouvi murmurando baixinho,quando um dos pulsos se achava em torno de minha cabeça,
Ouvi o teu pulsar, quando eu ainda escutava, vindo de todas as coisas, o som de pequenos sinos na noite passada, embaixo de meus ouvidos.


De frente para o oeste, no litoral da Califórnia

De frente para o oeste, no litoral da Califórnia,
Inquirindo, incansavelmente, procurando o que ainda não pôde ser encontrado,
Eu, uma criança, muito velha, acima das ondas, caminhando na direção da casa da maternidade, a terra das migrações, com o olhar posto na distância,
Olho para além do litoral de meu mar ocidental, o círculo quase se fechando;
A começar na direção do oeste, desde o Industão, dos vales da Caxemira,
Da Ásia, do norte, de Deus, o sábio e o herói,
Do sul, das penínsulas floridas e das ilhas de especiarias,
Já tendo por longo tempo vagado, já tendo vagado em torno da Terra,
Agora eu vejo minha casa novamente, com muito prazer e alegria,
(Mas onde está aquilo que saí a procurar há tanto tempo?
E por que ainda não pôde ser encontrado?)


Como Adão ao amanhecer

Como Adão ao amanhecer,
Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.
Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,
Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,
Não tenhas medo do meu corpo.


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Cálamo


Por caminhos nunca antes trilhados

Por caminhos nunca antes trilhados,
Na vegetação que cresce pelas margens das lagoas,
Escapando da vida que a si mesma se exibe,
De todas as regras até agora promulgadas, dos prazeres, dos lucros,das conformidades
Que, por muito tempo, estive ofertando à minha alma,
Claros para mim agora, os padrões que ainda não foram conhecidos, clara para mim agora a minha alma,
Pois para a alma do homem eu falo, para que tenha alegrias entre os camaradas,
Aqui sozinho, longe do fragor do mundo,
Contando e conversando até aqui por línguas aromáticas,
Não mais envergonhado (pois nesse ermo lugar posso responder de um modo em que não ousaria em qualquer outro),
Forte sobre mim a vida que não se abre par em par e, contudo, contém em si tudo o mais,
Decido não cantar canção alguma no presente, exceto aquelas sobre os apegos humanos,
Projetando-as juntamente com a vida substancial,
Oferecendo, conseqüentemente, os tipos de amor atlético,
Nesta tarde do nono mês tem início o meu quadragésimo primeiro ano,
Apresento-me a todos aqueles que são ou já foram jovens,
Para contar os segredos de minhas noites e de meus dias,
Para celebrar as necessidades de meus camaradas.



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Folhagem perfumada de meu peito

Folhagem perfumada de meu peito,
Folhas tuas recolho e nelas escrevo melhor para que sejam lidas mais tarde,
Folhas do sepulcro, folhas corporais crescendo sobre mim, sobre a morte,
Raízes eternas, folhas altas, ó o inverno não há de congelar as tuas folhas delicadas,
Todos os anos hás de florir outra vez e do mesmo ponto em que te retiraste hás de emergir uma outra vez,
Ó não sei se muitos de passagem te encontrarão ou inalarão o teu tímido perfume, mas creio que ao menos alguns sim;
Ó folhas esbeltas! Ó botões de meu sangue! Permito-vos falar, do vosso próprio modo, sobre o coração que mora em vosso imo,
Não conheço o significado do que vai nas vossas profundezas, não sois a felicidade,
Sois sempre mais amargas do que posso suportar, queimando-me e acicatando-me,
E ainda assim sois maravilhosas para mim, vós, raízes tingidas e abatidas, assim me fazeis pensar na morte,
A morte é maravilhosa vinda de vós (o que, de fato, é inteiramente maravilhoso além da morte e do amor?)
Ó penso que não é a vida que estou aqui cantando em meu canto de amantes, penso que devo estar cantando a morte,
Pois quão calmas, quão solenes elas crescem, para subir até a atmosfera dos amantes,
Morte ou vida, eu sou indiferente, minha alma evita preferir,
(Não estou certo mas a alma elevada dos amantes acolhe a morte acima de tudo.)
De fato, ó morte, penso agora que estas folhas significam precisamente o mesmo que eu significo,
Crescei mais altas, doces folhas, de modo que eu vos possa contemplar! Crescei a partir de meu peito!
Arremessai-vos para longe do coração que ali se esconde!
Não vos guardeis assim nas vossas raízes tingidas de cor-de-rosa, folhas tímidas!
Não permanecei nessas profundezas tão envergonhadas, ervas do meu peito!
Vinde, estou determinado a desnudar este meu peito vasto, pois já



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por tempo suficiente tenho sufocado e engasgado.
Lâminas emblemáticas e caprichosas, eu vos abandono, pois agora para nada mais servir-me-eis,
Direi o que terei de dizer por si mesmo,
Auscultarei a mim mesmo e a meus camaradas somente, jamais exprimirei um brado novamente, exceto o deles,
Erguerei com ele reverberações imortais através dos Estados,
Darei um exemplo para os amantes que terá forma e vontade permanente, através dos Estados,
Através de mim, as palavras hão de ser ditas para fazer a morte hilariante,
Dá-me o teu tom, portanto, ó morte, para que a ele eu possa harmonizar-me,
Dá-me o que tu és, pois vejo que agora me pertences acima de tudo, e estão dobrados, inseparavelmente juntos, vós, amor e morte,
Nem mais permitirei que me estorves com aquilo que eu chamava de vida,
Pois agora sou comunicado de que és a substância essencial,
Que te escondes nestas formas mutáveis da vida, por boas razões, e que elas existem, mormente para ti,
Que tu para além delas avanças para ficar, a real realidade,
Que atrás da máscara da materialidade esperas pacientemente, não importa por quanto tempo,
Que tu irás um dia, talvez, tomar o controle de tudo,
Que irás, talvez, dissipar este inteiro show de aparências,
Que talvez sejas a razão de ser de tudo, ainda que não dures tanto,
E todavia durarás por muito tempo.


Quem quer que me estejas agora segurando nas mãos

Quem quer que me estejas agora segurando nas mãos,
Sem um certo algo tudo será inútil,
Dou-te um aviso justo, antes que me tentes mais,
Não sou o que supões, sou muito diferente disso.

Quem é aquele que se tornaria um seguidor meu?
Quem se candidataria aos meus afetos?


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O caminho é suspeito, o resultado é incerto, destrutivo talvez,
Terias de desistir de tudo o mais, eu, sozinho, esperaria ser o teu único e exclusivo modelo,
O teu noviciado ainda assim seria longo e exaustivo,
A inteira teoria de tua vida, e todas as relações estabelecidas com a vida ao teu redor, teriam de ser abandonadas,
Assim sendo, deixa-me partir agora antes que venhas a te preocupar mais, tira a tua mão de cima de meu ombro,
Abandona-me e segue o teu caminho.

Ou então por uma ação furtiva em algum bosque por experiência,
Ou atrás de uma pedra ao ar livre,
(Pois, nos cômodos cobertos de uma casa, não apareço só nem em companhia de alguém,
E, nas bibliotecas, jazo mudo, um palerma, ou não nascido, ou morto),
Mas possivelmente estarei contigo sobre uma alta montanha, garantindo primeiro que nenhuma pessoa em nossa volta, a
milhas de distância, se aproxime sem que saibamos,
Ou possivelmente contigo navegando no mar, ou nas praias do mar, ou em alguma ilha silenciosa,
Aqui permito que ponhas teus lábios sobre os meus,
Com o beijo do camarada de longa convivência ou o beijo do marido novo,
Pois sou o novo marido e sou o camarada.

Ou se preferires, pressionando-me debaixo de tuas roupas,
Onde poderei sentir as palpitações de teu coração, ou descansar sobre o teu quadril,
Carrega-me quando fores adiante, em terra ou no mar,
Pois assim, tocando-te apenas, é o suficiente, é o melhor,
E assim, tocando-te, eu dormiria em silêncio e seria levado para sempre.

Mas estas folhas, iludindo-te, colocam-te em perigo,
Pois não as compreenderás, nem a mim,
Elas hão de iludir-te de pronto e adiante mais ainda; certamente iludir-te-ei,
Mesmo quando julgares ter me apanhado, inquestionavelmente,contempla!
Já podes ver que escapei de ti.


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Pois não foi pelo seu conteúdo que escrevi este livro,
Nem será pela leitura que o assimilarás,
Nem me conhecem melhor aqueles que me admiram e gloriosamente me elogiam,
Nem os candidatos de meu amor (com exceção de um poucos)serão vitoriosos,
Nem meus poemas farão apenas o bem, pois farão igualmente o mal, ou até mais,
Pois tudo é inútil sem aquilo que podes imaginar muitas vezes sem alcançar aquilo a que me referi;
Assim sendo, liberta-me e segue o teu caminho.


Por ti, ó Democracia

Vem, farei o continente indissolúvel,
Criarei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol já brilhou um dia,
Farei terras magnéticas e divinas,
Com o amor dos camaradas,
Com o amor de longa vida dos camaradas.

Plantarei companheirismo espesso como árvores ao longo de todos os rios da América, e ao longo das praias dos grandes lagos, e por todas as pradarias,
Farei cidades inseparáveis, com seus braços em torno do pescoço umas das outras,
Pelo amor dos camaradas,
Pelo amor varonil dos camaradas.

Para ti, isto de mim, ó Democracia, para servir-te, ma femme!
Para ti, para ti, estou vibrando estas canções.


Estes poemas canto na primavera

Estes poemas canto na primavera, colhendo para os amantes,
(Pois quem, senão eu mesmo, deveria compreender os amantes e toda a sua dor e a sua alegria?
E quem, senão eu, deveria ser o poeta dos camaradas?)
Colhendo, atravesso o jardim do mundo, mas logo saio pelos portões,


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Agora, ao longo das margens do lago, agora fazendo um pouco de magia, sem sentir medo da água,
Agora pelas cercas da estrada de ferro do correio, onde as velhas pedras ali jogadas, colhidas nos campos, se acumularam,
(Flores silvestres e vinhas e a erva daninha sobem pelas pedras e as encobrem parcialmente, para além delas eu passo)
Longe, longe na floresta, ou vagueando mais tarde no verão, antes de pensar sobre onde vou,
Solitário, sentindo o cheiro da terra, parando aqui e ali em silêncio,
Sozinho eu ia refletindo: contudo, bem cedo uma tropa se reúne em minha volta,
Alguns andam ao meu lado e alguns vêm atrás de mim, e alguns se abraçam aos meus braços e ao pescoço,
Eles, os espíritos de amigos queridos, mortos ou vivos, mais espessos vêm, uma grande multidão, e eu estou no meio deles,
Colhendo, doando, cantando, vagueio por ali com eles,
Arrancando algumas coisas por penhor, jogando na direção de quem quer que esteja perto de mim,
Aqui, lilás, com um galho de pinheiro,
Aqui, tirado do meu bolso, algum musgo vivo que puxei de um carvalho na Flórida e que estava pendurado, se arrastando pelo chão,
Aqui, algumas folhas de cravo e de loureiro, e uma mão cheia de salvas,
E aqui o que eu agora tiro das águas, vagueando ao redor do lago,
(Ó eu vi aqui pela última vez aquele que suavemente me ama e volta novamente para nunca mais se separar de mim,
E esta, ó que ela seja doravante o sinal dos camaradas, esta raiz de cálamo,
Permutem-na entre si, jovens! E que ninguém a devolva!)
E ramos de bordo e galhos de laranja selvagem e castanha,
E talos de groselha e ameixeiras, e o cedro aromático,
Estes eu cerquei com uma espessa nuvem de espíritos,
Andando a esmo, apontando ou tocando quando passo, ou lançando- os frouxamente,
Indicando para cada um o que deve ter, dando algo a cada um;
Mas o que puxei das águas ao longo das margens do lago, aquilo que guardei,
Eu o distribuirei, mas apenas para aqueles que amam tal como sou capaz de amar.



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Não tendo de meu peito estriado apenas

Não tendo de meu peito estriado apenas,
Não em visões noturnas com raiva, insatisfeito comigo mesmo,
Não naquelas longamente puxadas, doentiamente suprimidas visões,
Não nos muitos juramentos e promessas quebrados,
Não em minha volição anímica selvagem e repleta de vontade,
Não na súbita nutrição do ar,
Não neste batimento e nesta trituração em minhas têmporas e pulsos,
Não nas curiosas sístole e diástole dentro das quais o dia cessa,
Não nos muitos desejos famintos contados para os céus somente,
Não em choros, risos, desafios, atirados de mim quando estou sozinho, nos bosques longínquos,
Não nas pinturas vigorosas, através de dentes engastados,
Não em palavras que soam e ressoam, palavras de tagarelice, ecos, palavras mortas,
Não nos murmúrios de meus sonhos enquanto durmo,
Nem os outros murmúrios destes sonhos incríveis do cotidiano,
Nem nos membros e sentidos de meu corpo que te tomam e te largam continuamente — não lá,
Nem em algum ou em todos eles, ó adesividade! Ó pulso de minha vida!
Preciso que existas e que te mostres mais do que nestas canções.


Da terrível dúvida das aparências

Da terrível dúvida das aparências,
Das incertezas, afinal, de que possamos estar iludidos,
De que talvez a segurança e a esperança sejam apenas especulações, afinal,
De que talvez a identidade além do túmulo seja apenas uma fábula bonita,
Talvez as coisas que percebo, os animais, as plantas, os homens, as montanhas, as águas brilhantes e fluentes,
Os céus do dia e da noite, as cores, as densidades, as formas, talvez esses sejam (apesar de não levantarem suspeitas sobre isso) apenas aparências, e aquilo que é real tenha ainda de ser conhecido,
(Com que freqüência eles são arremessados de si mesmos como que para confundir-me e debochar de mim!


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Com que freqüência penso que nem eu mesmo conheço, que homem algum conhece, nada disso.)
Talvez ao aparentar-me o que são (tal como de fato eles parecem ser), de meu ponto de vista atual que poderá ser provado (tal como obviamente eles seriam), nada do que parecem ser, ou nada de qualquer modo, de pontos de vista inteiramente alterados;
Para mim, eles e os que se assemelham a eles são curiosamente respondidos pelos meus amantes, meus amigos queridos,
Quando aquele a quem amo viaja comigo ou se senta por um longo período segurando as minhas mãos,
Quando o ar súbito, o impalpável, o sentido que escapa às palavras e à razão nos cercam e nos penetram,
Então sou encarregado com uma sabedoria não dita e indizível, fico silente, não preciso de mais nada,
Não posso responder à pergunta da aparência ou da identidade além do túmulo,
Mas ando ou sento com indiferença, estou satisfeito,
Aquele que me segura as mãos me satisfaz inteiramente.


O princípio de toda a metafísica

E agora, senhores,
Dou-vos uma palavra que deve permanecer em vossas memórias e em vossas consciências,
A título de princípio, mas também como conclusão, a respeito de toda a metafísica.

(Isso disse o maduro professor,
No encerramento de seu curso apinhado de alunos.)

Tendo estudado o moderno e o clássico, os sistemas grego e germânico,
Tendo estudado e dissertado sobre Kant, Fichte, Schelling e Hegel,
Tendo já apresentado o conhecimento de Platão — e o de Sócrates, que é ainda maior que o de Platão,
E, maior que o de Sócrates, tendo pesquisado e enunciado o conhecimento do Cristo, o divino, a quem estudei longamente,
Contemplo hoje as reminiscências dos sistemas grego e germânico,
Contemplo as filosofias todas — as igrejas cristãs e os dogmas contemplo,


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E ainda assim nas bases do pensamento de Sócrates vejo claramente — e nas bases dos ensinamentos do Cristo, o divino eu constato,
O terno amor entre o homem e seu semelhante — a afeição do amigo pelo amigo,
Dos bem casados marido e esposa — entre as crianças e seus pais,
De cidade a cidade e de nação a nação.


Registradores das idades conseqüentemente

Registradores das idades conseqüentemente
Vinde, eu vos conduzirei para a profundidade das coisas, abaixo dessa superfície impassível, e dir-vos-ei o que falar a meu respeito,
Publicai o meu nome e pendurai minha fotografia como se fora a do mais terno amante,
O amigo do retrato do amante, a quem o seu amigo e o seu amante era o mais afetuoso,
Aquele que não tinha orgulho de suas próprias canções, mas, sim, do ilimitado oceano do amor que há dentro dele e livremente derramado para adiante,
Aquele que freqüentemente fazia caminhadas solitárias pensando sobre seus amigos mais queridos, seus amantes,
Aquele que estando distante daquele a quem ama, pensativo, freqüentemente se deita insone e insatisfeito à noite,
Aquele que conhecia bem demais os doentes, doentes medonhos, a não ser que aquele a quem ama pudesse ser, em segredo, indiferente ao seu amor,
Aquele cujos dias mais alegres estiveram longe; através dos campos, nas florestas, nas montanhas, ele e outro vagando de mãos dadas, ambos apartados de outros homens,
Aquele que sempre errava pelas curvas das ruas com seus braços nos ombros de seus amigos, enquanto os braços de seus amigos descansavam sobre si também.


Ouvi no fim do dia

Ouvi no fim do dia sobre o modo como meu nome foi recebido no capitólio, e ainda assim não foi uma noite feliz para mim aquela que se seguiu,


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E mais, quando eu me diverti, ou quando meus planos foram realizados, ainda assim eu não me senti feliz,
Mas no dia em que me levantei da cama, na alvorada, com perfeita saúde, renovado, cantando, inalando o maduro sopro do outono,
Quando vi a lua cheia no Oeste crescer pálida e desaparecer na luz da manhã,
Quando vaguei sozinho pela praia e despido me banhei, rindo com as águas frescas, e avistando o nascer do sol,
E quando pensei sobre o fato de que meu amigo querido, meu amante, já estava viajando para me encontrar, ó então, senti-me feliz,
Ó então, cada sopro de minha respiração tinha um gosto mais doce, e durante todo aquele dia a minha comida foi mais nutritiva e o dia maravilhoso passou tão bem,
E o próximo veio com a mesma alegria, e na noite do próximo veio o meu amigo,
E naquela noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas rolarem vagarosamente, continuamente, sobre o litoral,
Ouvi o sibilo apressado do líquido nas areias, dirigindo-se para mim, sussurrando para me congratular,
Pois aquele a quem mais amo estava dormindo ao meu lado, embaixo da mesma coberta, na noite fresca,
No silêncio dos raios lunares outonais, sua face estava inclinada em minha direção,
E seus braços caíam levemente em torno de meu peito — e naquela noite eu estava feliz.


És tu mais uma pessoa atraída por mim?

És tu mais uma pessoa atraída por mim?
Para começar, estejas alerta, sou muito diferente do que supões;
Acaso supões que encontrarás em mim os teus ideais?
Pensas que é tão fácil ter-me como teu amante?
Pensas que a minha amizade seria pura satisfação,
Pensas que sou confiável e fiel?
Não vês além dessa fachada, desses modos brandos e tolerantes que demonstro?
Supões acaso que estejas avançando em solo real na direção de um homem realmente heróico?
Não pensaste, ó sonhador, que tudo isso seja somente maya, ilusão?



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Raízes e folhas abandonadas a si mesmas

Raízes e folhas abandonadas a si mesmas são estas,
Perfumes trazidos para homens e mulheres das florestas selvagens e dos lagos,
Peito cor de canela e cor de rosa de amor, dedos que envolvem com mais força do que as vinhas,
Erupções das gargantas dos pássaros escondidos na folhagem das árvores, quando o sol se levanta,
Brisas da terra e do amor saídas de litorais vivos para vós no oceano vivo, para vós, ó marinheiros!
Frutas vermelhas geladas e doces, e ramos do terceiro mês oferecidos aos jovens que vagueiam pelos campos quando é chegado o inverno,
Brotos de amor colocados diante de vós e dentro de vós, quem quer que sejais,
Brotos para serem desdobrados nos termos antigos,
Se trouxerdes para eles o calor do sol, eles abrir-se-ão e trarão consigo a forma, a cor, o perfume, para vós,
Se vos tornardes o alimento e a umidade, eles se tornarão flores, frutos, galhos altos e árvores.


Não as chamas que aquecem e consomem

Não as chamas que aquecem e consomem,
Não as ondas do mar que correm para dentro e para fora,
Não o ar delicioso e seco, o ar do verão maduro que sustenta suavemente as bolinhas descendentes, redondas e brancas de miríades de sementes,
Flutuando, navegando graciosamente, para cair onde quer que seja;
Não esses, ó nenhum desses é mais do que as chamas para mim, consumindo, queimando pelo amor daquele que amo,
Ó ninguém mais do que eu me apressando dentro e fora;
Será que a maré se apressa, à procura de algo, sem jamais desistir? Ó eu faço o mesmo,
Ó nem as bolinhas descendentes, nem os perfumes, nem as nuvens altas gerando a chuva, são sustentadas pela atmosfera,
Tal qual a minha alma é sustentada pela atmosfera,
Flutuando em todas as direções, ó amor, por amizade, por ti.



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Gotas caídas

Gotas caídas! Saindo de minhas veias azuis!
Ó gotas de mim! Vagarosas gotas caídas,
Cândidas, caídas de mim, pingos, gotas de sangue,
De ferimentos feitos para libertar-vos, de quando estáveis aprisionadas,
De minha face, de minha testa e de meus lábios,
De meus peitos, de dentro de onde eu estava escondido, pressionadas para sair, gotas vermelhas, gotas de confissão,
Manchai cada página, manchai cada canção que entôo, cada palavra que digo, gotas de sangue,
Deixai que o vosso calor escarlate seja delas conhecido, deixai que brilhem,
Saturai-as convosco até que fiquem envergonhadas e úmidas,
Resplandecei sobre tudo o que já escrevi ou escreverei ainda, gotas de sangue,
Deixai que tudo seja visto em sua própria luz, gotas enrubescidas.


Cidade de orgias

Cidade de orgias, passeios e alegrias,
Cidade daquele que, tendo vivido e cantando em teu seio, um dia far-te-á ilustre,
Não serão os teus concursos, nem os teus quadros, nem teus espetáculos que me recompensarão,
Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nos teus embarcadouros,
Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,
Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou em uma festa;
Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan, o teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,
Ofertando-me uma resposta — isso sim me recompensa,
Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.



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Contempla esta face morena

Contempla esta face morena, estes olhos cinzentos,
Esta barba, a branca lã solta sobre o meu pescoço,
Minhas mãos marrons e os meus modos silenciosos que carecem de charme;
E, contudo, uma mulher de Manhattan que vive em festas me beija levemente nos lábios com amor robusto,
E eu, no cruzamento da rua ou no convés do navio, dou-lhe um beijo em retorno.
Nós observamos aquela saudação dos camaradas americanos na Terra e no Mar,
Nós somos aquelas duas pessoas naturais e desinteressadas.


Vi, em Louisiana, um carvalho vivo crescendo

Vi, em Louisiana, um carvalho vivo crescendo,
Solitário se encontrava, com um musgo pendurado em seus galhos,
Sem qualquer companhia ele crescia ali e dele brotavam folhas alegres verdes escuras,
E sua aparência, rude, inquebrável, vigorosa, fez-me pensar em mim mesmo,
Mas eu me perguntava de que modo ele poderia fazer brotar folhas alegres, estando ali de pé, solitário, sem seu amigo por perto, pois eu sabia que não poderia fazer o mesmo,
E quebrei um ramo com um certo número de folhas e entrelacei em torno dele um pequeno musgo,
E trouxe-o comigo, e coloquei-o em um local visível no meu quarto,
Ele não é necessário para me lembrar de meus próprios amigos,
(Pois creio que ultimamente penso em muito pouca coisa além deles),
Mesmo assim ele permanece para mim como uma lembrança curiosa e me faz pensar sobre o amor viril;
Por essa razão, e embora o carvalho vivo brilhe lá na Louisiana, solitário, em um espaço amplo e plano,
Fazendo brotar folhas alegres por toda a sua vida, sem ter um amigo ou um amante por perto,
Eu bem sei que não poderia fazer o mesmo.



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A um desconhecido

Desconhecido que passa! Não sabes por quanto tempo eu tenho pensado em ti,
Deves ser aquele que eu andava procurando ou aquela que estava desejando encontrar, (vens para mim como num sonho),
Com certeza vivi uma vida de alegria contigo,
Tudo vem à tona em minha memória quando adejamos um sobre o outro, fluidos, afeiçoados, castos, maduros,
Tu cresceste comigo, foste um menino ou uma menina comigo,
Comi e dormi contigo, teu corpo deixou de ser somente teu e o meu também deixou de ser só meu,
Deste-me o prazer dos teus olhos, tua face, tua carne e, quando passamos, tu levaste os vestígios de minha barba, de meu peito, de minhas mãos, em troca,
Não quero falar-te, quero pensar em ti quando me sento sozinho ou desperto sozinho na noite,
Quero esperar, não duvido que te encontrarei novamente,
Farei tudo para não te perder.


Neste momento, enternecido e reflexivo

Neste momento, em que estou sentado e sozinho, enternecido e reflexivo,
A mim me parece que há homens em outras terras enternecidos e reflexivos,
Parece-me que posso procurá-los e contemplá-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,
Ou longe, muito longe, na China, na Rússia ou no Japão, falando em outros dialetos,
E me parece que se eu pudesse conhecer esses homens eu me apegaria a eles, tal como me apego aos homens de minha própria terra,
Ó eu sei que deveríamos ser irmãos e amantes,
Sei que deveria ser feliz com eles.



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Ouvi dizer que as acusações foram contra mim

Ouvi dizer que as acusações foram contra mim, de que eu tentei destruir as instituições,
Mas realmente não sou nem a favor nem contra as instituições,
(O que, de fato, tenho em comum com elas? Ou o que tenho com a destruição delas?)
Apenas me estabelecerei em Mannahatta, e em cada cidade destes Estados, no interior e no litoral,
E nos campos e nas florestas, e acima de cada quilha pequena ou grande que rasga as águas,
Sem edifícios ou regras ou fiadores ou qualquer discussão,
A instituição do querido amor dos camaradas.


A relva dos prados marcando a divisa

A relva dos prados marcando a divisa, sentindo seu perfume especial,
Convoco o seu correspondente espiritual,
Convoco a companhia mais rica e próxima dos homens,
Convoco as lâminas para que se ergam em palavras, atos, seres,
Convoco aqueles que vivem ao ar livre, ásperos, iluminados pelo sol, frescos, nutritivos,
Aqueles que caminham no seu próprio passo, eretos, pisando com liberdade e comando, liderando e não seguindo,
Aqueles que têm uma audácia nunca subjugada, aqueles com a carne doce e vigorosa, livre de corrupção,
Aqueles que olham sem medo no rosto de presidentes e governadores, como quem diz Quem é você?
Aqueles que têm uma paixão nascida na terra, simples, nunca constrangidos, nunca obedientes,
Aqueles das terras da América.


Quando examino a fama conquistada

Quando examino a fama conquistada pelos heróis e pelas vitórias dos generais poderosos, não invejo os generais,
Nem o Presidente em sua Presidência, nem o rico em sua casa grande,


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Mas quando tive notícias da união dos amantes, quando soube o que ocorre com eles,
De que modo eles, pela vida, através dos perigos e do rancor, não mudaram, por longo tempo,
Pela juventude, pela meia idade e pela idade avançada, quão resolutos, quão afetuosos e fiéis foram eles,
Então fico pensativo — saio apressadamente, cheio da mais amarga inveja.


Nós, dois meninos, juntos e atados um ao outro

Nós, dois meninos, juntos e atados um ao outro,
Um jamais deixando o outro,
Indo para lá e para cá pelas estradas, para o Norte e para o Sul excursionando,
Do poder desfrutando, alongando os cotovelos, apertando os dedos,
Armados e sem temor, comendo, bebendo, dormindo, amando,
Ninguém mais fora da lei do que nós a possuir, a navegar, a marchar, a roubar, a ameaçar,
Avaros, lacaios, sacerdotes tocando o alerta, respirando o ar, bebendo a água, na relva ou dançando na praia do mar,
Desarticulando cidades, desprezando tranqüilamente, zombando dos estatutos, perseguindo a debilidade,
Cumprindo a nossa fuga.


Uma promessa para a Califórnia

Uma promessa para a Califórnia,
Ou, no interior, para os grandes planaltos pastoris, e para adiante, para a enseada de Puget Sound e o Oregon;
Hospedando-se a leste um pouco mais, cedo eu viajo na vossa direção, para ficar, para ensinar o robusto amor americano.
Pois sei muito bem que eu e o amor robusto pertencemos a vós, no interior, e ao longo do mar do Oeste;
Pois estes Estados dirigem-se para o interior, na direção do mar ocidental, e eu também.



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Aqui as folhas mais delicadas de mim

Aqui as folhas mais delicadas de mim e, contudo, as que mais duram com viço,
Aqui eu lanço sombras sobre meus pensamentos, e os escondo, eu mesmo não os exponho,
E, todavia, eles me expõem mais do que todos os meus outros poemas.


Nenhuma máquina para economizar mão-de-obra

Nenhuma máquina para economizar mão-de-obra,
Nenhuma descoberta fiz,
Nem serei capaz de deixar, como legado, alguma herança milionária para fundar um hospital ou biblioteca,
Nem qualquer recordação de algum feito corajoso pela América,
Nem um sucesso literário ou intelectual, nenhum livro para as prateleiras,
Mas uns poucos cantos alegres, vibrando ao ar livre,
Pelos camaradas e amantes.


Uma visão de relance

Uma visão de relance, através de um interstício eu tive,
De uma multidão de operários e condutores reunidos em um bar, em torno de um fogão, em alta noite de inverno, enquanto, sem ser percebido, eu me sentava a um canto,
E um jovem que me ama e a quem amo, se aproximando em silêncio e sentando-se ao meu lado, poderia segurar-me pelas mãos,
Por um longo tempo, em meio aos burburinhos dos que vinham e voltavam, dos que bebiam e blasfemavam e faziam gestos obscenos,
Ali nós dois, satisfeitos, felizes por estarmos juntos, falando pouco, talvez nem mesmo uma palavra.



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Uma folha de mão em mão

Um folha de mão em mão;
Vós, pessoas naturais idosas e jovens!
Vós, no Mississippi e em todos os afluentes e baías do Mississippi!
Vós, barqueiros amistosos e mecânicos! Vós, trabalhadores braçais!
Vós, pares! E toda a procissão se movendo ao longo das ruas!
Gostaria de me impregnar no meio de vós, até que andar de mãos dadas se torne comum em vosso meio.


Terra, minha imagem

Terra, minha imagem,
Embora pareças tão impassível, ampla e esférica ali,
Agora suspeito que isso não é tudo;
Agora suspeito que há algo arrebatador em ti, algo que poderá explodir,
Pois um atleta está apaixonado por mim e eu estou apaixonado por ele,
Mas por ele há algo em mim arrebatador e terrível, algo que poderá explodir,
Não ouso contar isso em palavras, nem mesmo nestas canções.


Sonhei em um sonho

Sonhei em um sonho que avistava uma cidade invencível aos ataques da terra inteira,
Sonhei que aquela era a nova cidade de Amigos,
Nada ali era maior do que a qualidade do robusto amor, tudo o mais era uma conseqüência,
Podia-se notar essa qualidade, em cada hora de ação dos homens daquela cidade,
E em todos os seus olhares e palavras.



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Para que achas que tenho esta pena nas mãos?

Para que achas que tenho esta pena nas mãos, o que tenho a intenção de registrar?
O navio de batalha, modelo perfeito, majestoso, que vi hoje passar ao largo, a toda vela?
Os esplendores do dia que se foi? Ou o esplendor da noite que me envolve?
As glórias alegadas e o crescimento da grande cidade esparramada em minha volta? — não;
Mas apenas os dois homens simples que vi hoje no cais, no meio da multidão, despedindo-se com a despedida dos amigos que são queridos,
Um que se mantinha abraçado ao pescoço do outro, beijando-o com paixão,
Enquanto aquele que partia apertava aquele que ficava em seus braços.


Para o leste e para o oeste

Para o leste e para o oeste,
Para o homem do Estado litorâneo e da Pensilvânia,
Para o canadense do norte, para o sulista que amo,
Esses a quem dedico perfeita confiança para retratar-te como a mim mesmo, as sementes estão em todos os homens,
Acredito que o mais importante sentido destes Estados é o de ter encontrado uma amizade soberba, elevada, nunca antes conhecida,
Pois eu percebo que ela espera, e tem estado a esperar, latente, em todos os homens.


Algumas vez, estando com aquele a quem amo

Algumas vez, estando com aquele a quem amo, sinto-me furioso pelo medo de exalar um amor não recompensado,
Mas agora penso que não existe amor sem recompensa, o pagamento é garantido de um jeito ou de outro,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 148] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



(Eu amava uma pessoa ardentemente e meu amor não era recompensado,
Contudo, foi com base nessa circunstância que escrevi estas canções.)


Para um jovem do oeste

Muitas lições ensino-te para que te tornes o meu escolhido;
Contudo, sangue igual ao meu não corre em tuas veias,
Se não fores silenciosamente selecionado por amantes e não selecionar amantes silenciosamente,
De que servirá o fato de quereres tornar-te o meu eleito?


Âncora encalhada para sempre, ó amor!

Âncora encalhada para sempre, ó amor! Ó mulher que amo!
Ó noiva! Ó esposa! Mais indefesa do que posso assegurar, a imagem que tenho de ti!
Então, separa-te, tal como uma desencarnada ou como outra que nascesse,
Etérea, a última realidade atlética, minha consolação,
Subo, flutuo nas regiões de teu amor, ó homem,
Ó aquele que compartilha de minha vida ambulante.


Em meio à multidão

Entre homens e mulheres na multidão,
Percebo alguém que me escolhe por sinais secretos e divinos,
Sem tomar conhecimento de qualquer outra pessoa, nem parente, nem esposa, nem marido, nem irmão, nem criança, ninguém mais próximo do que eu mesmo,
Alguns se confundem, mas não aquele — aquele de fato me conhece.

Ah! de igual modo amante e perfeito,
Eu quis dizer que deverias me encontrar assim, por débeis despistes,
E eu, quando te encontrar, pretendo descobrir-te pelo que há de semelhante em ti.



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Ó tu, para quem com freqüência e em silêncio eu acorro

Ó tu, para quem com freqüência e em silêncio eu acorro no lugar em que estás para que eu possa estar contigo,
Quando ando ao teu lado, ou me sento próximo de ti, ou permaneço no mesmo quarto contigo,
Pouco sabes sobre o sutil fogo elétrico que, em teu nome, está queimando dentro de mim.


Aquela sombra minha imagem

Aquela sombra minha imagem que vai para frente e para trás, procurando um meio de vida, tagarelando, gracejando,
Com que freqüência me encontro de pé, observando-a no lugar em que ela adeja,
Com que freqüência questiono e duvido se ela é realmente a minha imagem;
Mas quando estou entre os meus amantes, cantando alegremente estas canções,
Ó nunca duvido que ela seja realmente aquilo que sou.


Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, sólido, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três anos de Estados Unidos,
A alguém, um século adiante ou muitos séculos adiante,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres estes versos, eu, que era visível, invisível me terei tornado,
Agora és tu, sólido, visível, lendo meus poemas, procurando-me,
Imagino a tua felicidade se eu pudesse estar contigo e fosse teu camarada,
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não estejas tão certo de que não estou neste momento junto a ti.)



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Salut au monde!

1

Ó pegue minhas mãos, Walt Whitman!
Que maravilhas neste vôo livre! Tais visões e sons!
Tais ligações infinitas e unidas, cada qual ligado ao próximo,
Cada um respondendo a tudo, cada um compartilhando a Terra com todos os demais.

O que se amplia dentro de ti, Walt Whitman?
Que ondas e solos gotejando?
Que plagas? Que pessoas e cidades estão aqui?
Quem são as crianças, algumas brincando, algumas dormindo?
Quem são as meninas? Quem são as mulheres casadas?
Quem são os grupos de homens andando vagarosamente com seus braços em torno dos pescoços uns dos outros?
Que rios são esses? Que florestas e frutos são esses?
Que nomes têm essas montanhas que se erguem tão altas em meio às brumas?
Que miríades de habitações há nelas, repletas com seus moradores?


2

Dentro de mim a latitude se alarga, a longitude se alonga,
Ásia, África, Europa, estão para leste — América está provida no oeste,
E atando a saliência dos ventos da terra, o quente equador,
Curiosamente para o norte e para o sul viram-se as pontas dos eixos,
Dentro de mim está o dia mais longo, o sol gira em anéis oblíquos, e não se põe durante meses a fio,
Esticado na hora certa dentro de mim, o sol da meia-noite se ergue bem acima da linha do horizonte e aparece novamente,
Dentro de mim zonas, mares, cataratas, florestas, vulcões, grupos,
Malásia, Polinésia e as grandes ilhas das Índias Ocidentais.


3

O que ouves, Walt Whitman?

Ouço o trabalhador cantando e a esposa do fazendeiro cantando,
Ouço na distância os sons das crianças e dos animais, de manhã cedo,
Ouço gritos rivais dos australianos perseguindo o cavalo selvagem,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 151] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Ouço a dança espanhola com as castanholas na sombra da castanheira, no ritmo da rabeca e do violão,
Ouço os ecos incessantes do Tâmisa,
Ouço ardentes canções francesas pela liberdade,
Ouço do remador italiano a recitação musical de antigos poemas,
Ouço os gafanhotos na Síria quando atacam os grãos e as folhas no avanço de suas nuvens terríveis,
Ouço o copta jejuar até o crepúsculo, meditativo, caindo no seio de negra, venerável e vasta mãe que é o Nilo,
Ouço a voz alegre da condutora de mulas mexicana e o som dos sinos da mula,
Ouço o almuadem árabe chamando do telhado da mesquita,
Ouço os padres cristãos nos altares de suas igrejas e, em resposta, ouço a voz do baixo e do soprano,
Ouço o grito do cossaco e a voz dos marinheiros indo para o mar em Okotsk,
Ouço a respiração ofegante que vem do comboio de escravos, quando os escravos marcham em frente, quando os grupos de robustos bandidos passam em grupos de dois e três, atados uns aos outros, com correntes nos pulsos e correntes nos tornozelos,
Ouço os judeus fazendo a leitura de seus relatos e salmos,
Ouço os mitos rítmicos dos gregos e as poderosas lendas dos romanos,
Ouço a história da vida divina e da morte sangrenta do Cristo, Deus maravilhoso,
Ouço os ensinamentos do hindu ao seu discípulo dileto, os amores, as guerras, os adágios, transmitindo com segurança, nos seus dias, tudo aquilo que poetas escreveram há três milênios.


4

O que vês, Walt Whitman?
Quem são esses a quem saúdas, quem são eles que — um após o outro — te saúdam também?

Eu vejo um grande e circular espanto rolando pelo espaço,
Vejo pequenas fazendas, fronteiras, ruínas, cemitérios, prisões, fábricas, palácios, choupanas, ocas de bárbaros, tendas de nômades, sobre a superfície,
Vejo a parte sombria no lado em que os adormecidos dormem e a parte ensolarada do outro lado,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 152] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vejo a curiosa e rápida mudança entre luz e sombra,
Vejo terras distantes, tão reais e próximas de seus habitantes quanto as minhas terras são para mim.

Vejo águas em abundância,
Vejo picos de montanhas, vejo as serras dos Andes onde elas se enfileiram,
Vejo claramente o Himalaia, Chian Shahs, Altays, Ghauts,
Vejo os pináculos gigantes do Elbruz, Kazbek, Bazardjusi,
Vejo os Alpes Estirenos e os Alpes de Karnac,
Vejo os Pireneus, os Bálcãs, os Cárpatos e para o norte os Dofrafields, e em pleno mar o monte Hecla,
Vejo o Vesúvio e o Etna, as montanhas da Lua e as Montanhas Vermelhas de Madagascar,
Vejo os desertos da Líbia, da Arábia e o Asiático,
Vejo imensos e terríveis icebergs árticos e antárticos,
Vejo os oceanos superiores e os inferiores, o Atlântico e o Pacífico, o mar do México, o mar brasileiro e o mar do Peru,
As águas do Industão, o mar da China e o golfo da Guiné,
As águas do Japão, a bela baía de Nagasaki, de terras presas entre as montanhas,
A extensão do litoral Báltico, do Cáspio, da Bothnia, da Bretanha e a baía de Biscay,
O Mediterrâneo banhado pela claridade do sol, de ilha em ilha,
O mar branco e o mar em torno da Groenlândia.

Contemplo os marinheiros do mundo,
Alguns estão em meio a tempestades, alguns estão em meio à noite fazendo a ronda, vigilantes,
Alguns naufragando indefesos, alguns com doenças contagiosas.

Contemplo os veleiros e os navios a vapor do mundo, alguns agrupados nos portos, alguns fazendo suas viagens,
Alguns contornam o Cabo das Tormentas, alguns o Cabo Verde, outros os cabos Guardafui, Bon ou Bojador,
Outras a cabeceira Dondra, outros passam pelo estreito de Sunda, outros pelo Cabo Lopatka, outros o estreito de Behring,
Outros o Cabo Horn, outros navegam pelo Golfo do México, ou ao longo de Cuba ou do Haiti, outros a baía do Hudson ou a baía do Baffin,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 153] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Outros passam pelo estreito de Dover, outros entram pelo Wash, outros no estuário de Solway, outros circundam o Cabo Clear, outros o Land's End,
Outros atravessam o Zuyder Zee ou o Scheld,
Outros vêm e vão pelo Gibraltar ou pelo Dardanelo,
Outros avançam asperamente através das trilhas do inverno nórdico,
Outros descem ou sobem o Obi ou o Lena,
Outros o Níger ou o Congo, outros o Indo, o Burampooter e Camboja,
Outros aguardam, com seus barcos a vapor, prontos para zarpar dos portos da Austrália,
Aguardam em Liverpool, Glasglow, Dublin, Marselha, Lisboa, Nápoles, Hamburgo, Bremen, Bordeaux, Haia, Copenhague,
Aguardam em Valparaíso, Rio de Janeiro, Panamá.


5

Vejo as trilhas das estradas de ferro da Terra,
Vejo-as na Grã-Bretanha, vejo-as na Europa,
Vejo-as na Ásia e na África.

Vejo os telégrafos elétricos da Terra,
Vejo os fios que trazem as notícias de guerra, as mortes, as perdas, os ganhos, as paixões, de minha raça.

Vejo as faixas longas dos rios da Terra,
Vejo o Amazonas e o Paraguai,
Vejo os quatro grandes rios da China, o Amour, o Rio Amarelo, o Yiang-Tse e o Pérola,
Vejo por onde o Sena flui, e por onde o Danúbio, o Loire, o Ródano e o Guadalquiver fluem,
Vejo as dobras do Volga, o Dnieper, o Oder,
Vejo o Toscano descendo pelo Arno, e o Veneziano ao longo do Pó,
Vejo o marinheiro grego descendo a baía de Egina.


6

Vejo o local em que se erguia o antigo Império Assírio, e o Persa, e o da Índia,
Vejo a queda do ganges sobre a borda alta do Saukara.
Vejo o lugar em que floresceu a idéia da Divindade encarnada por avatares em forma humana,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 154] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vejo os lugares em que se sucederam os sacerdotes da Terra, oráculos, sacrifícios, brâmanes, sábios, lamas, monges, muftis, exortadores,
Vejo por onde os druidas caminhavam nos bosques de Mona, vejo o visco e a verbena,
Vejo os templos das mortes dos corpos dos deuses, vejo os antigos signatários.

Vejo o Cristo comendo o pão em sua última ceia, entre os jovens e os idosos,
Vejo onde o moço forte e divino, o Hércules, labuta fiel e longamente antes de morrer,
Vejo o lugar da vida inocente e rica e o destino desafortunado do maravilhoso filho noturno, o Baco repleto de membros,
Vejo Kneph, florescendo, vestido de azul, com a coroa de plumas em sua cabeça,
Vejo Hermes, insuspeito, morrendo, bem amado, dizendo ao povo Não chorem por mim,
Esta não é a minha verdadeira pátria, vivi exilado de minha pátria verdadeira, agora retorno para lá,
Retorno para a esfera celestial para onde todos irão quando chegar a sua vez.


7

Vejo os campos de batalha da Terra, a relva cresce sobre eles, abrem-se botões, crescem os cereais,
Vejo os rastros das expedições modernas e antigas.
Vejo construções inomináveis, mensagens veneráveis de eventos desconhecidos, heróis, registros da Terra.

Vejo o lugar das sagas,
Vejo pinheiros e abetos destruídos por tempestades do norte,
Vejo graníticos penedos e precipícios, vejo prados verdes e lagos,
Vejo memoriais erigidos para guerreiros escandinavos,
Vejo-os erguidos na altura, com pedras trazidas das margens de oceanos incansáveis, para que os espíritos dos mortos, quando se sentirem cansados do silêncio de seus túmulos, possam se levantar e atravessar os mundos, observando com atenção através da vagas lançadas, sentindo-se renovados pelas tempestades, imensidões, liberdade, ação.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 155] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vejo as estepes da Ásia,
Vejo os túmulos da Mongólia, vejo as tendas de kalmucks e baskirs,
Vejo as tribos nômades com manadas de bois e vacas,
Vejo os planaltos entalhados por ravinas, vejo as florestas e os desertos,
Vejo o camelo, o corcel selvagem, a betarda, a ovelha de rabo gordo, o antílope e a raposa cavando sua toca.

Vejo as terras altas de Abissínia,
Vejo os rebanhos de cabras se alimentando e vejo as figueiras, os tamarindos, as tâmaras,
E vejo os campos de trigo e os espaços de verdura e de ouro.

Vejo o vaqueiro brasileiro,
Vejo o boliviano subindo o monte Sorata,
Vejo o wacho cruzando as planícies, vejo o seu galope incomparável sobre o cavalo levando o laço nos braços,
Vejo por sobre os pampas a perseguição ao gado selvagem em seus esconderijos.


8

Vejo pequenas e grandes manchas no mar, algumas habitadas, outras desabitadas;
Vejo dois navios com suas redes, flutuando no mar, à beira do litoral de Paumanok, imóveis;
Vejo dez pescadores esperando — eles descobrem agora um denso cardume de savelhas — eles atiram as pontas da rede de arrastão dentro da água,
Os barcos se separam — cada qual rema para uma direção distinta, cada um fazendo um círculo no sentido da praia, cercando as savelhas;
A rede é conduzida para a praia por um guindaste por aqueles que ficam em terra,
Alguns dos pescadores descansam nos seus barcos — outros estão com os seus pés negligentemente imersos na água, na altura dos tornozelos, equilibrados sobre pernas fortes;
Os barcos estão parcialmente acima da água — a água bate contra eles;
Sobre a areia, em pilhas enfileiradas, retiradas da água, jazem as savelhas com manchas verdes no dorso.




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9

Vejo o desesperançado homem de pele vermelha no Oeste, remanescente nas margens de Moingo, próximos do Lago Pepin;
Ele ouviu a codorniz e contemplou a abelha fazedora de mel, e com tristeza prepara-se para partir.

Vejo as regiões de neve e gelo,
Vejo o homem de olhos puxados de Samoa e o Finlandês,
Vejo o caçador de focas em seu barco equilibrando a sua lança,
Vejo o siberiano no seu leve trenó puxado por cachorros,
Vejo os caçadores de toninha, vejo as tripulações baleeiras do Pacífico Sul e do Atlântico Norte,
Vejo os penhascos, as geleiras, as corredeiras, os vales da Suíça — reparo nos invernos longos e no isolamento.

Vejo as cidades da terra e me lanço ao acaso para me tornar parte delas,
Sou um verdadeiro parisiense,
Sou um habitante de Viena, São Petersburgo, Berlim, Constantinopla,
Sou de Adelaide, Sidney, Melbourne,
Sou de Londres, Manchester, Bristol, Edinburgh, Lemerick,
Sou de Madri, Cadiz, Barcelona, Porto, Lyon, Bruxelas, Berna, Frankfurt, Stuttgart, Turim, Florença,
Pertenço a Moscou, Cracóvia, Varsóvia, e para o norte em Christiana ou Estocolmo ou na siberiana Irkutsk ou em alguma rua da Islândia,
Desço sobre todas essas cidades e, a partir delas, ergo-me novamente.


10

Vejo vapores exalando de países inexplorados,
Vejo tipos selvagens, o arco e flecha, a seta venenosa, o amuleto e o cinturão.

Vejo as vilas africanas e asiáticas,
Vejo Algel, Trípoli, Derne, Mogadore, Timbuctoo, Monróvia,
Vejo os enxames de Pequim, Cantão, Benares, Delhi, Calcutá, Tóquio,
Vejo o kruman em sua cabana, e o daomeano e o achanti em suas cabanas,
Vejo o turco fumando ópio em Aleppo,
Vejo as multidões pitorescas nas feiras de Khiva e aquelas no Herat,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 157] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vejo Teerã, vejo Muscat e Medina e o deserto que as separa, vejo as caravanas sofrendo para ir em frente,
Vejo o Egito e os egípcios, vejo as pirâmides e os obeliscos,
Vejo as histórias entalhadas, registradas pelos reis conquistadores, pelas dinastias, cortadas em lajes de pedra de moer ou em blocos de granito,
Vejo em Memphis as tumbas de múmias contendo múmias embalsamadas, embrulhadas em linho, deitadas ali por muitos séculos,
Vejo o tebano caído, os olhos grandes e redondos, o pescoço pendendo para o lado, as mãos cruzadas sobre o peito.

Vejo todos os lacaios da Terra, trabalhando,
Vejo todos os prisioneiros nas prisões,
Vejo todos os corpos humanos defeituosos,
Os cegos, os surdos, os mudos, os idiotas, os corcundas, os lunáticos,
Os piratas, os ladrões, os traidores, os assassinos, os escravocratas da Terra,
As crianças indefesas, os homens e mulheres indefesos.

Vejo os homens e as mulheres por toda a parte,
Vejo as serenas fraternidades de filósofos,
Vejo a engenhosidade de minha raça,
Vejo os resultados da perseverança e da indústria de minha raça,
Vejo classes sociais, cores, barbáries, civilizações, caminho entre elas, misturo-me a elas, indiscriminadamente,
E saúdo todos os habitantes da Terra.


11

Tu, sejas quem for!
Tu, filha ou filho da Inglaterra!
Tu, da poderosa tribo eslava e do Império eslavo! Tu, russo na Rússia!
Tu, descendente opaco, negro, alma divina africana, de cabeça bela e grande, formada nobremente, com destino soberbo, nos mesmos termos que eu!
Tu, norueguês, sueco, dinamarquês, islandês! Tu, prussiano!
Tu, espanhol da Espanha! Tu, português!
Vós, franceses da França!
Tu, belga! Tu, amante da liberdade da Holanda! (tu, reserva de onde eu mesmo descendo.)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 158] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Tu, resoluto austríaco! Tu, lombardo! Huno! Boêmio! Fazendeiro da Síria!
Tu, vizinho do Danúbio!
Tu, operário do Reno, do Elba ou do Weser! Tu, operária também!
Tu, da Sardenha! Tu, da Bavária! Suábio! Saxão! Romeno! Búlgaro!
Tu, romano! Napolitano! Tu, grego!
Tu, pequeno matador na arena de Sevilha!
Tu, montanhês residindo sem lei no Taurus ou no Cáucaso!
Tu, bokh de rebanhos eqüinos assistindo a tuas éguas e teus garanhões pastando!
Tu, persa de corpo modelar cavalgando em velocidade máxima em tua sela, acertando flechas no alvo!
Tu, chinês, e tu, chinesa da China! Tu, tártaro da Tartária!
Tu, mulher da terra, subordinada aos teus trabalhos!
Tu, judeu peregrinando em tua idade avançada em meio a tantos riscos para erguer-se uma vez em solo Sírio!
Tu, outro judeu, esperando em todas as terras por teu Messias!
Tu, amável armênio, meditando nas margens de algum riacho do Eufrates! Tu, perscrutando em meio às ruínas de Nínive!
Tu, subindo no monte Ararat!
Tu, peregrino de pés feridos bendizendo o brilho longínquo dos minaretes de Meca!
Vós, xeques caminhando pelo trecho que vai de Suez a Bab-el-mandeb soberanos sobre vossas famílias e tribos!
Tu, cultivador de oliveiras guardando teus frutos nos campos de Nazaré, Damasco ou Lago Tiberíade!
Tu, comerciante tibetano na vastidão do interior ou pechinchando nas lojas de Lassa!
Tu, homem japonês, ou tu, mulher japonesa! Tu, que vives em Madagascar, Ceilão, Sumatra, Bornéu!
Todos vós, dos continentes da Ásia, África, Europa, Austrália, indiferentemente de lugar!
Todos vós, nas incontáveis ilhas dos arquipélagos que há no mar!
E vós, dos séculos vindouros quando me ouvirdes!
E vós, de cada um dos locais que não especifiquei, mas a quem incluo igualmente!
Saúde para vós! Boa vontade para vós todos, enviados por mim e pela América!

Cada um de nós inevitável,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 159] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Cada um de nós sem limites — cada um com o seu direito sobre a Terra,
Cada um de nós recebendo os conteúdos eternos da Terra,
Cada um de nós aqui tão divino quanto qualquer um.


12

Tu, hotentote com estalo no céu da boca! Vós, hordas com cabeleiras laníferas!
Vós, escravizados gotejando, gotas doces ou gotas de sangue!
Vós, formas humanas com insondável e sempre impressionante expressão de brutalidade!
Vós, pobre koboo para quem os piores entre os demais olham com desdém, por toda a vossa linguagem luminescente e vossa espiritualidade!
Tu, anão de Kamtschatkan, Groenlândia, Lapônia!
Tu, negro austral, nu, vermelho, fuliginoso, com lábio saliente, rastejante, procurando comida!
Tu, cafre, berber, sudanês!
Tu, desfigurado, inculto, deseducado beduíno!
Vós, vítimas aglomeradas de uma epidemia em Madras, Nanquim, Cabul, Cairo!
Tu, nômade ignorante da Amazônia! Tu, patagônio! Tu, fijiano!
Também não prefiro outros a ti,
Não digo uma única palavra contra ti, aí no fundo onde te encontras
(Tu hás de vir para frente, quando a hora chegar, para estar ao meu lado.)


13

Meu espírito compassivo e determinado circundou a Terra inteira,
Procurei os meus iguais e os meus amantes e os encontrei prontos para mim em todas as terras,
Creio que uma conexão divina me fez entrar em sintonia com eles.

Vós, barcos a vapor, creio que me ergui convosco, e viajamos por continentes longínquos, e neles caímos; por alguma razão, creio que fui convosco carregado, ó ventos;
E vós, águas, toquei os meus dedos em cada praia convosco,
Corri através dos mesmos leitos pelos quais já correram todos os rios ou canais do globo,
Firmei minha posição nas bases das penínsulas e no alto dos rochedos para bradar de lá:



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 160] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Salut au monde!
Cidades nas quais penetram a luz ou o calor, eu mesmo as penetro,
Todas as ilhas para as quais os pássaros voam em seu roteiro, eu mesmo vôo em meu roteiro para elas.

Na direção de todos vós, em nome da América,
Eu ergo nas alturas a mão perpendicular, faço o sinal,
Para que permaneça visível após mim, para sempre,
Para todos os abrigos e lares da humanidade.



Canção da estrada aberta

1

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo adiante de mim,
A longa senda marrom em minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,
A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,
Estou farto de reclamações entre quatro paredes, bibliotecas, críticas conflituosas,
Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

A Terra, ela é suficiente para mim,
Não desejo as constelações mais próximas,
Sei que estão muito bem no lugar em que estão,
Sei que são suficientes para aqueles que vivem por lá.

(Ainda assim, por aqui eu carrego meus velhos fardos deliciosos,
Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,
Juro que é impossível deles me livrar,
Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.)


2

Tu, estrada em que adentro, olhando ao meu redor, acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 161] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,
O negro com sua cabeça lanífera, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,
O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo, a tontura do bêbado, a festa alegre de mecânicos,
O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugidio,
O homem que madruga na feira, o carro fúnebre, a entrada da mobília na vila, o regresso da cidade,
Eles passam, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,
Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido para mim.


3

Tu, ar que me serves com este ar com o qual eu falo!
Vós, objetos que tirais os meus conceitos do abstrato e dais forma a eles!
Tu, luz que me agasalhas e agasalhas todas as coisas em chuveiros delicados e invariáveis!
Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!
Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis, tão queridas para mim.

Vós, calçadas sinalizadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas,
Vós, balsas! Vós, pranchas e postes dos embarcadouros! Vós, laterais de tábuas listradas! Vós, navios distantes!
Vós, casas em linha! Vós, fachadas de janelas perfuradas! Vós, telhados!
Vós, varandas e entradas! Vós, espigões de muralha e guaritas de aço!
Vós, janelas cuja transparência poderia tanto expor!
Vós, portas e degraus de subida! Vós, arcos!
Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!
Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós, e agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,
De vivos e de mortos vós haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície, e os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.




- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 162] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



4

A Terra expandindo-se para a direita e para a esquerda,
O retrato vivo, cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,
A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar nos locais em que não a desejam,
A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco das estradas.

Ó estrada principal, por ti viajo, pedes-me Não me deixes?
Dizes-me Não te aventures — se me deixares estarás perdido?
Dizes Eu já estou madura, estou bem curtida e não fui negada,portanto junta-te a mim?

Ó estrada pública, respondo-te que não tenho medo de deixar-te, e contudo te amo,
Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,
Hás de ser mais para mim que meus poemas.

Creio que todas as ações heróicas foram concebidas ao ar livre e também todos os poemas livres.
Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,
Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada, e todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,
Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.


5

Desde agora ordeno que meu eu esteja livre de limites e linhas imaginárias,
Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,
Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,
Paro, procuro, recebo, contemplo,
Gentilmente, mas com uma vontade inegável, dispo-me das amarras que me limitariam.

Inalo grandes correntes de ar espaciais,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior e melhor do que eu pensava,
Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 163] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Tudo me parece maravilhoso,
Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim e eu faria o mesmo por vós,
Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,
Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,
Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,
E se alguém me negar, isso não me incomodará,
Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.


6

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,
Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

Agora vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas,
É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

Aqui um feito pessoal tem espaço
(Tal realização se apodera dos corações de toda a raça humana,
Sua efusão de força e vontade subjuga a lei e debocha de toda autoridade e de todo argumento que se lance contra ela.)

Aqui está o teste da sabedoria,
O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,
A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para alguém que não a possui,
A sabedoria pertence à alma, não é susceptível de provas, ela é a prova de si mesma,
Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,
É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e a excelência das coisas;
Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas, de tal modo a provocar que venha para fora da alma.

Agora eu reexamino as filosofias e as religiões,
Elas podem ser eficazes nos salões de conferência e, contudo, não



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 164] - - - - - - - - - - - - - - - - -



funcionar em absoluto abaixo da vastidão das nuvens e ao longo das paisagens e das correntes que fluem.

Aqui está a concepção,
Aqui está um homem contado — ele concebe aqui o que está nele,
O passado, o futuro, a majestade, o amor — se eles estão vazios de ti, estás vazio deles.

Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;
Onde está ele, que remove as cascas por ti e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é oportuna.
Sabes o que significa ser amado por estranhos?
Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?


7

Aqui está a emanação da alma,
A emanação da alma vem de dentro, por meio de portões sombreados, que sempre provocam polêmica,
Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?
Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos de mim fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?
Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?
Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo, fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?
(Creio que eles estão postos ali no inverno e no verão e sempre fazem com que os frutos caiam quando passo.)
O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?
O que se dá com um condutor quando me sento ao seu lado?
O que se dá com um pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?
O que me permite estar livre para a boa vontade de uma mulher ou de um homem? O que dá a eles a sensação de liberdade?


8

A emanação da alma é a felicidade, aqui está a felicidade,
Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 165] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Agora ela flui para nós, estamos dela carregados certamente.

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós,
O fluido e o caráter que se prende a nós dão o frescor e a doçura do homem e da mulher
(As ervas da manhã não germinam mais frescas e doces todos os dias, a partir de suas raízes, do que eles germinam frescos e doces continuamente de si mesmos.)

Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós, aparece o suor do amor dos jovens e dos idosos,
Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,
Na direção deles as náuseas fazem estremecer com saudades do contato.


9

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!
Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

A terra jamais se cansa,
A terra é rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista, a natureza é rude e incompreensível à primeira vista,
Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,
Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem jamais descrever.

Allons! Não devemos parar aqui,
Por mais doces que sejam os bem armazenados, por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer por aqui,
Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas não devemos ancorar aqui,
Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca, não se nos permite recebê-la além de alguns momentos.


10

Allons! As seduções hão de ser maiores,
Navegaremos sem rumo por mares bravios,
Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam e o veloz cavalo ianque pode correr a toda vela.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 166] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade;
Allons! De todas as fórmulas!
De vossas fórmulas, ó padres materialistas com olhos de morcego.

O cadáver bolorento bloqueia a passagem — o enterro não pode mais esperar.

Allons! Contudo esteja alerta!
Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões,resistência,
Ninguém pode vir ao tribunal até que tenha plena coragem e saúde,
Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,
Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados.
Ninguém que esteja doente, nenhum bebedor de rum ou portador de doença venérea pode entrar aqui.

(Eu e o meu não convencemos por argumentos, sorrisos, rimas,
Convencemos pela nossa presença.)


11

Ouve! Serei honesto contigo,
Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos,
Estes são os dias que devem ocorrer para ti:
Não deverás acumular aquilo que é chamado de riqueza,
Terás de distribuir com mãos pródigas tudo o que ganhar ou alcançar,
Quando acabares de chegar à cidade para a qual estavas destinado, e tiveres mal te assentado com satisfação, logo serás chamado irresistivelmente para partir,
Serás tratado com sorrisos irônicos e deboche por aqueles que estiverem atrás de ti,
Aos acenos de amor que receberes terás de responder apenas com os beijos apaixonados da partida,
Não deverás permitir o abraço daqueles que estenderem suas mãos para alcançar-te.


12

Allons! Atrás dos grandes Companheiros, para pertencer a eles!
Eles também estão na estrada — eles são homens rápidos e



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majestosos — são as mais grandiosas mulheres,
Desfrutadores das calmarias marítimas e das tempestades marítimas,
Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas em terra,
Habituès de muitos países distantes, Habituès de moradias distantes,
Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades, trabalhadores solitários,
Aqueles que param para contemplar os topetes, os botões, as conchas do mar,
Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas, carinhosos ajudantes de crianças, condutores de crianças,
Soldados de revoltas, guardadores de túmulos abertos, abaixadores de caixão,
Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos, cada um emergindo daquele que o precedeu,
Viajantes com seus companheiros, a saber suas próprias etapas diversas,
Cavalos marchadores para adiante desde os dias primevos latentes e não imaginados,
Viajantes alegres com sua própria juventude, viajantes com sua masculinidade de barba bem feita,
Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,
Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,
Idade avançada, calma, expandida, ampla com a orgulhosa largura do universo,
Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.


13

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,
Vivenciando muito: caminhadas durante o dia e o repouso à noite,
Fundindo tudo na viagem que realizam, e os dias e noites que realizam,
Novamente para fundi-los na partida de jornadas superiores,
Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que podes alcançar e ultrapassar,
Não concebendo tempo algum, embora distante, mas apenas aquilo que possas alcançar e ultrapassar,
Não vendo a estrada de um lado ao outro, mas sua extensão e a sua espera por ti,
Não vendo ser algum, nem mesmo o de Deus ou qualquer outro, mas também tu que avanças para o outro lado,


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Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo, desfrutando de tudo sem labuta ou investimento, abstraindo a
festa e, contudo, sem abstrair uma única partícula dela,
Tomando o melhor da fazenda do fazendeiro e da elegante vila do homem rico, e das castas bênçãos do casal recém-casado, e dos frutos dos pomares e das flores dos jardins,
Tomando para teu uso aquilo que há nas pequenas cidades quando passas por elas,
Carregando prédios e ruas contigo, mais tarde, onde quer que vás,
Colhendo os gênios dos homens em seus cérebros à medida que os encontre, colhendo o amor de seus corações,
Conduzindo teus amantes contigo pela estrada, por tudo aquilo que os deixas para trás de ti,
Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas, como estradas para as almas viajantes.

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,
Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos — tudo o que era ou é aparente sobre o globo ou qualquer globo, cai em nichos ou esquinas perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo.

Do progresso das almas dos homens e das mulheres, ao longo das grandes estradas do universo, todo o outro progresso é o símbolo e a sustentação necessários.

Para sempre vivas, para sempre adiante,
Altivas, solenes, tristes, retiradas, confusas, loucas, turbulentas, frágeis, insatisfeitas,
Desesperadas, orgulhosas, amorosas, doentes, aceitas pelos homens, rejeitadas pelos homens,
Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,
Mas eu sei que elas vão na direção do melhor — na direção de algo grandioso.

Quem quer que sejas, avança! Sejas homem ou mulher, avança!
Não deves ficar dormindo e brincando aí em tua casa, ainda que a tenhas construído para ti.

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 169] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

Olho através de ti e vejo-te tão mal como todos os outros,
Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,
Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas,
Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero.

Em nenhum marido, em nenhuma esposa, em nenhum amigo pode- se confiar para ouvir a confissão,
Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais,
Sem forma e sem palavras através das ruas das cidades, polidos e afáveis nas salas de estar,
Nos vagões das estradas de ferro, em barcos a vapor, nas assembléias públicas,
Lares para as casas dos homens e mulheres, nas mesas, no quarto de dormir, em toda parte,
Espertamente enfeitados, com a fisionomia sorridente, eretos, com a morte debaixo das costelas, com o inferno debaixo do crânio,
Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,
Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,
Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.


14

Allons! Através de lutas e guerras!
Ao objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

As contendas do passado alcançaram sucesso?
O que logrou sucesso? Tu? Tua nação? A natureza?
Agora me compreendes bem — está dado na essência das coisas que para qualquer fruição de sucesso, não importa o que seja, algo mais virá à tona para fazer necessários novos esforços.

Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa,
Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,
Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana, escassez, inimigos coléricos, deserções.




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15

Allons! A estrada está adiante de nós!
Ela é segura — eu já a provei — com meus próprios pés eu a experimentei bastante — não te detenhas!

Deixa que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, e o livro fechado na prateleira!
Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!
Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!
Deixa que o pregador pregue no seu púlpito! Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!
Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,
Dou-te o meu ser antes de pregar ou legislar;
Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?
Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?



Atravessando a balsa do Brooklyn

1

A maré transborda sob mim! Vejo-te face a face!
Nuvens para o oeste — o sol está lá nascido há apenas meia hora — vejo-te também face a face!

Multidões de homens e mulheres enfeitados em seus figurinos usuais; quão interessantes sois para mim!
Nas balsas, as centenas e centenas que fazem a travessia, voltando para casa, são mais interessantes para mim do que supões,
E vós que cruzareis estas águas, de uma margem à outra, dentro de muitos anos, sois mais importantes para mim, e estão mais presentes em minhas meditações, do que podereis supor.


2

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,
O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,



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cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,
As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,
As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões e em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,
A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nado para longe,
Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre eu e eles,
A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

Outros entrarão pelos portões da balsa e cruzarão de margem a margem,
Outros assistirão a rapidez do transbordamento da maré,
Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste e as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,
Outros verão as ilhas grandes e pequenas;
Dentro de cinqüenta anos, outros vão ter essa visão quando fizerem a travessia, o sol nascido há meia hora,
Dentro de cem anos, ou mesmo dentro de centenas de anos, outros vão ter essa visão,
Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré, o retorno do mar no refluxo da maré.


3

Não faz diferença, nem a hora nem o lugar — a distância não faz diferença,
Estou convosco, homens e mulheres de uma geração, ou mesmo tantas gerações a partir de então,
Tal como sentistes quando olhastes para o rio e para o céu, assim eu me senti,
Tal como qualquer um de vós é apenas um na multidão, eu também fui um na multidão,
Tal como vos sentistes renovados pelo regozijo do rio e pelo brilho da água, eu me renovei,
Tal como vós estais de pé, encostados no corrimão e, contudo, vos moveis rapidamente graças à força da correnteza, eu também me encostei assim e me movi com rapidez,
Tal como vós olhastes para os mastros inumeráveis dos navios e para as espessas chaminés que se erguem nos barcos a vapor, também olhei.

Muitas e muitas vezes também atravessei o velho rio,


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Contemplei as gaivotas de doze meses, vi-as nas alturas, flutuando com asas imóveis, oscilando seus corpos,
Vi como o amarelo reluzente acendia uma parte de seus corpos,deixando o resto na sombra mais completa,
Vi como voavam em círculos, vagarosamente, bordejando gradualmente o continente para o sul,
Vi o reflexo do céu de verão nas águas,
Senti meus olhos deslumbrarem-se com a beleza do percurso dos raios de sol,
Olhei para os finos raios centrífugos de luz, que incidiam como círculos em minha cabeça, refletidos na água iluminada pelo sol,
Olhei para a névoa nas montanhas em direção ao sul e ao sudoeste,
Olhei para o vapor esvoaçante como lã tingida de violeta,
Olhei na direção da baía inferior para observar as naus que chegavam,
Vi sua chegada, vi que estavam a bordo aqueles que estavam próximos de mim,
Vi as velas brancas das escunas e corvetas, vi os barcos nos ancoradouros,
Os marinheiros manejando o cordame ou pendurados nos mastros,
Os mastros cilíndricos, o movimento pendular das armações, as bandeiras esguias a serpentear,
Os grandes e os pequenos barcos a vapor, os pilotos em suas cabinas,
A esteira branca deixada pela passagem do navio, a rapidez trêmula do giro do timão,
As bandeiras de todas as nações, o seu arriamento ao pôr-do-sol,
As projeções curvilíneas na borda das ondas ao crepúsculo, as conchas, a crista brincalhona e brilhante das ondas,
A linha do horizonte cada vez mais imersa na escuridão, as paredes cinzentas dos prédios de granito dos armazéns nas docas,
Pelo rio, vultos sombrios, o grande rebocador a vapor tendo um batel de cada lado, o barco de feno, as barcaças morosas,
Na margem próxima os fogos das chaminés das fundições queimando nas alturas e fulgurantes noite adentro,
Lançando seu estalido de preto, contrastado com vermelho selvagem, e a luz amarela sobre o telhado das casas, e nos corredores das ruas.


4

Isso e tudo o mais foram para mim o mesmo que são para vós,
Amei muito aquelas cidades, amei muito o rio rápido e altivo,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 173] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Os homens e mulheres que vi estavam todos próximos de mim,
Outros também — outros que se viraram para me ver porque olhei para frente para vê-los
(Esse tempo virá, embora eu pare por aqui neste dia e nesta noite.)


5

O que há, então, entre nós?
O que há na conta dos sinais de centenas de anos entre nós?

Haja o que houver, não faz diferença — a distância não faz diferença, e o espaço não faz diferença,
Eu também vivi, o Brooklyn de amplas montanhas foi meu,
Eu também andei pelas ruas da ilha de Manhattan, e me banhei nas águas que há ao redor,
Eu também senti as dúvidas que surgiram curiosas e abruptas, agitando-se em mim,
Nos dias em que andei através de multidões, algumas vezes elas me assaltaram,
Em minhas caminhadas para casa, tarde da noite, ou nas horas em que eu estava deitado em minha cama, elas me assaltaram,
Eu também fui golpeado com essa dança eterna que nos priva de solução,
Eu também recebi uma identidade a partir de meu corpo,
Aquela identidade procedia de meu corpo, e o que eu deveria ser eu sabia que deveria proceder de meu corpo.


6

Não é apenas sobre ti que as vestes da escuridão se despencam,
A escuridão também lançou sobre mim as suas vestes,
O melhor de tudo o que eu já fizera pareceu-me vazio e suspeito,
As grandes luzes intelectuais que eu julgava possuir, não eram elas na verdade escassas?
Não és o único que sabe o que é ser mau,
Eu sou aquele que sabia o que é ser mau,
Eu também atei o velho nó da contrariedade,
Segredei, ruborizei, ressenti-me, menti, roubei, senti rancor,
Fui malicioso, tive raiva, entreguei-me à luxúria, senti desejos ardentes dos quais não ouso falar,
Fui teimoso, vão, ganancioso, raso, astuto, covarde, maligno,
Fui a raposa, a serpente, o suíno, sem querer ter sido,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 174] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Em mim o olhar de traição, a palavra frívola, o desejo adúltero, sem que eu os quisesse,
Em mim rejeições, ódios, adiamentos, maldade, preguiça, sem que eu os quisesse,
Fui um com os demais, com os dias e a sorte dos demais,
Fui chamado pelo meu nome mais íntimo, por vozes altas e claras de jovens homens, quando eles me viram chegando ou passando por eles,
Senti seus braços em meu pescoço quando parei, ou o contato de seus corpos que se deixaram cair, sobre mim quando me sentei,
Vi muitos que amei nas ruas ou nas balsas ou nas assembléias públicas e, contudo, nunca lhes disse uma única palavra,
Vivi a mesma vida com os demais, dei as mesmas velhas gargalhadas, atormentado, dormindo,
Participei da peça que ainda procura, no passado, o ator ou a atriz,
O mesmo velho papel, o papel que é aquele que fazemos existir, tão grandioso quanto o desejamos,
Ou tão pequeno quanto o queremos, ou ambos: grandioso e pequeno.


7

Aproximai-me ainda mais de ti,
O que pensas de mim agora, eu também estive contigo — adiantei o depósito de meus estoques,
Refleti longamente e seriamente sobre ti antes de teu nascimento.
Quem saberia dizer o que eu traria comigo para casa?
Quem sabe que estou gostando disso?
Quem saberia, tendo em vista uma tal distância que nos separa, que estou tão bem, olhando para ti agora, embora não possas me enxergar?


8

Ah, o que pode ser mais altivo e mais admirável para mim do que o mastro banhado em Manhattan?
Rio e pôr-do-sol e projeções curvilíneas na borda das ondas da maré que inunda?
As gaivotas oscilando seus corpos, o barco de feno no crepúsculo e a barcaça morosa?
Que deuses podem exceder esses que me pegam pelas mãos e, com vozes que eu amo, chamam-me prontamente e em alto som pelo meu nome mais íntimo quando me aproximo?


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 175] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O que pode ser mais sutil do que isso que me ata à mulher ou ao homem que olham para mim?
O que me funde em ti neste momento e derrama o meu significado em ti?

Nós os compreendemos, não é verdade?!
Aceitaste aquilo que te prometi sem questionar, não é verdade?
Aquilo que o estudo não levaria a aprender — aquilo que a pregação não poderia conseguir é conseguido, não é verdade?!


9

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!
Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!
Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!
Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!
De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!
Palpita, cérebro, confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!
Suspende aqui e em toda parte a eterna dança das soluções!
Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua ou na assembléia pública!
Soai, vozes, vozes de rapazes! Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!
Vive, vida antiga! Participa da peça que procura o passado do ator ou da atriz!
Assume o papel antigo, o papel que é grande ou pequeno, de acordo com o que cada um deles faz!
Considera, tu que me lê com atenção, se posso estar por caminhos desconhecidos pensando em ti;
Sê firme, corrimão acima do rio, para suportares aqueles que se apóiam em ti preguiçosamente e, contudo, se movem rapidamente com a velocidade da correnteza;
Voai, pássaros marítimos! Voai para os lados ou fazei grandes círculos nas alturas;
Reflete o céu de verão, tu, água, e lealmente o segura até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!
Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça, ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 176] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Avante, navios da baía inferior! Passai para cima ou para baixo, escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!
Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!
Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições! Lançai sombras negras sobre o anoitecer! Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!
As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,
Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,
Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai- vos, aromas divinos,
Prosperai, cidades — trazei vosso frete, trazei os vossos espetáculos, rios amplos e suficientes,
Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,
Guardai os vossos lugares, objetos que não encontrarão nada mais duradouro do que si.

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,
Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente, e nos tornamos insaciáveis de agora em diante,
Não mais sereis capazes de nos despistar ou de negar-vos a nós,
Usamo-vos e não vos lançamos fora — plantamo-vos permanentemente dentro de nós,
Não nos aprofundamos em vós — amamo-vos — também há perfeição em vós,
Forneceis vossas partes rumo à eternidade,
Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.



Canção do Respondente

1

Agora na lista de minha romanza matinal, narro os sinais do Respondente,
Às cidades e fazendas aceno, quando as vejo na amplitude da luz solar perante mim.

Um jovem vem a mim trazendo uma mensagem de seu irmão,
Como poderá o jovem conhecer as condições e o tempo de seu irmão?


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Diga-lhe que me envie os sinais.

E eu paro diante do jovem face a face e pego a sua mão direita na minha mão esquerda e sua mão esquerda na minha mão direita,
E respondo para o seu irmão e para os homens, e respondo para aquele que responde por todos, e envio estes sinais.

A ele que todos aguardam, a ele a quem todos cedem, sua palavra é decisiva e final,
A ele a quem eles aceitam, nele se banharam, nele se percebem em meio à luz,
A ele que é submergido por eles e que os submerge.

Mulheres maravilhosas, as nações mais justas, as leis, as paisagens, o povo, os animais,
A terra profunda e seus atributos e o oceano inquieto (assim eu narro a minha romanza matinal.)
Todos os prazeres e as propriedades e dinheiro, e tudo aquilo que o dinheiro comprará,
Nas melhores fazendas, são outros os que labutam e plantam e é ele que, inevitavelmente, colhe,
Nas cidades mais nobres e mais caras, são outros os que preparam o terreno e constroem e é ele quem lá reside,
Nada é por alguém que não seja para ele, próximos e distantes os navios em alto mar são para ele,
As perpétuas demonstrações e as marchas em terra são para ele, se são de fato para alguém.

Ele acrescenta algo na atitude deles,
Ele tira o hoje de si mesmo com plasticidade e amor,
Ele estabelece seus próprios tempos, reminiscências, parentes, irmãos e irmãs, associações, empregos, políticos, de modo que os demais nunca o envergonham mais tarde, nem ele julga que os comanda.

Ele é o Respondente,
Tudo o que pode ser respondido ele responde, e o que não pode ser respondido ele mostra como não pode ser respondido.

Um homem é um chamado e um desafio,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 178] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



(É em vão que se esquiva — ouves a chacota e o riso? Ouves os ecos irônicos?)

Livros, amigos, filósofos, padres, ação, prazer, orgulho, palpitações altas e baixas na busca de dar satisfação,
Ele indica a satisfação e indica a eles também aquele ritmo de palpitações.

Qualquer que seja o sexo, qualquer que seja a estação ou o lugar, ele pode continuar, renovado e gentil, e seguro de dia e à noite,
Ele possui a senha dos corações, para ele a resposta das mãos que se intrometem a girar a maçaneta.

Seu acolhimento é universal, o fluxo da beleza não é mais bem-vindo ou universal do que ele é,
A pessoa a quem ele favorece durante o dia ou com quem ele dorme à noite é abençoada.

Toda existência tem a sua linguagem, tudo tem um idioma e uma língua,
Ele inclui todas as línguas na sua e a entrega aos homens, e qualquer homem traduz, e qualquer homem igualmente se traduz,
Uma parte não se contrapõe à outra, ele é o elo entre ambas, ele pode compreender de que modo elas se unem.

Ele fala sem diferenciar-se e de modo semelhante Como estás amigo?, ao Presidente em sua recepção,
E diz Adeus, meu irmão, ao bóia-fria que capina no campo de açúcar,
E ambos o compreendem e sabem que seu discurso está correto.

Ele se move com perfeita agilidade nos corredores do Capitólio,
Anda entre os congressistas, e um deputado diz ao outro, Ali vai um de nossos novos pares .

Então os mecânicos tomam-no por um mecânico,
E os soldados supõem que ele seja um soldado, e os marinheiros acreditam que ele singrou os mares,
E os escritores tomam-no por um escritor, e os artistas por um artista,
E os operários percebem que ele poderia trabalhar com eles e amá-los,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 179] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Não importa qual seja a profissão, ele é potencialmente adequado a ela ou nela já atuou,
Não importa de que nação falemos, ele há de encontrar ali os seus irmãos e suas irmãs.

Os ingleses acreditam que ele vem para a colônia Britânica,
Ao judeu ele aparenta ser um judeu, um russo para o russo, costumeiro e próximo, saído do nada.

Todos para os quais ele olha na cafeteria dos viajantes atribuem a ele a sua própria nacionalidade,
Os italianos e os franceses têm certeza, o alemão tem certeza, o espanhol tem certeza, o cidadão cubano tem certeza que ele é seu concidadão,
O engenheiro, o taifeiro dos grandes lagos, ou no Mississippi ou em St. Lawrence ou em Sacramento, ou ao som do Hudson ou do Paumanok, todos o reconhecem como igual.

Os cavalheiros de sangue perfeito reconhecem o seu sangue perfeito,
Aquele que insulta, a prostituta, a pessoa com raiva, o pedinte, se vêem projetados nele e ele estranhamente se transforma neles,
Eles não são piores, eles mal conhecem a grandeza que existe dentro de si.


2

As indicações e a contagem das horas,
O que tem perfeita sanidade se faz mestre entre os filósofos,
O tempo, sempre sem brechas, se apresenta em fragmentos,
O que sempre indica o poeta são as multidões de companhias agradáveis dos cantores e suas palavras,
As palavras dos cantores são as horas e os minutos da luz ou da escuridão, mas as palavras do autor de poemas são a própria luz e a escuridão,
O autor de poemas estabelece a justiça, a realidade, a imortalidade,
Sua luz interior e seu poder envolve as coisas e a raça humana,
Ele é a glória e o extrato longínquo das coisas e da raça humana.

Os cantores não criam, apenas os Poetas criam,
Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem com bastante freqüência, mas são raros os dias ou as oportunidades de nascimento dos autores de poemas, os Respondentes,


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(Nem todo o século, nem mesmo o intervalo de cada cinco séculos contém esse dia, com todos os seus nomes.)

Os cantores das horas sucessivas dos séculos podem ter nomes ostensivos, mas o nome de cada um deles é de um dos cantores,
O nome de cada um é: olho cantor, ouvido cantor, cabeça cantora, doce cantor, cantor da noite, cantor de salão, cantor do amor, cantor do destino ou de algo mais.

Todo esse tempo e em todos os tempos, espere pelas palavras dos poemas verdadeiros,
As palavras dos poemas verdadeiros não são aquelas que simplesmente agradam,
Os verdadeiros poetas não são os seguidores da beleza, mas os augustos mestres da beleza;
A grandeza dos filhos é a exsudação da grandeza das mães e dos pais,
As palavras dos poemas verdadeiros são a coroa e o aplauso final da ciência.

Instinto divino, amplitude da visão, a lei da razão, saúde, rudeza do corpo, capacidade de se retirar,
Alegria, pele morena, doçura do ar, essas são algumas das palavras dos poemas.

Os marinheiros e os viajantes subjazem aos autores de poemas, os Respondentes,
O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista, o frenologista, o artista, todos esses subjazem ao autor de poemas, o Respondente.

As palavras dos verdadeiros poemas dão-te mais do que poemas,
Elas são a matéria-prima para que possas fazer tu mesmo poemas, religiões, política, guerra, paz, comportamento, história, ensaios, vida diária e tudo o mais,
Elas põem em equilíbrio as categorias, as cores, as raças, os credos, e os sexos,

Elas não procuram a beleza, elas são procuradas,
Para sempre as tocando, ou próxima delas, segue a beleza, cheia de desejos, ansiosa, doente de amor.


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Elas preparam para a morte e, contudo, não são o fim, ao contrário, a partida,
Elas não conduzem ninguém ao seu término ou para a sua satisfação e contentamento,
Aqueles que são conduzidos por elas são conduzidos para o espaço, de modo que assistam ao nascimento das estrelas, para que aprendam os seus significados,
Para lançá-los com fé absoluta, para arrebatar os anéis intermináveis e nunca mais se aquietarem.



Nossa antiga feuillage

Sempre a nossa antiga feuillage!
Sempre a península verde da Flórida — sempre o inestimável delta da Louisiana — sempre os campos de algodão do Alabama e do Texas,
Sempre as montanhas douradas da Califórnia e as depressões, e as montanhas prateadas do Novo México — sempre o hálito macio de Cuba,
Sempre a vasta falda drenada pelo mar do sul, inseparável das faldas drenadas pelos mares do leste e do oeste,
A área deste octogésimo terceiro aniversário destes Estados, os três milhões e meio de milhas quadradas,
As dezoito mil milhas de costa marítima e de baías continentais, as trinta mil milhas de navegação fluvial,
Os sete milhões de famílias distintas e o mesmo número de moradias — sempre essas e mais se ramificando em ramos sem número,
Sempre o espaço livre e a diversidade — sempre o continente da Democracia;
Sempre as pradarias, pastos, florestas, cidades amplas, viajantes, Canadá, as neves;
Sempre essas terras firmes atadas aos quadris, com aquele cinturão que amarra os imensos lagos ovais;
Sempre o Oeste com pessoas nativas, vigorosas, o destino do crescimento de lá, os habitantes, amigáveis, ameaçadores, irônicos, invasores desprezados;
Todas as vistas, Sul, Norte, Leste — todos os feitos, promiscuamente realizados em todos os tempos,


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Todos os personagens, movimentos, crescimentos, uns poucos notados, miríades não observadas,
Através das ruas de Mannahatta eu ando, reunindo essas coisas,
Em rios interiores, à noite, na superfície lustrosa dos nós do pinho, no abastecimento de madeira em barcos a vapor,
Luz solar durante o dia no vale do Susquehanna, e no vale do Potomac e Rappahannock, e nos vales de Roanoke e Delaware,
Nas florestas selvagens do norte, feras predadoras assombrando as montanhas Adirondack, ou contornando as águas do rio Saginaw para beber,
Numa enseada solitária, um merganso perdido do bando pousa na água balançando-se em silêncio,
Nos celeiros das fazendas, os bois nos estábulos, seu trabalho de colheita completado, descansando de pé, muito cansados,
Bem longe, no gelo ártico, a morsa deita-se preguiçosamente enquanto seus filhotes brincam ao redor,
O falcão navegando por onde homem algum já navegou, o mais longínquo oceano polar, cristalino, aberto, além das massas de gelo,
Montanha branca flutuante colhendo tudo o que está à sua frente, onde o navio se arroja na tempestade,
Em terra firme, o que se faz nas cidades quando os sinos tocam juntos à meia-noite,
Os sons também alcançam florestas primitivas, o uivo do lobo, o grito da pantera, e a rouquidão do alce,
No inverno, embaixo da superfície de gelo azul do lago Moosehead, e no verão, visível, através das águas claras, a truta grande nada.
Nas latitudes mais baixas, em ares mais quentes, nas Carolinas, o grande urubu negro circula vagarosamente no alto, acima dos topos das árvores,
Abaixo, o cedro vermelho abarrotado de tylandria, os pinhos e ciprestes crescendo na areia branca que se espalha ao longe e é plana,
Barcos repentinos descendo o grande Pedee, trepadeiras, parasitas com suas flores coloridas e frutas vermelhas envolvendo árvores imensas,
A folhagem longa e ondulante derramando-se sobre o carvalho americano até o chão, balançando sem ruídos pela ação do vento,
O acampamento dos carroceiros da Geórgia ao anoitecer, as fogueiras gigantes em torno das quais brancos e negros cozinham e comem,


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Trinta ou quarenta grandes carroças, mulas, gado, cavalos, alimentando-se no cocho,
As sombras, os brilhos, sob as folhas do velho Sicômoro, as chamas com fumaça negra de madeira escura que sobe em espiral;
Pescadores do sul pescando, os estuários e as angras da costa da Carolina do Norte, a pescaria de sável, a pescaria de arenque, as grandes redes de arrastão, nas praias, as máquinas de reboque movidas a cavalo, as casas onde se limpam, curam e empacotam os peixes,
No interior da floresta repleta de pinheiros, o gotejar da terebintina das incisões feitas nas árvores, aqueles que trabalham com a terebintina,
Há os negros trabalhando com boa saúde, em todas as direções, a terra está coberta com a palha dos pinheiros;
No Tennessee e no Kentucky, escravos ocupados no abastecimento de carvão na forja, ao lado do brilho da fornalha, ou na remoção das cascas do milho,
Na Virgínia, o filho do plantador retorna depois de um longo tempo de ausência, acolhido alegremente e beijado pela idosa ama de leite mulata,
Nos rios, os barqueiros ancorados firmemente na caída da noite, em seus barcos, debaixo do abrigo das margens elevadas,
Alguns dos homens mais jovens dançam ao som do banjo ou da rabeca, outros sentam-se nas amuradas fumando e conversando;
No final da tarde o pássaro-das-cem-línguas, o mímico americano, cantando no Grande Pântano Desolador,
Há as águas esverdeadas, o cheiro resinoso, a alga abundante, o cipreste, o zimbro;
Para o Norte, jovens soldados de Mannahatta que, à noite, retornam para casa, vindos de uma excursão, e na boca do cano de suas espingardas estão flores e mais flores que lhes foram ofertadas por mulheres;
Crianças a brincar ou, no colo de seu pai, um menino que cai no sono (como seus lábios se movem! Quanto sorriso há em seu sono!)
O batedor cavalga seu cavalo nos planaltos, a oeste do Mississippi, ele sobe num outeiro e lança um olhar ao redor,
Vida da Califórnia, o mineiro barbado, vestido em seus trajes rudes, a leal amizade da Califórnia, o ar doce, os túmulos que aqueles que passam solitários encontram à margem da estrada;


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Para o sul, no Texas, o campo de algodão, as cabanas dos negros, condutores conduzindo mulas, os fardos de algodão empilhados nas margens e nos embarcadouros;
Tudo abraçando, arremessando ao longe e na amplidão, a Alma da América,
Com iguais hemisférios, um Amor, uma Dilação ou Orgulho;
Em arriere, o diálogo de paz com os aborígines iroqueses, o cachimbo sagrado, o cachimbo da paz, a arbitragem, e o endosso,
O cacique soprando a fumaça primeiramente em direção ao sol e depois em direção à terra,
O drama da dança do escalpelo ordenada com faces pintadas e exclamações guturais,
A exibição da festividade guerreira, a marcha longa e dissimulada,
A fila indiana, o vaivém das engenhocas, o ataque surpresa e o massacre dos inimigos;
Todos os atos, cenas, pessoas, atitudes destes Estados, reminiscências, instituições,
Todos estes Estados sólidos, cada milha quadrada do território destes Estados sem a exceção de uma única partícula;
Eu satisfeito, perambulando por alamedas e campos do interior, campos de Paumanok,
Observando o vôo em espiral de duas borboletas amarelas embaralhando-se, subindo alto no ar,
A andorinha que se arremessa, o destruidor de insetos, o viajante do outono indo para o sul, mas retornando para o norte no início da primavera,
O rapaz ao fim do dia conduzindo o rebanho bovino e gritando para que as vacas não se retardem para pastar na beira da estrada,
O cais da cidade em Boston, Filadélfia, Baltimore, Charleston, New Orleans, San Francisco,
A partida dos navios quando os marinheiros se erguem no cabrestante;
Fim do dia — eu em meu quarto — o pôr-do-sol,
O sol de verão que se põe, brilhando pela abertura de minha janela, mostrando o enxame de moscas, suspenso, balançando-se no ar no centro do quarto, arremessando-se de lado a lado, subindo e descendo, lançando sombras ligeiras como se fossem manchas na parede oposta ao brilho do sol;
A atlética matrona americana falando em público para multidões de ouvintes,


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Machos, fêmeas, imigrantes, mestiços, a abundância, a individualidade dos Estados, cada um com suas qualidades
— os fazedores de dinheiro,
Fábricas, máquinas, as forças mecânicas, o guindaste, a alavanca, a roldana, todas as certezas,
A certeza de espaço, aumento, liberdade, futuro,
No espaço as espórades, as ilhas espalhadas, as estrelas — em solo firme, as terras, minhas terras,
Ó terras! Todas tão amadas por mim — o que sois (independentemente do que sois), eu as cito ao acaso nestas
canções, integro-as a elas, o que quer que sejam,
Caminhando para o sul, eu grito, com asas que se agitam morosamente, ao lado de miríades de gaivotas preparando-se
para o inverno, ao longo da costa da Flórida,
Em outras paragens excitantes, as margens do Rio Arkansas, o Rio Grande, o Nueces, o Brazos, o Tombigbee, o Rio Vermelho, o
Saskatchawan ou o Osage, eu com as águas da fonte rindo,
pulando e correndo,
Para o Norte, nas areias, em alguma baía rasa do Paumanok, eu com grupos de garças brancas andando sobre as poças d'agua
para encontrar minhocas e plantas aquáticas,
Retirando-me, cantando em triunfo, o rei das aves, superando o anúncio do corvo, por diversão — e eu cantando em triunfo.
O bando migrante de patos selvagens descendo no outono para se refrescar, o bando se alimentando, as sentinelas externas do
bando fazendo seu turno com cabeças eretas, vigiando,
revezadas por outras sentinelas de tempos em tempos
— e eu revezando com os outros,
Nas florestas canadenses o alce, grande como um boi, encurralado por caçadores, erguendo-se desesperadamente em suas patas
traseiras e mergulhando com suas patas dianteiras, os cascos
afiados como facas — e eu, mergulhando sobre os
caçadores, encurralado e desesperado,
Em Mannahatta, ruas, cais, navios, armazéns e os incontáveis operários trabalhando nas oficinas,
E eu também de Mannahatta, cantando isso — e não menos em mim do que no todo de Mannahatta,
Cantando a canção Desses, de minhas terras sempre unidas — meu corpo não é mais inevitavelmente unido do que elas, parte a
parte, e composto de mil contribuições distintas numa só


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identidade, não mais do que as minhas terras estão inevitavelmente unidas e feitas NUMA IDENTIDADE;
Nascimentos, climas, a relva das grandes planícies pastoris,
Cidades, empregos, morte, animais, produtos, guerra, bem e mal — esses sou eu,
Esses fornecendo, em todas as suas particularidades, a velha feuillage para mim e para a América, como posso fazer menos que passar-lhes a chave da união, de passar-te o mesmo?
Quem quer que sejas! Como posso oferecer-te algo além de folhas divinas, para que tu te tornes aceitável como eu sou?
O que posso fazer senão, como aqui cantando, convidar-te para que colhas os incomparáveis buquês da feuillage destes Estados?


Uma canção de alegrias

Ó compor a mais jubilosa canção!
Repleta de música — repleta de virilidade, de feminilidade, de infância!
Repleta de operários em seus empregos comuns, repleta de grãos e de árvores.

Ó pelas vozes dos animais — Ó pela agilidade e pelo equilíbrio dos peixes!
Ó pelo gotejar da chuva em uma canção!

Ó pelo brilho do sol e o movimento das ondas em uma canção!
Ó alegria de meu espírito — que está livre — ele se lança como um raio!
Não é o suficiente possuir este globo e algum tempo,
Possuirei milhares de globos e todo o tempo.

Ó as alegrias do engenheiro! De ir com a locomotiva!
De ouvir o sopro do vapor, o apito alegre, o assobio do vapor, a locomotiva ridente!
Avançando sem resistência pelo trilho, em alta velocidade na distância.

Ó jubiloso passeio sobre os campos e as montanhas!
As folhas e as flores da mais comum das ervas daninhas, a tranqüilidade fresca e úmida da floresta,


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O odor intenso da terra ao amanhecer e durante toda a tarde.

Ó prazeres dos cavaleiros e das amazonas!
A sela, o galope, a pressão sobre o assento, o sereno acariciando os ouvidos e os cabelos.

Ó alegrias do bombeiro!
Ouço as sirenes na calada da noite,
Ouço os sinos, os gritos, passo pela multidão, corro!
A visão das chamas enlouqueceu-me de prazer.

Ó alegria do lutador forte e moreno, sobressaindo-se bem no centro da arena em perfeitas condições, consciente de sua força, sedento por encontrar seu oponente.

Ó alegria daquela vasta e poderosa compaixão que apenas a alma humana é capaz de gerar e oferecer em fluxos contínuos e ilimitados.

Ó alegria da mãe!
A atenção, a resistência, o amor precioso, a angústia, a vida cedida pacientemente.

Ó alegria do aumento, do crescimento, da recuperação,
A alegria de acalmar e pacificar, a alegria do acordo e da harmonia.

Ó retornar ao lugar em que nasci,
Ouvir os pássaros cantarem uma vez mais,
Perambular em volta da casa e pelo celeiro e cruzando os campos mais uma vez,
E através do pomar e ao longo das picadas antigas mais uma vez.

Ó ter sido criado nas baías, lagoas, riachos ou ao longo da costa,
Continuar ali e trabalhar ali toda a minha vida,
O cheiro salgado e a maresia, a praia, as ervas marítimas expostas na água rasa,
O trabalho do pescador, o daquele que pesca enguias e do que pesca mariscos;
Eu venho com meu ancinho e minha pá de marisco, venho com meu arpão de enguia,
Está na hora da vazante da maré? Reúno-me ao grupo de cavadores de marisco nos pântanos,
Eu me divirto e trabalho com eles, brinco no meu trabalho com a índole de um jovem;



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No inverno, levo meu balde de enguia e minha lança de enguia e viajo a pé sobre o gelo — tenho um pequeno machado com o qual faço buracos no gelo,
Contempla-me bem vestido indo adiante alegremente ou retornando à tarde, com a minha descendência de rapazes fortes me acompanhando,
Minha descendência de rapazes crescidos e não tão crescidos, que não adoram estar com outras pessoas tanto quanto adoram estar comigo,
De dia trabalham comigo e à noite dormem comigo.

Em outra ocasião, quando o clima está quente, em um barco, recolho as armadilhas de lagosta que estavam submergidas com o peso de pedras pesadas, (sei onde ficam as bóias,)
Ó doçura da manhã do quinto mês sobre as águas quando estou remando pouco antes do amanhecer em direção às bóias,
Puxo obliquamente as armadilhas de vime, as lagostas verde-escuras estão desesperadas, mexendo suas garras, e quando eu as tiro da água, coloco cavilhas de madeira nas juntas de suas pinças,
Vou para todos os lugares, uns após os outros, e depois remo de volta para a praia,
Lá, dentro de um enorme caldeirão com água fervente, as lagostas deverão ser fervidas até que sua coloração se torne escarlate.

Outras vezes, pescando cavalas,
Vorazes, loucas pelo anzol, próximas da superfície, elas parecem povoar as águas, milhas afora;
Outra vez pescando bodião na baía de Chesapeake, é minha uma das faces morenas da tripulação;
Outra vez puxando para fora da água a enchova em Paumanok, apóio-me no peso de meu corpo,
Meu pé esquerdo está sobre a amurada, meu braço direito lança para longe os rolos de corda fina,
Sob os meus olhos o movimento rápido e o arrojo de cinqüenta outros barcos leves, meus companheiros.

Ó navegando nos rios,
A viagem de descida pelo St. Lawrence, o cenário soberbo, os barcos a vapor,
A navegação dos navios, as Mil Ilhas, as balsas de madeira ocasionais e os balseiros com seus longos e pesados remos de impulsão,


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As pequenas cabanas sobre as balsas, e as nuvens de fumaça que delas sobem quando os balseiros cozinham o jantar à noite.

(Ó algo pernicioso e medonho!
Algo distante de uma vida frágil e respeitosa!
Algo não testado! Algo em um transe!
Algo que se desatou das âncoras e vai avançando livremente.)

Ó trabalhar nas minas ou forjando o aço,
Na fundição de peças, a fundição ela mesma, o teto rude e alto, o espaço amplo e sombrio,
A fornalha, o líquido quente entornado e corrente.

Ó recapitular as alegrias do soldado!
Sentir a presença de um corajoso oficial de comando — sentir a sua compaixão!
Testemunhar a sua calma — ser aquecido pelos raios de seu sorriso!
Ir para a batalha — ouvir o toque das cornetas e a batida dos tambores!
Ouvir o som da artilharia — enxergar o brilho das baionetas e os canos dos mosquetes sob o sol!
Contemplar os homens que caem e morrem sem reclamar!
Sentir o gosto selvagem do sangue — ser tão diabólico!
Tripudiar sobre os ferimentos e as mortes do inimigo.

Ó alegrias do baleeiro! Eu faço meu velho cruzeiro novamente!
Sinto o movimento do navio sob mim, sinto as brisas do Oceano Atlântico a me refrescar,
Ouço uma vez mais o grito que desce do mastro central, baleia à vista!
Novamente jogo o cordame e vou observar com os outros — nós descemos, loucos de excitação,
Salto para dentro do bote baixado, remamos na direção de nossa presa,
Aproximamo-nos dissimulados e em silêncio, vejo a massa montanhosa, letárgica, se aquecendo,
Vejo o arpoador de pé, vejo a arma lançada de seu braço vigoroso;
Ó de repente uma vez mais em alto mar a baleia ferida pára, depois nada para barlavento, reboca-me,
Novamente eu a vejo subir para respirar, remamos para perto dela outra vez,
Vejo quando uma lança atirada atravessa a sua lateral, acertando-a com profundidade, sendo virada dentro do ferimento,


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Novamente nós nos afastamos, vejo-a remexer-se outra vez, a vida a está deixando rapidamente,
Quando ela se ergue, espirra sangue, vejo-a nadar em círculos cada vez menores, cortando a água com movimentos ligeiros, vejo-a morrer,
Ela dá um salto convulsivo no centro do círculo e então cai estirada na espuma sangrenta.

Ó antiga virilidade em mim, minha mais nobre alegria!
Meus filhos e netos, meus cabelos brancos e minha barba,
Minha largueza, minha calma, minha majestade, nessa longa jornada de minha vida.

Ó amadurecida alegria da feminilidade! Ó felicidade afinal!
Tenho mais de oitenta anos de idade, sou a mãe mais venerável,
Como a minha mente é lúcida — como todas as pessoas querem se aproximar de mim,
Que atrações há maiores do que essas? O que floresce mais do que a juventude?
Que beleza é essa que desce sobre mim e se ergue de meu ser?

Ó alegrias do orador!
Encher o peito, fazer soar o trovão da própria voz de seu tórax e sua garganta,
Fazer com que as pessoas se enfureçam, chorem, odeiem, tenham desejos, conheçam a si mesmas,
Liderar a América — subjugar a América com uma grande língua.

Ó alegria de minha alma apoiando-se em si mesma, recebendo identidade por meio da matéria e amando-a, observando suas características e absorvendo-as,
Minha alma refletida de volta para mim a partir delas, da visão, da audição, do tato, da razão, da articulação, da comparação, da memória, e tudo o mais,
A vida real dos meus sentidos e da minha carne transcendendo os meus sentidos e a minha carne,
Meu corpo feito de elementos materiais, minha visão dada através de meus olhos materiais,
Está provado para mim, muito além de qualquer sofisma, que não são meus olhos materiais que finalmente enxergam,


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Nem é meu corpo material que finalmente ama, anda, ri, grita, abraça, procria.

Ó alegrias do fazendeiro!
O de Ohio, o de Illinois, o de Wisconsin, o do Canadá, o de Iwoa, o de Kansas, o de Missouri, o de Oregon, as alegrias de todos eles!
Erguer-se no raiar do dia e avançar lepidamente para trabalhar,
Arar a terra no outono para que haja colheitas no inverno,
Arar a terra na primavera para a plantação do milho,
Preparar os pomares, enxertar as árvores, juntar as maçãs no outono.

Ó banhar-me na piscina ou num bom lugar do litoral.
Espirrar a água! Andar com os tornozelos dentro da água, ou correr nu pela praia.

Ó perceber o espaço!
A plenitude de todas as coisas, a inexistência das fronteiras,
Emergir e ser do céu, do sol e da lua e das nuvens que voam, ser um com eles.

Ó a alegria de ser homem!
De não me submeter servilmente a ninguém, não acatar a ninguém, a nenhum tirano conhecido ou desconhecido,
Andar com uma postura ereta, com um passo elástico e cadenciado,
Lançar olhares intensamente calmos ou com olhos faiscantes,
Falar com uma voz sonora e cheia, de dentro de um peito largo,
Confrontar com a sua personalidade todas as outras personalidades da terra.

Conheces acaso as excelentes alegrias da juventude?
Alegrias dos companheiros queridos que têm palavras agradáveis e faces sorridentes?
Alegria do dia do raio de luz feliz, alegria das brincadeiras amplas e arejadas?
Alegria da música suave, alegria do salão de festas e dos dançarinos?
Alegria do banquete farto, da bebedeira homérica?

E ainda assim, ó minha alma suprema!
Conheces acaso os prazeres da reflexão?
Alegrias do coração livre e solitário, do coração brando e desalentado?


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Alegrias da caminhada solitária, do espírito humilde e contudo orgulhoso, o sofrimento e a luta,
Os momentos de agonia, os de êxtase, alegrias dos solenes devaneios de dia e de noite?
Alegrias do pensamento sobre a Morte, sobre as grandes dimensões de Tempo e Espaço?
Alegrias proféticas de melhores e mais elevados ideais de amor, a esposa divina, o companheiro doce, eterno e perfeito?
Alegrias todas tuas, ser imortal, alegrias que são dignas de ti, ó alma.

Ó enquanto eu viver para reinar sobre a vida e não para ser um escravo,
Para abraçar a vida como um poderoso conquistador,
Sem fumos, sem tédio, sem novas reclamações ou críticas desdenhosas,
Para essas leis orgulhosas do ar, da água e do solo que atestam que minha alma interior é impregnável,
E que nada que esteja fora de minha consciência jamais poderá me comandar.

Pois não canto apenas pelas alegrias da vida, repito — mas também pela alegria da morte!
O belo toque da Morte, que acalma e entorpece por alguns momentos, por tantas razões,
Descarto o meu corpo como se fosse um excremento para que seja queimado ou para que se torne pó, ou seja enterrado,
O meu corpo verdadeiro, sem dúvida, fica comigo para a vida que se dá em outras esferas,
Meu corpo evacuado, nada mais dele é meu, retorna para a purificação, para outras cerimônias, no eterno ciclo da terra.

Ó atrair mais do que pela atração!
Como isso funciona não sei — ainda assim contemplo! Esse algo que não obedece a coisa qualquer,
Ele é ofensivo, nunca defensivo — e contudo que estupendo magnetismo.

Ó luta contra grandes disparidades, o enfrentamento de inimigos sem temor!
Estar totalmente só perante eles e compreender o quanto se é capaz de suportar!


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Estar face a face com a rivalidade, a tortura, a prisão, o ódio popular!
Subir ao cadafalso, avançar para a mordaça das armas com perfeita indiferença!
Ser, realmente, um Deus!

Ó navegar para o mar em um navio!
Deixar para trás esta terra firme insuportável,
Deixar essa mesmice cansativa das ruas, das calçadas e das casas,
Deixar-te, ó terra sólida e inamovível, e ingressar em um navio,
E navegar, navegar, navegar!

Ó transformar a vida daqui em diante em um poema de novas alegrias!
Dançar, bater palmas, exultar, bradar, pular, saltar, rolar, flutuar!
Ser um marinheiro do mundo, preso a todos os portos,
Ser um navio eu mesmo (enxergar de fato essas velas que abro para o sol e para o vento),
Um barco ligeiro e dilatado, cheio de ricas palavras, cheio de alegrias.


Canção do grande machado

1

Tem forma de uma arma nua e descorada,
Sua cabeça foi tirada das entranhas maternas,
Sua carne é de madeira, seus ossos de metal, com um único membro e um lábio somente,
Folha azul acinzentada, dilatada no fogo da forja, e o cabo produzido do que já foi semente,
Está posto sobre a relva e, bem ao meio,
Descansa, como também serve de esteio.

Formas poderosas e atributos de formas poderosas, permutas masculinas, visões e sons,
Longo e sortido comboio de um emblema, afago musical,
Dedos de um organista pulando em staccato sobre as teclas de um grande órgão.




- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 194] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



2

Bem-vindas são todas as terras do planeta, cada uma com seu tipo,
Bem-vindas são as terras dos pinheiros e dos carvalhos,
Bem-vindas são as terras dos limões e dos figos,
Bem-vindas são as terras do ouro,
Bem-vindas são as terras do trigo e do milho, bem-vindas as terras das uvas,
Bem-vindas as terras do açúcar e do arroz,
Bem-vindas as terras do algodão, bem-vindas aquelas da batata- branca e da batata-doce,
Bem-vindos são as montanhas, os vales, as areias, as florestas, os prados,
Bem-vindos as ricas margens dos rios, os planaltos, as clareiras,
Bem-vindas as imensuráveis terras de pastagem, bem-vindos os solos férteis dos pomares, a fibra do linho, o mel, o cânhamo;
Bem-vindas, com o mesmo entusiasmo, as terras menos produtivas,
Terras ricas tal como as do ouro ou as do trigo e as das frutas,
Terras das minas, terras de metais viris e bem ocultos,
Terras de carvão, cobre, chumbo, estanho, zinco,
Terras do ferro — terras onde se forja o machado.


3

A tora na pilha de madeira, o machado sobre ela,
A cabana selvática, a videira sobre o portão, o espaço limpo para o plantio de um jardim,
O gotejar irregular da água caída das folhas depois que a tempestade se acalma,
Os gemidos a intervalos, o pensamento no mar,
O pensamento nos navios atingidos pela tempestade que faz com que o timão vire ao extremo e com que os mastros sejam arrancados,
A afeição pelas madeiras imensas com que são feitas as casas e os celeiros antigos,
A lembrança de uma história publicada ou narrada, a viagem de um empreendimento de homens, famílias, bens,
O desembarque e a fundação de uma nova cidade,
A viagem daqueles que encontraram a Nova Inglaterra e a fundaram, o início que se deu em qualquer lugar,
As colonizações do Arkansas, do Colorado, de Ottawa, de Willamette,
O progresso lento, a comida escassa, o machado, o rifle, os sacos carregados;
A beleza de todas as pessoas aventureiras e ousadas,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 195] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A beleza dos jovens lenhadores e dos lenhadores maduros, com suas faces claras e barbadas,
A beleza da independência, a partida, ações que perduram,
O desprezo da América por estátuas e cerimônias, a impaciência sem limites para com as restrições,
O afrouxamento do caráter, a insinuação por meio de tipos aleatórios, a solidificação;
O açougueiro no matadouro, as mãos a bordo das escunas e corvetas, o balseiro, o pioneiro,
Os lenhadores no seu campo de inverno, o amanhecer na floresta, listras de neve nos galhos das árvores, a quebra de um deles de quando em quando.
O som alegre e claro da voz de alguém, a canção feliz, a vida natural nas florestas, o dia de trabalho forte,
O brilho da fogueira à noite, o gosto doce do jantar, a conversa, a cama feita de ramos de árvores e de pele de urso;
O construtor de casas trabalhando nas cidades ou em qualquer parte,
A preparação da madeira: ajustar, riscar, serrar, entalhar,
O levantamento das vigas, o encaixe em suas posições, a sua regularização,
A colocação dos caibros verticais pelas cavilhas nos encaixes, de acordo com a preparação,
As batidas de marreta e de martelo, a postura dos trabalhadores, seus membros curvados,
Dobrando-se, levantando-se, montando sobre as vigas, espetando alfinetes, presos aos postes com fivelas,
Um braço em torno da placa de madeira, o outro braço esgrimindo o machado,
Os homens no chão pressionando as tábuas para que sejam pregadas,
Suas posturas fazendo com que suas armas desçam em seus coldres,
Os ecos soando através dos prédios vazios;
O imenso armazém sendo construído na cidade, em estágio adiantado,
Os seis homens responsáveis pelo vigamento, dois no meio e dois em cada ponta, carregando com cuidado em seus ombros uma pesada treliça para montar um sistema de vigas entrelaçadas,
A enorme fila de pedreiros com espátulas em suas mãos direitas, erguendo rapidamente a comprida parede lateral, duzentos pés de um lado a outro,
A subida e descida das costas flexíveis, o ruído contínuo das espátulas batendo nos tijolos,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 196] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Um após o outro, cada tijolo é colocado mecanicamente pelos homens em seus devidos lugares e assentado com um soco do cabo das espátulas,
As pilhas de materiais, a argamassa nas tábuas de argamassa e o constante abastecimento feito pelo responsável do cocho;
Os marceneiros fazendo longarinas no pátio da obra, as filas lotadas de bem crescidos aprendizes,
O balanço de seus machados, que vão tirando pequenos quadrados de um tronco, até que ele assuma a forma de um mastro,
O estalo rápido e enérgico do metal que atinge obliquamente o pinheiro,
Os pedacinhos de madeira que voam em grandes flocos e lascas,
O movimento dos jovens braços morenos e dos quadris em suas roupas frouxas,
O construtor de embarcadouros, pontes, cais, sacadas, flutuadores, diques de proteção contra as águas do mar;
O bombeiro da cidade, o fogo que irrompe subitamente no quarteirão próximo e repleto de gente,
Os carros de bombeiro chegando, os gritos roucos, os passos ágei e arriscados,
O comando forte por meio dos megafones, as quedas na linha de incêndio, os braços que sobem e descem forçando a água,
Os jatos azuis e brancos, finos, espasmódicos, a aproximação difícil dos ganchos e das escadas para o seu trabalho,
A queda e o corte dos materiais condutores, ou através do próprio chão de tábuas quando o fogo arde embaixo dele,
A multidão com seus rostos brilhantes assistindo a tudo, o clarão e as sombras densas que se seguem;
O forjador em sua fornalha e aquele que manipula o ferro logo após,
Aquele que faz os machados grandes e pequenos, e o soldador e o montador,
O selecionador assoprando o metal frio e testando a qualidade de corte da lâmina com seu dedão,
Aquele que faz o acabamento no cabo e o prende firmemente ao bocal;
As procissões sombrias dos retratos dos usuários do passado também,
Os primeiros mecânicos, os pacientes, os arquitetos e engenheiros,
Os longínquos edifícios assírios e os edifícios de Mizra,
Os litores romanos precedendo os cônsules,
Os antigos guerreiros europeus com o seu machado em combate,
O braço erguido, o barulho das pancadas nas cabeças com capacete,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 197] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O lamento de morte, a queda de um corpo flácido, a correria dos amigos e inimigos para o local da queda,
O cerco aos vassalos revoltosos determinados a obter sua liberdade,
As ameaças para que se rendam, as baterias sobre os portões do castelo, o armistício e as negociações,
O saque de uma antiga cidade em seu tempo,
O estouro dos mercenários e fanáticos entrando, desordenadamente e em tumulto,
O bramido, as chamas, o sangue, a embriaguez, a loucura,
Os bens livremente roubados das casas e dos templos, os gritos das mulheres agarradas por bandidos,
A malícia e a gatunagem dos agregados do exército, homens correndo, idosos desaparecendo,
O inferno da guerra, as crueldades das religiões,
A lista de todos os feitos executivos e as palavras justas e injustas,
O poder da personalidade justa ou injusta.


4

Músculo e coragem para sempre!
Aquilo que dá vigor à vida dá vigor também à morte,
E a morte faz avançar tanto quanto a vida faz avançar,
E o futuro não é mais incerto do que o presente,
Pois a aspereza da terra e do homem encerra o mesmo tanto de delicadeza da terra e do homem,
E nada perdura, senão as qualidades pessoais.

O que pensas que resiste ao tempo?
Julgas que uma grande cidade dura para sempre?
Ou um Estado industrial produtivo? Ou uma bem elaborada constituição? Ou os navios mais bem construídos?
Ou os hotéis de granito e ferro? Ou qualquer chef-d'oeuvres da engenharia, fortes, armamentos?
Fora! Nada disso deve ser cultivado com afeto,
Eles cumprem o seu momento, os dançarinos dançam, os músicos tocam para eles,
O espetáculo passa, que tudo tenha a sua performance boa o suficiente, é claro,
Tudo vai muito bem até que surge um clarão de desafio.


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Uma grande cidade é aquela que contém os melhores homens e mulheres,
Se ela só tiver algumas cabanas rotas ainda assim é ela a maior cidade do mundo inteiro.


5

Uma grande cidade não está situada onde estão instalados ancoradouros, docas, indústrias, depósitos de produção apenas,
Nem é o lugar em que a todo momento se dá boas-vindas aos novos moradores ou onde se levanta a âncora dos que se vão,
Nem é o lugar dos mais altos e mais caros edifícios ou das lojas em que se vendem os produtos do resto do mundo,
Nem é o lugar das melhores livrarias e escolas, nem o lugar em que há muito dinheiro,
Nem o local de maior concentração populacional.

Onde a cidade se ergue com a raça mais vigorosa de oradores e bardos,
Onde a cidade se ergue sendo amada por eles e os ama em retorno e os compreende,
Onde não há monumentos erigidos para heróis, mas para homenagear as palavras e os feitos comuns,
Onde a frugalidade predomina e onde a prudência está em seu lugar,
Onde os homens e as mulheres pensam com tranqüilidade sobre as leis,
Onde não há escravos, nem mestres de escravos,
Onde a populaça se ergue de uma vez contra a audácia infinita das autoridades eleitas,
Onde homens e mulheres furiosos se derramam como o assobio da morte derrama as suas ondas arrebatadoras e incontroláveis,
Onde a autoridade externa vem depois da autoridade interna que a precede,
Onde os cidadãos são sempre a cabeça e o ideal, e Presidente, Prefeito, Governador e tudo mais, são agentes de cobrança,
Onde as crianças aprendem a ser a lei para si mesmas e depender de si mesmas,
Onde a equanimidade é ilustrada em obras,
Onde as especulações sobre a alma são encorajadas,
Onde as mulheres andam nos passeios públicos e nas ruas com os mesmos direitos que os homens,
Onde elas entram na assembléia pública e se sentam nos mesmos lugares que os homens;



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Onde a cidade dos amigos mais leais se ergue,
Onde a cidade da castidade dos sexos se ergue,
Onde a cidade dos pais mais saudáveis se ergue,
Onde a cidade das mães com os melhores corpos se ergue,
Ali se ergue a maior das cidades.


6

Quão miseráveis são os argumentos perante um feito desafiador!
Como a florescência dos materiais da cidade murcha se comparada com o olhar de um homem ou de uma mulher!

Tudo espera e passa automaticamente até que um ser forte apareça;
Um ser forte é a prova da raça e da habilidade do universo,
Quando ele ou ela aparecem o que é material se intimida,
Cessa a disputa na alma,
Os velhos costumes e as frases são confrontados, rejeitados ou descartados.

O que são agora os teus ganhos financeiros? O que podem eles fazer agora?
O que é agora a tua respeitabilidade?
O que é a tua teologia, instrução, sociedade, tradições, estatutos, agora?
Onde estão agora as tuas zombarias sobre o ser?
Onde estão as tuas críticas sobre a alma agora?


7

Uma terra estéril cobre os minérios, ali estão os que são tão quanto os demais, por todas as aparências proibidas,
Há as minas, há os mineiros,
A fornalha da forja está lá, a fundição está sendo feita, os ferreiros estão a postos com suas tenazes e marretas,
Aquilo que sempre serviu e serve sempre está à mão.

Então esse nada serviu melhor, serviu a tudo,
Serviu ao grego sensível de linguajar fluente, e serviu àqueles que vieram muito antes dos gregos,
Serviu para construir os edifícios que duraram muito mais que todos os demais,
Serviu aos hebreus, aos persas e aos mais antigos industaneses,
Serviu à construção da barragem no Mississippi, serviu àqueles



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 200] - - - - - - - - - - - - - - - - -



cujas relíquias permanecem na América Central,
Serviu aos Templos álbicos, nas florestas ou nos planaltos, com colunas não entalhadas e os druidas,
Serviu às rachas artificiais, vastas, altas, silenciosas, nas montanhas cobertas de neve da Escandinávia,
Serviu àqueles que, em tempo imemorial, fizeram em paredes de granito pinturas primitivas do sol, da lua, das estrelas, dos navios, das ondas do oceano,
Serviu aos caminhos de ataque dos godos, serviu às tribos pastoris e aos nômades,
Serviu ao distante celta, serviu aos intrépidos piratas do Báltico,
Serviu, antes que a quaisquer daqueles, aos homens veneráveis e inofensivos da Etiópia,
Serviu para a fabricação dos lemes das galés do prazer e das galés de guerra,
Serviu a todas as grandes obras na terra e a todas as grandes obras no mar,
Para as idades medievais e antes das idades medievais,
Serviu não apenas aos vivos daqueles dias e aos de agora, mas serviu também aos mortos.


8

Vejo o carrasco europeu,
Ele está imóvel com sua máscara, tem pernas enormes e braços fortes e nus,
Sustentando-se sobre um pesado machado.

(Quem foi tua vítima mais recente, carrasco europeu?
De quem é o sangue que está sobre ti, tão líquido e pegajoso?)

Contemplo o claro pôr-do-sol dos mártires,
Vejo pelos patíbulos os fantasmas que descem,
Fantasmas de senhores mortos, damas nunca coroadas, ministros depostos, reis rejeitados,
Rivais, traidores, chefes que caíram em desgraça e os demais.

Vejo aqueles que em quaisquer terras morreram pela boa causa,
A semente é escassa e, contudo, a plantação jamais há de ter fim
(Penso em vós, ó reis estrangeiros! Ó padres, a plantação jamais há de ter fim.)



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 201] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vejo o sangue do machado sendo inteiramente lavado,
Ambos, a lâmina e o cabo estão limpos,
Eles não mais fazem jorrar o sangue dos nobres europeus, eles não mais pressionam os pescoços das rainhas.

Vejo o carrasco retirar-se e tornar-se inútil,
Vejo o patíbulo vazio e bolorento, não vejo mais qualquer machado sobre ele,
Vejo o brasão poderoso e amigo do poder de minha própria raça, a mais nova, a mais ampla raça.


9

(América! Não ostento o meu amor por ti,
Tenho o que tenho.)

O machado salta!
As florestas sólidas derramam seiva de expressões vocais,
Elas caem, elas se erguem e criam a forma,
Cabana, tenda, desembarcadouro, mapa,
Mangual, charrua, alvião, pé-de-cabra, enxadão,
Sarrafo, balaustrada, escora, lambril, batente, ripa, painel, espigão,
Cidadela, forro, taverna, academia, órgão, casa de exposições, biblioteca,
Sanefa de cortina, pilastra, sacada, janela, torre, varanda,
Enxada, ancinho, forquilha, lápis, vagão, bastão, serra, plaina, marreta, cunha, manilha,
Cadeira, barril, aro, mesa, portinhola, ventoinha, corrediço, chão,
Caixa de ferramentas, baú, instrumento de corda, barco, moldura e o tudo o mais,
Capitólio dos Estados e capitólio da nação dos Estados,
Alas imponentes e longas nas avenidas, hospitais para órfãos ou para os pobres ou doentes,
Barcos a vapor de Manhattan e veleiros velozes mapeando todos o mares.

As formas surgem!
Formas do uso dos machados de qualquer maneira e dos que os usam e de seus vizinhos,
Cortadores de madeira e rebocadores dela para o Penobscot ou Kennebec,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 202] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Residentes em cabanas entre as montanhas californianas ou pelos pequenos lagos, ou em Colúmbia,
Residentes do sul nas margens do Gila ou Rio Grande, encontros amigáveis, os personagens e a diversão,
Residentes ao longo do St. Lawrence, ou no norte do Canadá, ou abaixo em Yellowstone, residentes das costas e do interior,
Pescadores de foca, baleeiros, marinheiros do ártico rompendo as passagens através do gelo.

As formas surgem!
Formas de fábricas, arsenais, fundições, mercados,
Formas de trilhos duplos das estradas de ferro,
Formas dos dormentes das pontes, amplas estruturas, vigas mestras, arcos,
Formas das frotas de barcaças, reboques, embarcações de lagos e canais, embarcações de rios,
Estaleiros e diques secos ao longo dos mares do leste e do oeste e em muitas baías e aldeias,
As sobrequilhas feitas de carvalho americano, as pranchas de pinho, os mastros, as raízes de lariço para os joelhos,
Os navios singrando a seus destinos, as bancadas dos patíbulos, o trabalho dos homens ocupados fora e dentro da embarcação,
As ferramentas esparramadas, a grande sonda e a pequena sonda, enxó, cavilha, linha, esquadro, cinzel, e plaina.


10

As formas surgem!
A forma medida, serrada, içada, unida, manchada,
A forma de caixão para que o morto ali jaza em seu sudário,
A forma se manifestou nas cabeceiras, nas cabeceiras da cama, na cabeceira da cama da noiva,
A forma da pequena gamela, a forma da parte debaixo das cadeiras de balanço, a forma do berço do bebê,
A forma das tábuas do chão, o chão de tábuas para os pés dos dançarinos,
A forma das tábuas da casa de família, a casa dos pais amigáveis e de seus filhos,
A forma do telhado da casa do jovem feliz e sua esposa, o telhado sobre o jovem homem e a jovem mulher recém-casados,
O telhado sobre o jantar feito com prazer pela esposa casta e



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 203] - - - - - - - - - - - - - - - - -



comido prazerosamente pelo casto marido, satisfeito após o seu dia de trabalho.

As formas surgem!
A forma do assento do prisioneiro na sala da corte e a dele ou a dela que se senta ali,
A forma do balcão de bar no qual se apóiam o jovem bebedor de rum e o velho bebedor de rum,
A forma dos degraus envergonhados e nervosos, pisados pelos passos sorrateiros,
A forma do sofá dissimulado e o do insalubre casal adúltero,
A forma da mesa de jogo com seu poder diabólico de ganhos e perdas,
A forma do patíbulo para o assassino condenado e sentenciado, o assassino com a face desfigurada e braços manietados,
O delegado próximo com seus assistentes, a multidão silenciosa de lábios brancos, a oscilação da corda.

As formas surgem!
Formas de portas concedendo muitas saídas e entradas,
A porta que dá passagem ao amigo prejudicado, vermelho e apressado,
A porta que admite boas e más notícias,
A porta por onde o filho saiu de casa confiante e vaidoso, ausência, doente, alquebrado, com a inocência perdida, sem meios.


11

A forma dela surge,
Ela menos protegida do que nunca e, contudo, mais bem protegida do que nunca,
Os obscenos e sujos em meio aos quais ela anda não fazem dela obscena e suja,
Ela conhece os pensamentos dos outros enquanto passa, nada está oculto para ela,
Ela não é a menos atenciosa ou amigável para esse fim,
Ela é a mais amada, não há exceção, ela não tem razões para temer e não teme,
Juramentos, brigas, canções repletas de soluços, expressões obscenas, são inúteis para ela quando passa,
Ela está em silêncio, tem o domínio de si, eles não a ofendem,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 204] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Ela os recebe tal qual a lei da Natureza os recebe, ela é forte,
Ela também é uma lei da Natureza — não há lei mais forte do que ela.


12

Surgem as formas principais!
Formas de Democracia total, resultado de séculos,
Formas sempre projetando outras formas,
Formas de cidades turbulentas de homens,
Formas dos amigos e de anfitriões da terra inteira,
Formas abraçando a terra e abraçadas à terra inteira.



Canção à exposição

1

(Ah, o pouco caso que se faz do trabalhador,
Quão próximo de Deus o seu trabalho o mantém,
O amoroso trabalhador através do espaço e do tempo.)

Afinal, não se trata apenas de criar ou de fundar algo,
Mas, talvez, seja o ato de trazer de longe aquilo que já foi fundado,
Dar a ele nossa própria identidade, mediana, sem limite, livre,
Contagiar a maioria bruta e apática com o fogo religioso vital,
Não para repelir ou destruir tanto quanto para aceitar, fundir, reabilitar,
Obedecer tanto quanto dirigir, seguir mais do que liderar,
Essas também são as lições de nosso Mundo Novo;
E se vê quão pouco há de Novo afinal, e quanto do Velho, Velho Mundo!

Por muito e muito tempo a relva tem crescido,
Por muito e muito tempo a chuva tem caído,
Por muito e muito tempo a Terra tem girado.


2

Vem, Musa, emigra da Grécia e da Jônia,
Cancela, por favor, aquelas imensas dívidas já tão pagas,
Aquela questão de Tróia e a da ira de Aquiles, e Enéas, as andanças de Odisseu,
Nos rochedos de teu níveo Parnaso está anunciado "mudamos" e "aluga-se",
Repete-o em Jerusalém, coloca um sinal bem alto no portão de Jafa e no Monte Moriá,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 205] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Faze o mesmo nas paredes dos teus castelos alemães, franceses e espanhóis e nas coleções italianas,
Para que se possa conhecer uma esfera melhor, mais nova e mais dinâmica, um domínio amplo, não experimentado te espera, e pede por ti.


3

Respondendo ao nosso apelo,
Ou ainda mais à sua própria inclinação, longamente alimentada,
Unida a uma força gravitacional irresistível, natural,
Ela vem! Ouço o som produzido pelo roçar das suas vestes,
Sinto o perfume da fragrância deliciosa de seu hálito,
Registro o seu passo divino, seus olhos curiosos que se voltam, agitando-se,
Nesta cena específica.

A dama das damas! Posso crer, então,
Que aqueles templos antigos e as esculturas clássicas não poderiam retê-la?
Nem as sombras de Virgílio e de Dante, nem miríades de recordações, poemas, velhas associações que se magnetizam e a ela aderem?
Mas que ela a todos abandonou — e aqui?

Sim, se assim me permitirdes dizer,
Eu, meus amigos, caso vós não o façais, posso vê-la em sua totalidade,
A mesma alma imortal da expressão da terra, da atividade, da beleza, do heroísmo,
Desde as suas evoluções até aqui, consolidando as camadas de seus temas antigos,
Escondida e ocultada pelo hoje, mas alicerce do hoje,
Acabada, finada através do tempo, sua voz pela fonte da inspiração,
Silenciosa está a Esfinge egípcia de lábio quebrado; silenciosas estão as tumbas de séculos desconcertantes,
Terminados para sempre os épicos dos soldados de capacete da Ásia, da Europa, encerrados os chamados primitivos pelas musas,
O brado de Calíope para sempre abafado, Clio, Melpomene, Talia mortas,
Acabados os ritmos faustosos de Una e Oriana, finda a busca pelo Santo Graal,
Jerusalém? — um punhado de cinzas soprado pelo vento, extinta,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 206] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



As linhas das tropas sombrias dos Cruzados à meia-noite, aceleradas ao amanhecer,
Amadis, Tancredo, absolutamente terminados, Carlos Magno, Rolando, Oliver, findos,
Palmerin, ogro, se foram, desapareceram as torres que as águas do Usk refletiam,
Arthur desaparecido com todos os seus cavaleiros, Merlin e Lancelot e Galahad, todos terminados, dissolvidos inteiramente como uma exalação;
Passados! Passados! Para nós, para sempre passado, aquele mundo que foi um dia tão poderoso, agora nulo, inanimado, mundo fantasmagórico,
Mundo de encantos bordado, mundo estranho, com todas as suas lendas deslumbrantes, seus mitos,
Seus reis e castelos orgulhosos, seus sacerdotes e senhores bélicos e damas elegantes,
Passaram para a abóbada de sua câmara mortuária, enterrados com coroa e armadura,
Proclamados nas páginas púrpuras de Shakespeare,
E cantados nas rimas doces de Tennyson.

Digo que vejo, meus amigos, se não vedes, a ilustre emigrante (embora a mesma de seus dias, transformada durante a considerável jornada percorrida),
Vinda diretamente para este encontro, com vigor, abrindo um caminho para si mesma, avançando através da confusão,
Pela batida surda das máquinas e pelo apito estridente e incessante do vapor,
Nem um pouco engolida pelo cano de escoamento, gasômetros, fertilizantes artificiais,
Sorrindo e contente com a intenção palpável de permanecer,
Ela está aqui, instalada em meio aos utensílios da cozinha!


4

Mas esperai — será que me esqueço dos bons modos?
É preciso apresentar a estranha (de fato, o que mais vivo para cantar?) para ti, Colúmbia;
Em nome da liberdade, bem-vinda, imortal! Batei palmas,
E, doravante, que sejam ambas minhas queridas irmãs.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 207] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Não temas, ó Musa! Pois recebes novos caminhos e novos dias em torno de ti,
Confesso candidamente uma falsificação: falsa raça, de um novo aspecto,
E contudo é ainda a mesma antiga raça humana, a mesma por dentro e por fora,
As faces e os corações são os mesmos, os sentimentos são os mesmos, os mesmos anelos,
O mesmo antigo amor, a beleza e o uso dos mesmos.


5

Não te culpamos, mundo antigo, nem de fato nos apartamos de ti,
(Poderia o filho apartar-se de seu pai?)
Voltando-nos para ver-te, vendo-te no cumprimento de teus deveres, de tuas grandezas, inclinando-te através das eras passadas, construindo,
Construímos no dia de hoje.

Mais poderosa do que as tumbas egípcias,
Mais bela que os templos da Grécia e de Roma,
Mais orgulhosa que a catedral espiralada de Milão com suas estátuas,
Mais pitoresca que as relíquias dos Castelos do Reno,
Planejamos hoje nos erguer para além de tudo isso,
Nessa grande catedral de sagrada indústria, não no interior de uma tumba,
Uma relíquia da vida por prática invenção.

Como num sonho de olhos abertos,
Enquanto canto, vejo-o levantar-se, examino-o minuciosamente e profetizo por fora e por dentro,
Sua diversidade enfeixada na unidade.

Em sua volta, um palácio mais alto, mais belo, maior que qualquer outro até então,
Maravilha moderna da Terra, deixando para trás as sete maravilhas históricas,
Subindo alto, andar sobre andar, com fachadas de aço e vidro,
Embelezando o sol e o céu, colorido com as cores mais vivas,
Bronze, lilás, ovo de pisco-de-peito-ruivo, marinho e carmesim,
Sobre o telhado dourado de quem há de ostentar, abaixo do teu pendão de liberdade,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 208] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



As bandeiras dos Estados e de todas as terras,
Uma geração de altivos, belos, contudo inferiores palácios que há de se reunir.

Em algum lugar no interior de seus muros há de surgir tudo aquilo que faz evoluir a vida humana para a perfeição,
Testado, ensinado, avançado, visivelmente exibido.

Não apenas todo o mundo das profissões, do comércio, dos produtos,
Mas cada um dos trabalhadores do mundo aqui para ser representado.

Aqui hás de registrar em uma operação graciosa,
Em cada estado no movimento prático da turba, os rios da civilização,
Os materiais aqui hão de ter suas formas alteradas diante de teus olhos como que por mágica,
O algodão há de ser colhido em quase todos os campos,
Há de ser seco, limpo, descaroçado, embalado, fiado e transformado em tecido diante de ti,
Hás de ver mãos no trabalho em todos os antigos processos e em todos os novos processos,
Hás de ver os diversos grãos e que a farinha é produzida e, então, o pão é cozido por padeiros,
Hás de ver os metais brutos da Califórnia e de Nevada sendo processados repetidamente até tornarem-se barras preciosas,
Hás de assistir ao impressor preparando os tipos, e aprender o que é um componedor,
Hás de registrar, deslumbrado, a máquina impressora com seus cilindros girando, emitindo as folhas impressas rápida e consistentemente,
A fotografia, o fac-símile, o relógio, o alfinete, o prego, hão de ser fabricados diante de ti.

Dentro de um salão vasto e silencioso, um museu faustoso há de ensinar-te as lições infinitas dos minérios,
Em outro, as plantas, as vegetações, hão de ser ilustradas — e, em outro, animais, a vida animal e sua evolução.

Uma construção faustosa há de ser a casa da música,
Outras haverá para outras artes — aprendendo as ciências, todas hão de estar aqui,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 209] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Nenhuma delas há de ser desprezada, todas hão de estar aqui honradas, apoiadas, exemplificadas.


6

(Essa, essa e mais essas, América, hão de ser tuas pirâmides e obeliscos,
Teu Farol de Alexandria, jardins da Babilônia,
Teu Templo de Olímpia.)

O macho e a fêmea, muitos sem trabalhar,
Hão de sempre confrontar aqui os muitos que trabalham,
Com preciosos benefícios para ambos, glória para todos,
Para ti, América, e para ti, Musa eterna.

E aqui vós haveis de morar, poderosas Matronas!
Nos vossos vastos estados, mais vastos que todo o mundo antigo,
Ecoados por muito tempo, longos séculos por vir,
Para o som de diferentes e mais orgulhosas canções, com temas mais fortes,
Vida prática, pacífica, a vida do povo, as próprias pessoas,
Soerguidas, iluminadas, banhadas no amor — elevadas, seguras na paz.


7

Fora com os temas de guerra! Fora com a própria guerra!
Que ela saia de minha visão horrorizada para nunca mais retornar com aquele espetáculo de corpos apodrecidos e mutilados!
Aquele inferno inacabado e o sangue a escorrer, adequados para os tigres selvagens ou para os lobos de língua de fora, não para os homens racionais,
E nas campanhas regulares e rápidas da indústria,
Com teus destemidos exércitos, engenharia,
Tuas bandeiras de labor, tremulando com a brisa,
Tuas cornetas soando altas e claras.

Fora com o romance antigo!
Fora com as novelas, as tramas e as peças teatrais de cortes estrangeiras,
Fora com os versos de amor adocicados pela rima, as intrigas, os amores dos diletantes,
Adequados somente para os banquetes noturnos em que dançarinos deslizam ao som de música tarde demais,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 210] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Os prazeres insalubres, as dissipações extravagantes de uns poucos,
Com perfumes, calor e vinho, debaixo dos candeeiros estonteantes.

Para vós, irmãs reverentes e sãs,
Ergo uma voz por temas muito mais esplêndidos, por poetas e pela arte,
Para exaltar o presente e o real,
Para ensinar ao homem comum a glória de sua caminhada cotidiana e de seus negócios,
Para cantar em canções que o exercício e a vida química jamais devem ser confundidos,
Para o trabalho manual de cada um e de todos: arar, capinar, cavar,
Plantar e cultivar a árvore, a amora, os vegetais, as flores,
Garantindo que todo homem realmente faça algo e toda mulher também;
Usar o martelo e a serra (serrar em direção ao veio ou com o corte transversal),
Cultivar um turno para a carpintaria, o reboco, a pintura,
Trabalhar como alfaiate, costureira, enfermeira, cavalariço, carregador,
Inventar um pouco, algo engenhoso, para facilitar o trabalho de lavar roupas, a culinária, a limpeza,
E não considerar que seja uma desgraça colocar a mão na massa nessas tarefas.

Digo que te trago, Musa, para o aqui e para o agora,
Todas as ocupações, deveres longínquos e próximos,
Faina, faina salutar e suor, infinita, incessante,
O antigo, os fardos de afazeres antigos, interesses, prazeres,
A família, os parentes, as crianças, marido e esposa,
Os confortos da casa, a casa em si e todos os seus pertences,
A comida e os preparativos para preservá-la, a química usada para esse fim,
Homens e mulheres de quaisquer tipos, médios, fortes, completos, de sangue doce, a personalidade perfeita e longeva,
E o auxílio à sua vida presente, para que tenham saúde e felicidade e a preparação de sua alma,
Para a vida eterna que virá.

Com as conexões mais recentes, as obras, as interfaces do transporte mundial,
A força do vapor, as grandes linhas expressas, o gás, o petróleo,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 211] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Esses triunfos de nosso tempo, o cabo delicado que atravessa o Atlântico,
A estrada de ferro do Pacífico, o canal de Suez, o Monte Cenis e os túneis Gothard e Hoosac, a ponte do Brooklyn,
Essa terra toda riscada de trilhos de aço, com as linhas dos navios a vapor cortando todos os mares,
Nosso próprio traçado circular, o globo que eu mesmo trago.


8

E tu, América,
Tua geração se elevando tão alto, e mais alta ainda estás tu, sobre todas as coisas,
Com a vitória à tua esquerda e, à tua direita, a Lei;
Tua União a tudo abraçando, fundindo, absorvendo, tolerando tudo,
A ti, sempre a ti, eu canto.

Tu, também tu, Mundo,
Com toda a tua vasta geografia, múltipla, diferente, distante,
Unida em tua redondeza, uma única e comum linguagem orbital,
Um único indivisível destino para Todos.

E pelos feitiços que tu outorgaste àqueles teus minis cuidadosamente,
Eu aqui personifico e invoco meus temas, para fazê-los passar perante tu.

Contempla, América! (e tu, inefável convidada e irmã!)
Por ti vêm se agrupando as tuas águas e as tuas terras;
Contempla! Teus campos e fazendas, tuas florestas e montanhas distantes,
Como numa procissão se aproximam.

Contempla o próprio mar,
E no seio erguido de suas dimensões ilimitadas, os navios;
Vê onde suas velas brancas, estufadas pelo vento, salpicam o verde e o azul,
Vê os navios a vapor que vêm e vão, atracando ou deixando os portos,
Vê, escurecidas e ondulantes, as compridas flâmulas feitas de fumaça.

Contempla, no Oregon, ao longe, no norte e no oeste,
Ou no Maine, ao longe no norte e no leste, teus alegres lenhadores,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 212] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Esgrimindo o dia inteiro seus machados.

Contempla, nos lagos, teus timoneiros em seus postos, teus remadores,
E como o pó se estorce sob aqueles braços musculosos!

Ali, aos pés da fornalha, e ali, aos pés da bigorna,
Contempla os teus robustos ferreiros manejando seus malhos,
Com o braço erguido tão sólido, com o braço erguido que se vira e cai com prazeroso estrépito,
Qual comoção de risos.

Registra o espírito da invenção em toda parte, tuas patentes repentinas,
Tuas oficinas incessantes, fundições, erguidas ou se erguendo,
Contempla, das chaminés, o modo como o fluxo das altas chamas sobe.

Registra tuas fazendas intermináveis, norte, sul,
Teus estados que são teus filhos ricos, no leste e no oeste,
Os produtos variados de Ohio, da Pensilvânia, do Missouri, da Geórgia, do Texas e dos demais Estados,
Tuas plantações ilimitadas, a relva, o trigo, o açúcar, o óleo, o milho, o arroz, o cânhamo e o lúpulo.
Todos os teus celeiros repletos, o infinito trem de carga e o armazém transbordante,
Tuas uvas amadurecidas em tuas vinhas, as maçãs em teus pomares,
Tua madeira incalculável, carne bovina, carne suína, batatas, carvão, ouro e prata,
O inexaurível ferro de tuas minas.

Tudo teu, ó sagrada União!
Navios, fazendas, lojas, celeiros, fábricas, minas,
Cidade e Estado, Norte, Sul, cada item e o acúmulo deles,
A ti dedicamos, Mãe respeitável!

Protetora absoluta, tu! Bastião de tudo!
Bem sabemos que enquanto tu concedes a cada um e a todos generosa como Deus),
Sem ti, nem todos nem cada um, nem terra, nem casa,
Nem navio, nem mina, nem este dia pode ser garantido,
Nem coisa alguma, nem dia algum pode ser garantido.




- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 213] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



9

E tu, Emblema que tremula sobre tudo!
Beleza delicada, uma palavra para ti (poderá ser salutar),
Recorda que nem sempre estiveste aqui, tal como agora, tão confortavelmente soberana,
Em circunstâncias outras, diferentes, já te encontrei, ó Bandeira,
Não tão bem aprumada e inteira, renovadamente viçosa em tuas dobras de seda, sem mancha qualquer,
Já te vi em pano grosseiro, em farrapos e pendente de uma haste lascada,
Ou abraçada ao peito de pelos negros de algum jovem cujas mãos denunciam desespero,
No centro de uma luta selvagem, de vida e morte, luta travada por longo período,
Ao som das trovoadas dos canhões e das imprecações e dos gemidos e brados, e o estampido agudo das salvas de tiros de rifles,
E as massas de soldados que avançam como demônios selvagens emergentes e as vidas arriscadas como se fossem nada,
E teus poucos sobreviventes horrendos pela sujeira, a fumaça e o sangue coagulado,
Em teu nome, minha bela, e para que agora pudesses brincar em segurança cá em cima,
Vi muitos homens bons que entregaram suas vidas.
Agora e aqui são estes, doravante em paz, todos teus, ó Bandeira!
E aqui e doravante por ti, ó Musa universal! E tu por eles!
E aqui e doravante, ó União, todo o trabalho e todos os trabalhadores são teus!
Nenhum separado de ti — de agora em diante apenas um, nós e tu,
(Pois o sangue dos filhos, o que é senão o próprio sangue da mãe?
E vidas e trabalhos, o que são afinal senão as estradas para a fé e para a morte?)

Quando ensaiamos nossa riqueza imensurável, é por ti, querida Mãe,
Que possuímos tudo isso, e muito disso hoje é indissolúvel em ti;
Não enxergues nosso canto, nosso espetáculo, apenas como uma forma de faturamento bruto ou lucro — é tudo por ti, a alma que está em ti, elétrica, espiritual!
Nossas fazendas, invenções, plantações, nós as possuímos em ti! Cidades e Estados em ti!
Nossa liberdade toda está em ti, nossas próprias vidas estão em ti!




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Canção da sequóia

1

Uma canção da Califórnia,
Uma profecia e uma dissimulação, um pensamento imponderável para se respirar como se respira o ar,
Um coro de Dríades desvanecendo, partindo, ou Hamadríades partindo,
Uma voz gigante, decisiva, murmurante, fora da terra e do céu,
Voz da poderosa árvore moribunda na densa floresta de sequóias.

Adeus, meus irmãos!
Adeus, ó terra e céu, adeus, águas próximas,
Meu tempo chegou ao fim, meu término está aqui.

Ao longo da costa do norte,
Logo ao sair do litoral repleto de rochedos e cavernas,
No ar salino do mar no interior de Mendocino,
Tendo o marulho das ondas por acompanhamento baixo e rouco,
Com o estampido dos golpes dos machados, como se estivessem sendo musicalmente dirigidos por braços fortes,
Rasgada em profundidade pelas lâminas afiadas dos machados, lá na floresta densa das sequóias,
Ouvi a árvore poderosa cantar o seu canto de morte.

Os lenhadores não ouviram, as barracas do acampamento não ecoaram,
Os condutores de ouvido aguçado e os maquinistas não ouviram
Quando os espíritos da floresta vieram de seu refúgio de mil anos para também cantar o refrão,
Mas em minha alma a tudo ouvi.

O murmúrio que se eleva de suas milhares de folhas,
E a partir de sua copa, elevando-se a duzentos pés de altura,
De seu tronco firme e de seus galhos, de sua casca com um pé de espessura,
Aquele canto das estações e do tempo, canto que não era apenas do passado, mas do futuro.

Tu, vida não revelada de mim,
E todos vós, prazeres inocentes e veneráveis,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 215] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Vida perene e robusta de mim com seus prazeres, em meio à chuva e sob muitos sóis de verão,
E as neves brancas e a noite e os ventos selvagens;
Ó grandes, pacientes e ásperas alegrias, os prazeres fortes de minha alma desprezados pelo homem
(Pois sabei que carrego uma alma adequada a mim, também tenho consciência, identidade,
E todas as rochas e montanhas têm, e toda a Terra.)
Alegrias da vida se adequando a mim e aos meus irmãos,
Nosso tempo chegou ao fim.

Não nos rendemos com pesar, irmãos majestosos,
Nós que de modo grandioso vivemos nosso tempo;
Com o calmo contentamento da Natureza, com imenso e tácito deleite,
Acolhemos com alegria aqueles que forjamos no passado,
E entregamo-lhes o campo.

Por eles predissemos longamente,
Por uma raça mais esplêndida, eles também, grandiosamente, vivem o seu tempo,
Por eles renunciamos, neles seremos os reis da floresta!
Neles estarão esses céus e esses ares, os picos dessas montanhas, Shasta, Nevadas,
Esses imensos precipícios, essa amplitude, esses vales, o longínquo Yosemite,
Para estarmos neles absorvidos, assimilados.

Então, para um esforço mais elevado,
Ainda mais orgulhoso, mais extático se ergueu o canto,
Como se os herdeiros, as divindades do Oeste,
Unindo-se à língua mestra, tomassem parte do coro.

Não abatida em virtude dos fetiches da Ásia,
Nem vermelha pelo antigo matadouro dinástico da Europa,
(Área de assassinatos e tramóias dos tronos que ainda guarda o cheiro da guerra e dos patíbulos por toda parte.)
Mas vindo das longas e inofensivas agonias da Natureza, construídas pacificamente desde então,
Estas terras virgens, terras do litoral Ocidental,
Para o novo o homem culminando, para ti, o novo império,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 216] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Tu, que por longo tempo foste prometido, a ti nós juramos, a ti homenageamos.

Vós, volições profundas e ocultas,
Tu, virilidade espiritual, propósito de tudo, equilibrada em ti está a lei que manda dar e não receber,
Tu, feminilidade divina, amante e fonte de tudo, procedência da vida e do amor e de tudo o que deriva da vida e do amor,
Tu, essência moral invisível de todos os vastos elementos da América, (era após era trabalhando para a morte tanto quanto para a vida.)
Tu, que algumas vezes conhecida, quase sempre anônima, de fato moldou e deu forma ao Novo Mundo, ajustando-o ao Tempo e ao Espaço,
Tu, vontade nacional camuflada jazendo em teus abismos, recôndita mas sempre alerta,
Tu, propósitos do presente e do passado, persistentemente perseguidos, talvez inconscientes de si mesmos,
Inamovível perante todos os erros do passado, que para ti são apenas perturbações da superfície;
Vós, germens vitais, universais, imorredouros, subjacentes a todos os credos e às artes e aos estatutos e às literaturas,
Erguei aqui vossos lares para sempre, estabelecei-vos aqui, nessas áreas inteiras, terras do litoral Ocidental,
Nós juramos por ti e te homenageamos.

Quanto ao homem de ti, de tua raça característica,
Que ele possa aqui crescer robusto, doce, gigantesco, que se eleve a uma altura proporcional à da Natureza,
Possa ele aqui escalar os espaços vastos, puros e abertos, não cercados por paredes ou telhados,
Que ele possa, aqui, rir com a tempestade ou com o sol, ser alegre, habituar-se pacientemente,
Possa ele aqui concentrar-se em si mesmo, desdobrar-se (não se espelhar em fórmulas alheias), e aqui sentir o seu tempo,
Cair na hora devida, socorrer, esquecido ao final,
Desaparecer, servir.

Assim, no litoral norte,
Ao eco do chamado do condutor e do tinido das correntes, ao som



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da música dos machados dos lenhadores,
A queda do tronco e dos galhos, o estrondo, o grito agudo abafado, o gemido,
Tais palavras articuladas pela sequóia, como vozes extáticas, antigas e sussurrantes.
Os cem anos de duração, as dríades invisíveis, cantando, retirando-se,
Deixando todos os seus esconderijos nas florestas e nas montanhas
Dos limites da cachoeira até Wahsatch, ou de longe, em Idaho ou Utah,
Até às divindades modernas, de agora em diante cedendo seu lugar,
O coral e as indicações, a visão da humanidade vindoura, as colonizações, tudo isso aparecendo,
Nas florestas de Mendocino percebi.


2

O carro alegórico cintilante e dourado da Califórnia,
O repentino e deslumbrante drama, as terras amplas e ensolaradas,
O longo e diversificado avanço do som de Puget até o sul do Colorado,
Terras banhadas por um ar mais doce, mais raro, mais saudável, vales e despenhadeiros de montanhas,
Os campos da natureza preparados longamente e sem cultivo, a química silenciosa e cíclica,
As vagarosas e estáticas eras laboriosas, a superfície desocupada dando frutos, a riqueza dos minérios se formando por baixo;
Finalmente, o Novo chegando, assumindo, tomando posse,
Uma raça populosa e dinâmica colonizando e se organizando por toda parte,
Navios atracando, vindos de todas as regiões do mundo, e partindo para o mundo todo,
Para a Índia e a China e a Austrália e mil ilhas paradisíacas do Oceano Pacífico,
Cidades populosas, as mais recentes invenções, os barcos a vapor nos rios, as estradas de ferro, passando pelas muitas fazendas florescentes, com suas máquinas,
E a lã e o trigo e a uva, e as escavações de ouro amarelo.


3

Mas há mais em ti do que isso, terras do litoral oeste,
(Esses são apenas os meios, os implementos, o solo de sustentação.)
Vejo em ti, certo de que virá, a promessa de mil anos, até agora deferida,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 218] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Promessa para ser cumprida, nosso tipo comum, a raça.

A nova sociedade afinal, harmonizada à natureza,
No homem teu, mais do que nos picos de tuas montanhas ou nas firmes árvores imperiais,
Na mulher tua, mais, muito mais do que em todo o teu ouro ou em tuas vinhas, e até mesmo no teu ar vital.

Renovação que chega, para um novo mundo de fato, mas que por muito tempo foi preparado,
Vejo o gênio da modernidade, filho do real e do ideal,
Limpando o solo para a ampla humanidade, a América verdadeira, herdeira de um passado tão grandioso,
Para edificar um futuro ainda maior.



Uma canção para as profissões

1

Uma canção para as profissões!
No trabalho dos motores e no comércio e nas labutas dos campos, encontro os desenvolvimentos,
E encontro os significados eternos,

Operários e operárias!
Se todos os aprendizados práticos e ornamentais que há em mim fossem bem apresentados, qual seria o resultado de sua soma?
Se eu fosse como o professor-mentor, o proprietário caridoso, o sábio estadista, qual seria a síntese de meus conhecimentos?
Se eu fosse como o patrão que te emprega e te paga, ficarias satisfeito?

O erudito, o virtuoso, o benevolente e o que se utiliza dos termos costumeiros,
Um homem como eu jamais se utiliza deles.

Não sou servo nem sou mestre,
Meu preço não é tão alto nem tão pequeno, terei o que é meu, independentemente daqueles que gostarem de mim,
Estarei igualado a ti e tu estarás igualado a mim.

Se trabalhares em uma oficina, trabalharei próximo de ti, serei o mais próximo de ti na mesma oficina,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 219] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Se deres presentes para teu irmão ou para teu amigo mais querido, quererei presentes tão bons quanto os de teu irmão ou eu amigo mais caro,
Se teu amante, marido, esposa, for acolhido de dia ou à noite, também devo receber pessoalmente o mesmo acolhimento,
Se te tornares um degenerado, criminoso, doente, tornar-me-ei o mesmo por amor a ti,
Se te lembrares de teus feitos estúpidos e ilegais, pensas que não poderei me lembrar de meus próprios feitos estúpidos e ilegais?
Se à mesa farreares, farrearei no lado oposto da mesa,
Se encontrares um estranho nas ruas e o amares ou a amares, sabe que também me encontro com estranhos na rua com freqüência e os amo.

Por que pensas assim sobre ti mesmo?
És tu aquele que ao pensar sobre si mesmo se diminui?
Acaso consideras o Presidente alguém maior do que tu és?
Ou pensas que o rico seja alguém melhor do que tu? Ou que o erudito é mais sábio que tu?

(Porque tens os cabelos grisalhos ou espinhas no rosto, ou porque certa vez te embriagaste ou agiste como um ladrão,
Ou pelo fato de estares doente ou reumático, ou por seres uma prostituta,
Ou porque és frígida ou impotente, ou porque não és acadêmico e nunca viste teu nome impresso,
Pensas, então, que és de algum modo menos imortal?)


2

Almas de homens e mulheres! Não vos chamo de invisíveis, inaudíveis, intocáveis e incapazes de tocar,
Não sois vós aqueles sobre quem vou debater pró e contra, não procuro estabelecer se estais vivas ou não,
Só eu possuo a revelação de quem sois, se ninguém mais possui.

Adulto, adolescente e bebê, deste país e de todos os países, dentro de habitações ou vivendo ao ar livre, vejo um tanto quanto o outro,
E tudo o mais que esteja por trás ou através deles.

A esposa, e ela não é em nada menor do que o marido,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 220] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A filha, e ela é tão boa quanto o filho.
A mãe, e ela é exatamente tal qual o pai.

Geração de ignorantes e pobres, garotos aprendizes de negócios,
Jovens camaradas trabalhando em fazendas e velhos camaradas trabalhando em fazendas,
Marinheiros, mercadores, guardas costeiros, imigrantes,
Todos esses vejo, porém mais próximos e mais distantes vejo,
Ninguém há de me escapar e ninguém há de querer me escapar.

Trago o que muito necessitas e, contudo, sempre tens,
Não o dinheiro, namorados, roupa, comida, erudição, mas algo igualmente bom,
Não envio um agente ou um médium, não ofereço representações de valor, mas ofereço o próprio valor.

Há algo que vem agora e perpetuamente,
Não é aquilo que está impresso, preconizado, discutido, pois se trata de algo que se furta à discussão e à impressão,
Não é algo para ser colocado em um livro, não está neste livro,
É para ti, não importando quem sejas, não está mais distante de ti do que a tua capacidade de escutar e de ver,
Está indicado pelos mais próximos, os mais comuns, os mais prontos, é sempre provocado por eles.

Talvez leias em muitas línguas e nada tenhas lido sobre isso,
Talvez leias a mensagem presidencial e nada leias sobre isso ali,
Nada há sobre isso nos relatórios do Departamento de Estado ou do Tesouro Nacional, ou nos jornais diários ou semanais,
Ou no censo ou nos dados do imposto de renda, nos preços em circulação, ou em quaisquer contas de aplicação em ações.


3

O Sol e os astros que flutuam no espaço,
O planeta Terra com sua forma de maçã e nós sobre a sua superfície, com certeza a força que está neles é algo grandioso,
Desconheço o poder que está neles, sei apenas que é grandioso e que é a própria felicidade,
E que o significado implícito de estarmos aqui não é uma especulação ou uma frase de efeito ou reconnoissance,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 221] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



E não é algo que possa por sorte terminar bem para nós, e pela falta de sorte terá de ser um fracasso para nós,
E não é algo que possa ser ainda retratado em uma determinada contingência.

A luz e a sombra, o curioso sentido do corpo e da identidade, a ganância que com perfeita complacência devora todas as coisas,
O infinito orgulho e a expansão do homem, alegrias e tristezas indizíveis,
O assombro que está implícito na vida de cada outro ser que se admira, e o assombro que enche cada minuto do tempo para sempre,
O que tens considerado sobre tudo isso, companheiro?
Tens reconhecido tudo isso para os teus negócios ou para o teu trabalho no campo? Ou para os lucros de tua loja?
Ou para que alcances uma posição social? Ou para preencher a necessidade de lazer de um cavalheiro ou de uma dama?

Já percebeste que a paisagem tomou substância e forma para que pudesse ser pintada em um quadro?
Ou que os homens e as mulheres poderiam se tornar tema de um livro ou ser cantados em uma canção?
Ou que a atração da gravidade e as grandes leis e harmoniosas combinações e os fluidos do ar são os sujeitos das savanas?
Ou a terra marrom e o mar azul para os mapas e cartas de navegação?
Ou as estrelas para que sejam inseridas em constelações e recebam nomes elegantes?
Ou que o crescimento das sementes se dá para os gráficos evolutivos da agricultura, ou a própria agricultura existe para esse fim?

Velhas instituições, estas artes, bibliotecas, lendas, coleções e as práticas desenvolvidas nas manufaturas, iremos nós cotá-las tão alto?
Iremos cotar o nosso dinheiro e os nossos negócios tão alto? Não faço objeção,
Atribuo a eles os mais altos valores — mas então, a uma criança nascida de uma mulher e de um homem atribuo um valor que vai além de toda a atribuição de valor.

Julgamos ser grande a nossa União e que a nossa Constituição é grandiosa,
Não digo que não sejam grandes e boas, pois são,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 222] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Passo os meus dias a amá-las tanto quanto tu as amas,
Então estou apaixonado por ti e por todos os meus companheiros sobre a face da terra.

Consideramos as bíblias e as religiões divinas — não digo que não sejam,
Digo que todas elas cresceram a partir de ti e que ainda podem surgir de ti,
Não são elas que geram a vida, tu és aquele que gera a vida,
As folhas não nascem mais a partir das árvores (nem as árvores a partir da terra) do que as religiões nascem de ti.


4

A soma de toda a reverência conhecida coloco sobre ti, a despeito de quem sejas,
O Presidente está lá na Casa Branca por ti; não estás aqui por ele,
Os Secretários agem em seus Departamentos de Estado por ti, não ages tu aqui por eles,
O Congresso se reúne a cada décimo segundo mês por ti,
Leis, cortes, a formação dos Estados, as cartas constitucionais das cidades, a ida e a vinda do comércio e da correspondência, é tudo por ti.

Inclinai-vos para ouvir, meus queridos catedráticos,
Doutrinas, políticas e civilização emergem de vós,
Esculturas e monumentos e qualquer coisa inscrita em qualquer parte é contada em vós,
O âmago das histórias e das estatísticas por mais antigos que sejam seus registros está em vós neste momento e os mitos e as lendas também,
Se não estivésseis respirando e andando aqui, onde esses registros estariam?
Os mais famosos poemas seriam cinzas, orações e peças teatrais seriam vácuo.

A arquitetura se resume naquilo que fazes a ela quando a observas,
(Pensas que ela está nas pedras brancas ou cinzas? Ou que seja o resultado das linhas dos arcos e cornijas?)

A música é aquilo que desperta de ti quando és estimulado por instrumentos,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 223] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Não são os violinos e as cornetas, não é o oboé e a percussão, nem a pauta musical do cantor barítono que canta sua doce romanza, nem a do coro masculino, nem a do coro feminino,
Ela é mais próxima e mais distante do que todos eles.


5

O conjunto reviverá?
Poderá cada um ver os sinais do que é melhor ao se olhar no espelho? Haverá algo maior ou a mais?
Sentam-se todos lá, contigo, com a alma mística e invisível?

Estranha e dura é a verdade paradoxal que ofereço,
Os objetos brutos e a alma invisível são um.

Construção de casas, mensuração, serração de tábuas,
Fundição de ferro, sopro de vidro, manufatura de pregos, moldagem do cobre, montagem de telhados de folhas-de-flandres, revestimento de paredes com sarrafos,
Acoplamento de navios, construção de docas, preparação de peixes, pavimentação de calçadas feita por lajeadores,
A bomba, o empilhador, o grande guincho, o forno de carvão e o forno de tijolos,
As minas de carvão e tudo o que há lá embaixo, as lâmpadas na escuridão, os ecos, as canções, e que meditações, e que vastos pensamentos nativos olham através de faces enegrecidas,
Trabalhos em ferro, fogos da forja nas montanhas ou ao longo dos rios, homens em torno sentindo a fundição com seus imensos pés-de-cabra, amálgama de metais preciosos, a bem-feita combinação dos metais preciosos, calcário, carvão,
A fornalha explosiva e a fornalha de barro, o amálgama que salta do fundo da fundição no final, o engenho giratório, as barras troncudas de ferro-gusa, a forte e bem moldada barra de trilho para as estradas de ferro,
Os trabalhos com óleo, os trabalhos com seda, os trabalhos com chumbo branco, as usinas de açúcar, as serras a vapor, os grandes moinhos e fábricas,
O corte da pedra, a ornamentação bem-feita para as fachadas ou janelas ou a verga da porta, o malho, o cinzel dentado, o dedal para proteger o dedão,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 224] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A calafetagem de ferro, a caldeira de cimento fervente e o fogo sob a caldeira,
O fardo de algodão, o gancho do estivador, a serra e o cavalete do serrador, o molde do moldador, a faca do açougueiro, a serra de gelo, e todo o trabalho feito com gelo,
O trabalho e as ferramentas do armador, o fabricante de chave, o fabricante de velas, o fabricante de blocos,
Mercadorias de gutta-percha, papel machê, tinturas, escovas, a fabricação de pincéis, implementos de vidraceiro,
A caldeira para derreter cola e folhear, os ornamentos do estilista, o vaso de decantação e os vidros, as guias de torno e o ferro liso,
O furador e a correia de cotovelo, a medida de quartilho e a de quarto, o balcão e o banquinho, a caneta de pena ou de metal, a fabricação de todos os tipos de ferramentas cortantes,
A cervejaria, a fermentação, o malte, as tinas, tudo o que é feito pelos fermentadores, os fabricantes de vinho, os fabricantes de vinagre,
As roupas de couro, a fabricação de carruagens, a fabricação de caldeiras, a ação de torcer as cordas, a destilação, a pintura de sinais, a queima da cal, a colheita do algodão, a galvanização, a ação de estereotipar,
As máquinas de aduela, as máquinas de aplainar, as máquinas de colher, as máquinas de arar, as máquinas de aparar, os vagões do vapor,
O carreto do carreteiro, o ônibus, o pesado carroção,
A pirotecnia, a queima de fogos de artifício coloridos à noite, as figuras decorativas no céu e os jorros,
O bife e a banca do açougueiro, o matadouro do açougueiro, o açougueiro em suas roupas de abate,
O cercado de porcos vivos, o martelo de abate, o gancho de porco, a banheira de escaldo, o ato de estripar, o cutelo de açougueiro, o malho do embalador e a grande quantidade de trabalho no inverno para embalar a carne de porco,
Os esforços para obter farinha, a moagem do trigo, do centeio, do milho, do arroz, os barris e as metades do barril e os quartos de barril, as barcaças lotadas, as pilhas altas nos embarcadouros e nos cais,
Os homens e o trabalho dos homens nas balsas, nos trilhos de trem, a guarda costeira, os barcos pesqueiros, os canais;


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 225] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A rotina das horas de tua vida ou da vida de qualquer homem, a oficina, o quintal, a loja, a fábrica,
Essas demonstrações, todas próximas de ti durante o dia e à noite — homens trabalhando!
Não importa quem sejas, és a vida diária!
Nisso e neles, a parte dos mais pesados — nisso e neles muito mais do que estimaste (e muito menos também),
Neles as realidades para ti e para mim, neles os poemas para ti para mim,
Neles, tu não estás — tu e tua alma contêm todas as coisas, além das estimativas,
Neles o bom desenvolvimento — neles todos os temas, sinais, possibilidades.

Não afirmo que aquilo que enxergas além seja fútil, não te aconselho a parar,
Não digo que as lideranças que julgaste grandes não o sejam,
Mas afirmo que nenhuma delas conduz para algo maior do que esses aqui.


6

Procurarás na distância? Certamente retornarás, ao final,
Nas coisas mais próximas de ti encontras o melhor, ou algo tão bom quanto o melhor,
Nas pessoas mais próximas de ti acharás as mais doces, as mais fortes, as mais amáveis,
Felicidade, conhecimento, não em outras paragens, mas aqui, nã no futuro, mas hoje,
No primeiro homem que vês ou em que tocas, sempre no amigo, no irmão, no vizinho mais próximo — e na mulher, na mãe, na irmã, na esposa,
Os gostos populares e os empregos ganhando a precedência nos poemas e em toda parte,
Vós, operárias e operários destes Estados, tendo a vossa própria vida forte e divina,
E tudo o mais dando lugar a homens e mulheres como vós.

Quando os salmos cantam em vez do cantor,
Quando o texto prega em vez do pregador,
Quando o púlpito desce e avança em vez do cinzelador que cinzelou



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 226] - - - - - - - - - - - - - - - - -



o móvel de apoio,
Quando posso tocar o corpo dos livros de dia e de noite e quando eles também tocam meu corpo,
Quando uma universidade convence tanto quanto uma mulher e uma criança sonolentas convencem,
Quando o ouro cunhado na câmara mortuária sorri como a filha do vigia,
Quando as procurações estão jogadas em cadeiras da oposição e se tornam minhas companheiras amistosas,
Tenciono alcançá-las com minha mão e fazer delas o que faço de homens e mulheres como vós.



Uma canção sobre a Terra que gira

1

Uma canção sobre a Terra que gira e sobre as palavras que estão nela,
Julgavas que as palavras fossem aquelas? Aquelas linhas retas? Aquelas curvas, ângulos, pontos?
Não, aquelas não são as palavras, as palavras substanciais estão no solo e no mar,
Estão no ar, estão em ti.

Pensavas que aquelas eram as palavras, aqueles sons deliciosos que saem das bocas de teus amigos?
Não, as palavras reais são mais deliciosas que as deles.

Corpos humanos são palavras, miríades de palavras, bem formado, natural, feliz,
Todas as partes habilitadas, ativas, receptivas, sem demonstrar vergonha e sem a necessidade da vergonha.)

Ar, terra, água, fogo — essas são palavras,
Eu mesmo sou uma palavra junto delas — minhas qualidades se interpenetram com as delas — meu nome não significa nada para elas,
Ainda que ele fosse pronunciado em três mil línguas, o que o ar, a terra, a água, o fogo podem saber sobre o meu nome?



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 227] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Uma presença saudável, um gesto amistoso ou de comando, são palavras, ditados, significados,
O charme que está nos simples olhares de certos homens e mulheres são ditos e significados também.

A engenhosidade das almas está nessas inaudíveis pal do que as palavras audíveis.

Aperfeiçoamento é uma das palavras da Terra,
A Terra não se atrasa nem se apressa,
Ela tem latentes em si todos os atributos, o potencial de crescimento, os efeitos, desde o princípio,
Ela não tem apenas metade da beleza, defeitos e excrescência aparecem tanto quanto a perfeição.

A Terra não segura seus dons, ela é generosa o bastante,
As verdades da Terra estão guardadas para sempre, mas tampouco se encontram escondidas,
Elas são calmas, sutis, não podem ser transmitidas por meio de impressos,
Elas se encontram saturadas em todas as coisas, transmitindo-se com vontade impulsiva,
Transmitindo um sentimento e um convite, eu me expresso e me expresso ainda mais,
Não falo, contudo se não me ouves para que sirvo?
Para suportar, para aperfeiçoar; na ausência disso, que utilidade tenho?

(Nasce tu, nascei vós!
Acaso apodrecereis o fruto que está aí, dentro de vós?
Agachar-vos-eis e asfixiar-vos-eis aí dentro?)

A Terra não discute,
Não é patética, não cria tramas,
Não grita, não se apressa, não procura persuadir, não ameaça, não faz promessas,
Não discrimina, não comete falha concebível,
Nada fecha, nada recusa, a ninguém exclui,
Faz conta de todos os poderes, objetos, estados, não exclui ninguém.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 228] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



A Terra não se expõe, nem recusa se expor, mostrar o que possui em suas entranhas,
Nas entranhas estão os sons ostensivos, o coro augusto dos heróis, o gemido dos escravos,
A persuasão dos amantes, as maldições, a palpitação dos moribundos, o riso dos jovens, o sotaque dos vendedores,
Nas entranhas, essas palavras possessivas que nunca falham.

Para os filhos da terra as palavras da grande mãe emudecida e eloqüente nunca falham,
As palavras verdadeiras não falham, para o movimento elas não falham, para a reflexão elas não falham,
Também o dia e a noite não falham, e a jornada que fazemos não falha.

Das irmãs intermináveis,
Dos incessantes cotilhões de irmãs,
Das irmãs centrípetas e centrífugas, as irmãs mais velhas e as mais novas,
A bela irmã que conhecemos dança com as demais.

Com suas costas largas na direção de todos os que a contemplam,
Com o fascínio da juventude e o fascínio da idade,
Senta-se ela, aquela a quem amo tal como às demais, senta- seus olhos voltam-se para trás,
Observa-a rapidamente quando se senta, sem convidar ninguém, sem negar ninguém,
Segurando um espelho dia e noite, incansavelmente, diante de sua própria face.

Vistas de perto ou vistas a distância,
Aparecendo devidamente em público as vinte e quatro horas de cada dia,
Devidamente se aproximam e passam com seus companheiros o companheiro,
Não olham com uma expressão própria, mas com a expressão daqueles que estão com elas,
Das expressões das crianças ou das mulheres ou dos homens,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 229] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Da expressão aberta dos animais ou das coisas inanimadas,
Das paisagens ou das águas ou das refinadas aparições no céu,
Das nossas expressões, minha e tua, retribuindo-as com fidelidade,
Todos os dias aparecendo em público, sem falha, mas jamais duas vezes com as mesmas companhias.

Abraçando o homem, abraçando todos, continua a Terra nos trezentos e sessenta e cinco dias sem oferecer resistência, girando em torno do Sol;
Abraçando todos, acalmando-os, oferecendo auxílio, seguindo de perto os trezentos e sessenta e cinco que sucedem os primeiros, tão certos e necessários quanto eles.

Tropeçando continuamente, nada temendo,
Brilho do Sol, tempestade, frio, calor, para sempre resistindo, passando, carregando,
Herdando ainda a realização e a determinação da alma,
Penetrando e dividindo ainda o fluido vácuo que a circunda e se sobrepõe a ela,
Nenhuma dificuldade retarda o seu avanço, nenhuma âncora a ancora, em rocha alguma se afia,
Rápida, alegre, satisfeita, não despojada, nada perdendo,
Pronta para prestar contas estritas a todos, a qualquer momento,
O navio divino navega pelo mar divino.


2

Quem quer que sejas! Movimento e reflexão são especialmente por ti,
O navio divino navega pelo mar divino por ti.

Quem quer que sejas! És ele ou ela por quem a terra é sólida e líquida,
Tu és ele ou ela por quem o sol e a lua penduram-se no céu,
Para ninguém além de ti são o presente e o passado,
Para ninguém além de ti é a imortalidade.

Cada homem para si e cada mulher para si, é a palavra do passado e do presente e a verdadeira palavra da imortalidade;
Ninguém pode aprender pelo outro — ninguém,
Ninguém pode crescer pelo outro — ninguém.

A canção é para o cantor, e retorna principalmente para ele,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 230] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



O ensinamento é para o professor e retorna principalmente para ele,
O assassinato é para o assassino e retorna principalmente para ele,
O roubo é para o ladrão e retorna principalmente para ele,
O amor é para o amante e retorna principalmente para ele,
O presente é para aquele que dá e retorna principalmente para ele — isso não pode falhar,
A oração é para aquele que ora, a performance é para o ator e para a atriz, não para a audiência,
E homem algum compreende qualquer grandeza ou bondade, exceto a sua própria ou as indicações delas.


3

Juro que a Terra será certamente completa para ele ou para ela que será completo,
A Terra permanece carcomida ou alquebrada apenas para ele ou para ela que permanece alquebrado ou quebrado.

Juro que não há grandeza ou poder que não possa emular aqueles que são da Terra,
Não pode haver teoria de qualquer explicação, a não ser que ela corrobore com a teoria da Terra,
Nenhuma política, canção, religião, comportamento e tudo o mais podem ser explicados, exceto se comparados à amplitude da Terra,
A menos que encare a exatidão, a vitalidade, a imparcialidade, a retitude da Terra.

Juro que começo a ver o amor com espasmos mais doces do que aqueles que reagem ao amor,
É aquilo que contém a si mesmo, que nunca convida e nunca renega.

Juro que começo a ver pouco ou nada nas palavras audíveis,
Tudo se funde na direção da exibição dos significados não ditos da Terra,
Rumo àquele que canta as canções do corpo e das verdades da Terra,
Rumo àquele que elabora os dicionários das palavras que a impressão não pode tocar.

Juro que vejo o que é melhor do que contar o melhor,
É sempre melhor deixar o melhor sem ser dito.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 231] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Quando decido contar o melhor, descubro que não posso,
Minha língua é ineficaz em suas articulações,
Minha respiração não será obediente aos seus órgãos,
Torno-me um homem mudo.

O melhor da Terra não pode ser dito de qualquer forma, tudo ou qualquer coisa é o melhor,
Não é aquilo que imaginaste, é algo mais barato, mais fácil, mais próximo,
As coisas não são soltas de onde estavam presas anteriormente,
A Terra é tão positiva e direta quanto era antes,
Fatos, religiões, aperfeiçoamentos, políticas, negócios são tão reais quanto antes,
Mas a alma também é real, ela também é positiva e direta,
Não foi a racionalidade, nem as provas que a estabeleceram,
Um crescimento inegável a estabeleceu.


4

Esses também ecoam os tons da alma e as frases das almas,
(Se eles não ecoaram as frases das almas, o que foram eles então?
Se não fizeram referência a ti, em especial, o que foram eles?)

Juro que nunca mais, de agora em diante, terei algo a ver com a fé que revela o melhor,
Terei a ver apenas com aquela fé que deixa o melhor em segredo.

Continuai a falar, faladores! Continuai a cantar, cantores!
Cavai, moldai, empilhai as palavras da terra!
Continuai a trabalhar, era após era, nada se perderá,
Talvez ele tenha de esperar por longo tempo, mas certamente virá a ser usado.
Quando os materiais estiverem todos preparados, os arquitetos hão de aparecer.

Juro-te que os arquitetos hão de aparecer sem falta,
Juro que te entenderão e te justificarão,
O maior entre eles há de ser aquele que melhor te conhece e contém todos e é fiel a todos,
Ele e os demais não te esquecerão, eles perceberão que tu não és nada menos do que eles,
Hás de ser totalmente glorificado neles.




- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 232] - - - - - - - - - - - - - - - - - -




Juventude, dia, velhice e noite

Juventude, grande, vigorosa, amante — juventude cheia de graça, força, fascinação,
Sabes que a Velhice pode vir após ti com a mesma graça, força e fascinação?

Dia maduro e esplêndido — dia do sol imenso, ação, ambição, risada,
A Noite vem a seguir com milhões de sóis, com o sono e a escuridão renovadora.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 233] - - - - - - - - - - - - - - - - - -




Aves de arribação


Canção do universal

1

Vem, disse a Musa,
Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,
Canta-me o universal.

Nesta nossa terra vasta,
Em meio à densidade imensurável e à escória,
Guardado e seguro dentro do coração central,
Aninha-se a semente da perfeição.

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,
Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.


2

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,
Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,
Emitisse sucessivas ordens absolutas.

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda a ciência,
Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,
Para ela, todas as constelações rolam através do espaço.

Em rotas espirais por entre longos desvios,
(Como um navio que segue sempre alinhavando as águas do mar),
Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,
Por ela o real tende ao ideal.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 234] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Por ela a mística evolução,
Não apenas a justificação do bem, o que chamamos de mal também se justifica.

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,
Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,
Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,
Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes dos homens e dos Estados,
Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,
Apenas o bom é universal.


3

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,
Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,
Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

Das imperfeições das nuvens mais escuras,
Atira sempre um raio de perfeita luz,
Um brilho da glória celeste.

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,
Para o doido alarido da Babel, para as orgias ensurdecedoras,
Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,
Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

Ó os olhos abençoados, os corações felizes,
Que vêm, que conhecem o finíssimo fio condutor,
Através do longo labirinto.


4

E tu, América,
Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,
Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

Tu também envolveste todos,
Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas por estradas largas e novas,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 235] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Tendendo ao ideal.

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,
Não são para ti, pois são grandezas de ti mesma,
Fés divinas e amplitudes, absorvendo compreendendo tudo,
Todas apropriadas a todas.

Todas, todas pela imortalidade,
O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve todos,
Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando todos,
Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,
Formas, objetos, crescimentos, humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,
Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,
Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negues a nós,
A crença nos teus planos guardada no Tempo e no Espaço,
Saúde, paz, salvação universal.

Será um sonho?
Não, mas a ausência dele é o sonho,
E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas um sonho,
E o mundo inteiro é apenas um sonho.



Pioneiros! Ó pioneiros!

         Vinde, meus filhos de face corada,
Segui unidos em fila, preparai as vossas armas,
Tendes convosco as vossas pistolas? Tendes vós os machados de lâmina afiada?
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Não podemos nos demorar aqui,
Devemos marchar, meus queridos, precisamos suportar o impacto do perigo,
Somos de raças vigorosas, cheios de juventude, e todos os demais dependem de nós,
         Pioneiros! Ó pioneiros!



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 236] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



         Ó vós, jovens, jovens do Oeste,
Tão impacientes, tão ativos, cheios de orgulho viril e amizade,
Vejo-vos claramente, jovens do Oeste, vejo-vos avançar com os que vão à frente,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         As raças antigas estancaram?
Elas definham e terminam seu treinamento, cautelosamente, em terras de além-mar?
Nós assumimos a tarefa eterna e o fardo e a lição,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Todo o passado deixamos para trás,
Nós emergimos sobre um mundo mais novo e poderoso, mundo variado,
O mundo que capturamos é novo e forte, mundo de trabalho e de marcha,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Nossos determinados destacamentos enviamos,
Descendo os precipícios, através das gargantas, para o alto das íngremes montanhas,
Conquistando, tomando posse, ousando, aventurando-nos na medida em que avançamos para o desconhecido,
         Pioneiros, ó pioneiros!

         Derrubamos florestas primitivas,
Alcançamos as nascentes dos rios, incomodamos e perfuramos profundamente a entranha das minas,
Pesquisamos a vasta superfÍcie, sublevamos os solos virgens,
         Pioneiros, ó pioneiros!

         Somos os homens do Colorado,
Dos gigantescos picos, das grandes serras e dos altos platôs,
Da mina e da ravina, das trilhas de caça chegamos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         De Nebraska, de Arkansas,
Raça do centro do país nós somos, do Missouri, com o sangue continental em nossas veias,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 237] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Todas as mãos dos companheiros aplaudindo, todos os do Sul, todos os do Norte,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Ó raça incansável e irresistível!
Ó amada raça em tudo! Ó meu peito arde de terno amor por todos!
Ó eu choro e contudo exulto, estou embevecido de amor por todos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Ergue a poderosa mãe soberana,
Agitando no alto a delicada senhora, sobre todas as senhoras estreladas (curvem-se todas as cabeças)
Ergue a senhora guerreira e cheia de garras, inflexível, impassível, armada soberana,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Vede, filhos meus, filhos resolutos,
Aqueles enxames que avançam sobre a nossa retaguarda, jamais devemos ceder-lhes a vez ou hesitar,
Eras passadas, fantasmagoricamente em milhões de rostos franzidos, às nossas costas urgindo,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Avançam mais e mais as formações robustas,
Sempre prontas para as conquistas, com as vagas dos mortos rapidamente preenchidas,
Através da batalha, através da derrota, movendo-se ainda assim e nunca parando,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Ó morrer em meio ao avanço!
Há alguns entre nós que possam cair e morrer? A hora é chegada?
Então, no calor da marcha nós, os mais capazes, morremos, e logo e com certeza somos substituídos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Todos os pulsos do mundo,
Ao cair batem por nós, com a batida do movimento do Oeste,
Solitários ou unidos, avançando constantemente para o front, tudo por nós,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 238] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Carros alegóricos variados com tudo o que a vida contém,
Todas as formas e espetáculos, todos os operários em seu trabalho,
Todos os homens do mar e os homens da terra, todos os mestres com seus escravos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Todos os infelizes que amam em silêncio,
Todos os prisioneiros nas prisões, todos os bons e todos os maus,
Todos os que se alegram, todos os que se entristecem, todos os que vivem, todos os que morrem,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Eu também com minha alma e meu corpo,
Nós, esse trio curioso, colhendo, andando sem rumo em nossa jornada,
Através dessas praias, entre as sombras, com as aparições que nos apertam,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Contemplai! O orbe que se atira como bola de boliche!
Contemplai, os orbes irmãos em sua volta, todos esses sóis e planetas agrupados,
Todos os dias fascinantes, todas as noites místicas com sonhos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Esses são nossos, eles estão conosco,
Todos pelo trabalho primário de que se necessita, enquanto os seguidores embrionários aguardam mais atrás,
Seguimos nós no rumo da procissão hodierna, abrindo as rotas para a jornada,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Ó vós, filhas do Oeste!
Ó vós, filhas jovens e mais velhas! Ó vós, mães, e vós, esposas!
Nunca tereis de vos dividir, em nossas fileiras mover-vos-eis unidas,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Trovadores latentes nas pradarias!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 239] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



(Bardos amortalhados de outras terras, podeis descansar, fizestes vosso trabalho.)
Logo ouço vossos gorjeios, logo vos levantareis e caminhareis no meio de nós,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Não aos doces deleites,
Não às almofadas e aos chinelos, não ao pacífico e ao estudioso,
Não às amizades por interesses financeiros, não, para nós, a diversão dos domesticados,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Os glutões festejadores festejam?
Os corpulentos dorminhocos dormem? Eles trancam suas portas e passam o ferrolho?
Ainda assim seja nossa a dieta dura, e o cobertor sobre o chão duro,
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         A noite já caiu?
Foi a viagem há pouco terminada muito fatigante? Paramos desencorajados balançando nossas cabeças na jornada?
Contudo na hora que passou deixei-vos em vossas picadas para que pudésseis parar um pouco distraídos.
         Pioneiros! Ó pioneiros!

         Até ao som da trombeta,
Ao longe, ao longe a alvorada chama! — ouvi! Quão alto e claro ouço-a soprar,
Depressa! Para a vanguarda do exército! — depressa! Lançai-vospara os vossos postos,
         Pioneiros! Ó pioneiros!


Para ti

Quem quer que sejas, temo que estejas caminhando pelos caminhos dos sonhos,
Temo que essas supostas realidades estão para derreter debaixo de teus pés e de tuas mãos,
Agora mesmo os teus traços, alegrias, discurso, casa, negócios, maneiras,



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 240] - - - - - - - - - - - - - - - - -



problemas, loucuras, trajes, crimes se dissipam e fogem de ti,
Teus verdadeiros corpo e alma aparecem diante de mim,
Eles se destacam, além dos afazeres, além do comércio, oficinas, trabalho, fazendas, roupas, a casa, compras, vendas, refeições, bebidas, sofrimento, morte.

Quem quer que sejas, agora eu imponho as minhas mãos sobre ti para que sejas meu poema,
Sussurro com meus lábios, próximo ao teu ouvido,
Tenho amado muitas mulheres e homens, mas amo-te mais do que qualquer um.

Ó tenho sido demorado e bobo,
Deveria ter ido diretamente ao teu encontro, há muito tempo,
Não deveria ter segredado nada além de ti, não deveria ter cantado nada além de ti.

Deixarei tudo para trás e virei e farei os hinos de ti,
Ninguém te compreendeu até agora, mas eu te compreendi,
Ninguém até agora fez justiça contigo, nem mesmo tu foste j imperfeição em ti,
Todos querem te subjugar, sou o único que jamais consentirá em subjugar-te,
Sou o único que não impõe sobre ti qualquer mestre, dono, apostador, Deus, a não ser aquele Deus que aguarda implícito em ti mesmo.

Pintores pintam seus grupos numerosos, destacando entre todos a figura central,
Da cabeça da figura central sai uma auréola de luz dourada,
Mas pinto miríades de cabeças e nenhuma delas fica sem a sua auréola de luz dourada,
De minhas mãos, do cérebro de todos os homens e mulheres ela brota, num eterno fluxo radiante.

Ó eu poderia cantar tantas grandezas e glórias a teu respeito!
Não sabes quem és, dormes sobre ti mesmo durante tua vida inteira,
Tuas pálpebras têm estado fechadas a maior parte do tempo,
Tudo o que fizeste já retorna em forma de escárnio,
(Tua frugalidade, conhecimento, orações, se não retornam na forma de escárnio, que retorno eles têm?)



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 241] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Tu não és o escárnio,
Por trás dele e dentro dele vejo-te escondido,
Procuro-te no lugar em que ninguém mais te procura,
O silêncio, a escrivaninha, a noite, a rotina com que te acostumas, se esses te escondem de ti mesmo e dos outros, não te escondem de mim,
O rosto barbeado, o olho inconstante, a compleição impura, se esses são obstáculos para os outros, não são obstáculos para mim,
O adorno atrevido, a atitude deformada, a bebedeira, a cobiça, a morte prematura, tudo isso ponho de lado.

Não há qualquer dom nos homens e nas mulheres que não se apresente em ti,
Não há qualquer virtude, qualquer beleza no homem ou na mulher, que não seja tão boa quanto as que estão em ti,
Não há garra nem resistência nos outros, que não sejam as mesmas que estão em ti,
Nenhum prazer aguarda os demais que não seja igual ao prazer que te aguarda.

Quanto a mim, nada concedo a ninguém exceto aquilo que cuidadosamente concedo a ti,
Não canto as canções da glória de ninguém, nem a de Deus, antes de cantar as canções de tua glória.

Quem quer que sejas! Reclame o que é teu a qualquer risco!
Esses espetáculos do Leste e do Oeste são mansos comparados contigo,
Esses imensos prados, esses rios intermináveis, tu és tão imenso e interminável quanto eles,
Essas fúrias, elementos, tempestades, fenômenos da natureza, agonias de aparente dissolução, tu és o mestre ou a mestra sobre todos eles.
No teu direito implícito de ser mestre ou mestra da natureza, dos elementos, da dor, da paixão, da dissolução.

Os que não podem voar caem de teus tornozelos, encontras uma auto-suficiência infalível,
Velho ou jovem, macho ou fêmea, rude, baixo, rejeitado pelos outros, o que quer que sejas proclama-o,
Através do nascimento, da vida, da morte, do funeral, os meios são fornecidos, nada é escasso,


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Através da raiva, das perdas, da ambição, da ignorância, do tédio, aquilo o que és toma sua forma.


França,
O 18º ano destes Estados

Um grande ano e local,
Um áspero nativo rebelde dá um grito que se ouve na amplidão, para tocar o coração de sua mãe com maior intimidade do que ninguém jamais o fez.

Caminhei pelas praias do meu mar do Leste,
Ouvi sobre as ondas a pequena voz,
Vi a criança divina que despertou tristemente gemendo, em meio ao troar do canhão, das imprecações, gritos, o barulho da queda dos edifícios,
Não estava tão enojada com o sangue que corria pelas sarjetas, nem por causa dos corpos solitários, nem por aqueles que estavam empilhados, nem aqueles levados embora em carros de munição,
Não estava tão desesperada em virtude da carnificina da morte — não estava tão chocada com a repetição de sons da artilharia.

Pálido, silencioso, duro, o que poderia eu dizer àquela antiga retribuição?
Poderia eu desejar que a humanidade fosse diferente?
Poderia eu desejar que as pessoas fossem feitas de madeira e pedra?
Ou que não houvesse justiça no destino e no tempo?

Ó Liberdade! Consorte minha!
Aqui também o esplendor, a metralha e o machado, ao reverso, para alcançá-los se houver necessidade,
Aqui também o que, embora tenha sido por muito tempo sufocado, jamais poderá ser destruído,
Aqui também o que poderia se erguer, finalmente, assassino e extático,
Aqui também demandando a prestação completa de contas da vingança.

Doravante sinalizo com esta saudação sobre o mar,
E não nego aquele terrível nascimento vermelho e o batismo,


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Mas lembra-te da pequena voz que ouvi gemendo e aguarda com perfeita confiança, não importa quanto tempo,
E de hoje em diante, triste e convincente, mantenho a causa dada, para todas as terras,
Envio estas palavras a Paris com meu amor,
E imagino que alguns cantores de lá as compreenderão,
Pois imagino que haja ainda música latente na França, torrentes de música,
Ó já posso ouvir o azáfama dos instrumentos, eles logo estarão afogando todos quantos poderiam interrompê-los,
Ó acredito que o vento do leste traz uma marcha triunfal e livre,
Ele alcança este lado, ele me faz inflar de prazerosa loucura,
Correrei para transpô-lo em palavras, para justificá-lo,
E ainda cantarei uma canção para ti, ma femme.


O eu e o que é meu

O eu e o que é meu, sempre um ginasta,
Para enfrentar o frio e o calor, para acertar no alvo com uma arma, para velejar um barco, para lidar com cavalos, para procriar filhos soberbos,
Para falar com presteza e clareza, para sentir-me em casa entre pessoas comuns,
E para mantermo-nos em posições terríveis na terra e no mar.

Não por uma bordadeira,
(Sempre haverá muitas bordadeiras, eu as acolho também),
Mas pela fibra das coisas e pelos homens e mulheres inatos.

Não para os ornamentos cinzelados,
Mas para o cinzel com golpes livres, entalhando as cabeças e os membros de deuses abundantes e supremos, para que estes Estados possam vê-los andando e falando.

Deixai-me ter o meu jeito próprio,
Que outros promulguem as leis, eu não tomarei conhecimento delas,
Que outros louvem os homens eminentes e levem a bandeira da paz, eu levarei a flâmula da agitação e do conflito,


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Não louvo o homem eminente, estando em sua frente censuro aquele que se julga ter o mais alto valor.

(Quem és tu? E quais são as culpas secretas de toda a tua vida?
Ficarás de lado a tua vida? Cavocarás e conversarás a tua vida inteira?
E quem és tu, segredando por hábito, anos, páginas, línguas, reminiscências,
Inadvertido hoje de que não sabes como falar apropriadamente uma única palavra?)

Que outros exterminem espécies, eu jamais extermino espécies,
Eu as inicio por meio de leis incansáveis, tal como faz a natureza, continuamente novas e modernas.

Nada concedo por dever,
O que outros concedem por dever concedo na forma de impulsos vivos,
(Devo doar as ações do coração como um dever?)

Que outros disponham de questões, não disporei de nada, pois levanto questões irrespondíveis,
Quem são esses que vejo e toco e o que se sabe sobre eles?
Que tal esses desejos meus que me atraem para tão perto por meios frágeis diretos e indiretos?

Dirijo-me ao mundo para desacreditar o julgamento de meus amigos, mas ouçam os meus inimigos, tal como eu mesmo faço,
Encarrego-te de rejeitar para sempre aqueles que me exporiam, pois não posso me expor,
Encarrego-te de que não haja teorias ou escolas fundadas a partir de mim,
Encarrego-te de que deixes tudo livre, tal como eu deixei tudo livre.

Após mim, perspectiva!
Ó vejo que a vida não é curta, mas imensuravelmente longa,
Ando pelo mundo, de agora em diante, casto, equilibrado, acordando cedo, um cultivador que tem constância,
Em todas as horas o sêmen dos séculos e a imobilidade dos séculos.

Devo seguir essas contínuas lições do ar, da água, da terra,
Percebo que não tenho tempo a perder.



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Ano de meteoros
(1859-60)

Ano de meteoros! Ano de procriação!
Eu capturaria em palavras a retrospectiva de alguns de teus feitos e sinais,
Cantaria teu pleito para se tornar o décimo novo presidente,
Eu cantaria a forma como um velho homem, alto, com cabelos brancos, que subiu ao patíbulo na Virgínia
(Eu estava próximo, silencioso, de pé, com a boca fechada; testemunhei
Estive bem próximo de ti, meu velho, quando frio e indiferente, mas tremendo com a idade e com teus ferimentos não curados, tu subiste ao patíbulo.)
Eu cantaria em minha copiosa canção o teu recenseamento de lucros destes Estados,
Os gráficos de população e os produtos, eu cantaria os teus navios com sua carga,
Os orgulhosos navios pretos de Manhattan chegando, alguns cheios de imigrantes, alguns dos istmos com cargas de ouro,
Canções daquilo cantaria, para todos os que vêem nesta direção eu daria as boas-vindas,
E tu, eu cantaria, belo rapaz! Minhas boas-vindas para ti, jovem príncipe da Inglaterra!
(Lembra-te de teu aparecimento em meio às multidões de Manhattan, quando passaste com teu cortejo de nobres?
Lá, em meio à multidão, eu estava de pé e, com apego, fixei o meu olhar em ti.)
Nem me esquecerei de cantar esta maravilha: navio que cruzou a minha baía,
Bem moldado e sólido, o Great Eastern cruzou a minha baía, ele tinha seiscentos pés de comprimento,
Seu movimento rápido, enquanto estava cercado de miríades de pequenas naus, não me esqueci de cantar;
Nem o cometa que veio sem anúncio do norte, chamejante no firmamento,
Nem a estranha e imensa procissão de meteoros brilhando e emitindo clarões sobre nossas cabeças,
(Por um momento, por um momento longo, eles flutuaram com suas bolas de luz alienígena sobre as nossas cabeças,
E depois partiram, caindo na escuridão da noite, e se foram.)


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Esses tais, e os que são tão perfeitos quanto eles, eu canto — tomo as cintilações que eles emanam e com elas enfeito estas canções;
Teus cantos, ó ano inteiramente matizado de bem e de mal — ano de presságios!
Ano de cometas e meteoros efêmeros e estranhos!
À medida que adejo sobre ti, apressadamente, para logo cair e passar, o que é este canto,
O que sou eu mesmo, senão um de teus meteoros?


Com antecedentes

1

Com antecedentes,
Com meus pais e minhas mães e o acúmulo das eras passadas,
Com tudo aquilo que se não houvesse ocorrido eu não poderia estar aqui agora do modo que estou,
Com Egito, Índia, Fenícia, Grécia e Roma,
Com o celta, o escandinavo, o álbico e o saxão,
Com as antigas aventuras marítimas, leis, artefatos, guerras e jornadas,
Com o poeta, o escaldo, a saga, o mito e o oráculo,
Com a venda de escravos, com os entusiastas, com o trovador, o cruzado e o monge,
Com aqueles antigos continentes de onde viemos para este novo continente,
Com os reinos decadentes e os reis que estão lá,
Com os decadentes religiosos e sacerdotes,
Com os pequenos litorais para os quais olhamos hoje, estando em nossos vastos litorais do presente,
Com os anos incontáveis do passado, traçando-os até chegar aos nossos anos,
Tu e eu chegamos — a América chegou e faz este ano,
Este ano! Enviando a si mesma para frente, para os anos incontáveis que virão.


2

Ó mas não são os anos — sou eu, és tu,
Nós tocamos todas as leis e contamos todos os antecedentes,
Somos o escaldo, o oráculo, o monge e o cavaleiro, facilmente os incluímos em nós e mais,


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Nós nos postamos em meio ao tempo, sem começo e sem fim, colocamo-nos em meio ao mal e ao bem,
Tudo gira em nossa volta, há tanto breu quanto luz,
O próprio sol gira com seu sistema planetário em nossa volta,
O sol do sol, e o desse outro também, tudo gira em nossa volta.

Quanto a mim (rasgado, tempestuoso, em meio a estes dias veementes),
Tenho a idéia de todos, e sou todos e acredito em todos,
Acredito que o materialismo é verdadeiro e que o espiritualismo é verdadeiro, não rejeito parte alguma.

(Esqueci-me de alguma parte? Qualquer coisa no passado?
Vem em busca de mim, quem quer que sejas e o que quer que sejas, até que eu te dê reconhecimento.)

Respeito Assíria, China, Teutônia e os hebreus,
Adoto cada teoria, mito, deus e semideus,
Aceito a verdade que está nos velhos contos, na Bíblia, nas genealogias, sem exceção,
Afirmo que todos os dias passados foram o que eles deveriam ter sido,
E que eles, de modo algum, poderiam ter sido melhores do que foram,
E que o hoje é o que ele precisa ser, e o que a América é,
E que o hoje e a América não poderiam ser melhores do que são.


3

Em nome destes Estados e em teu e em meu nome, o Passado,
E em nome destes Estados e em teu e em meu nome, o Presente.

Sei que o passado foi grandioso e que o futuro será grandioso,
E sei que ambos, curiosamente se fundem no presente,
(Em nome daquele que eu tipifico, em nome da média do homem comum, em teu nome se és ele,)
E o lugar em que estou ou tu estás no presente é o centro de todos os dias, de todas as raças,
E este é o significado para nós de tudo o que já se passou em termos de raças e de dias, ou está para vir em qualquer tempo.



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Um carro alegórico na Broadway

1

Sobre o mar ocidental, vindos de Niphon,
Corteses, dois emissários armados com espadas de face morena,
Confortavelmente sentados em suas carruagens abertas, carecas, impassíveis,
Atravessam, hoje, a ilha de Manhattan,

Liberdade! Não sei se outros enxergam o que enxergo,
Na procissão, ao lado dos nobres de Niphon, os condutores da missão
Avançando na retaguarda, pairando acima, em torno ou marchando em filas,
Mas cantarei para ti uma canção do que diviso ser a Liberdade.

Quando um milhão de pés descalços em Manhattan descerem pelas calçadas,
Quando o som de trovão das armas me fizerem levantar com esse rugido de orgulho que amo,
Quando o bocal cilíndrico das armas em meio à fumaça e o cheiro que eu amo cuspirem as suas saudações,
Quando a luz do fogo das armas tiver me colocado em alerta máximo e as nuvens celestes toldarem minha cidade com uma névoa delicada,
Quando, deslumbrantes, os incontáveis talos eretos, nas floresta próximas aos embarcadouros, ficarem mais grossos e coloridos,
Quando todo navio ricamente revestido carregar sua bandeira no mastro,
Quando trilhas de galhardete e festão estiverem penduradas nas janelas,
Quando a Broadway estiver inteiramente entregue aos pedestres e à audiência de pé nas calçadas, quando a massa humana for a mais densa,
Quando as varandas das casas estiverem vivas, porque repletas de gente, quando os olhos fixarem dezenas de milhares de uma única vez,
Quando os hóspedes das ilhas avançarem, quando o carro alegórico mover-se para adiante em destaque,
Quando a convocação for feita, quando as respostas que esperaram milhares de anos aparecerem,
Eu também, erguendo-me, respondendo, descendo para as calçadas, me fundirei à multidão e fixarei o meu olhar com eles.




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2

Manhattan de rosto soberbo!
Companheiros americanos! Em nossa direção, finalmente, o Oriente vem.

Em nossa direção, minha cidade,
Neste lugar em que as nossas belezas altas, encimadas pelo mármore, se enfileiram em lados opostos, para andar no espaço que há entre elas,
Hoje nossos antípodas vêm.

Aquele que estava nas origens vem,
O ninho das línguas, aquele que nos legou os poemas, a raça de eld,
Florido com sangue, reflexivo, arrebatado em meditações, quente de paixão,
Ardente com perfume, com vestes amplas e delicadas,
Bronzeado, com alma intensa e olhos brilhantes,
A raça de Brahma vem.

Contempla, minha cantabile ! Isso tudo e mais está brilhando para nós na procissão,
À medida que ela se move e muda, um divino caleidoscópio se move e muda perante os nossos olhos.

Pois não vêm apenas os emissários, nem os japoneses bronzeados de suas ilhas,
Ágeis e silenciosos os hindus aparecem, o próprio continente asiático aparece, o passado, os mortos,
A escura manhã noturna de esplendor e a fábula inescrutável,
Os mistérios escondidos, os antigos e desconhecidos enxames de abelha,
O norte, o sul transpirante, a Assíria ao leste, os hebreus, os antigos dos antigos,
Cidades vastas desoladas, o presente livre, tudo isso e mais na procissão de carros alegóricos.

Geografia, o mundo está nela,
O Grande Mar, o surgimento de ilhas, Polinésia, a costa para além,
A costa que de agora em diante estás encarando — tu, Liberdade! de teus litorais ocidentais de ouro,


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Os países ali, com suas populações, os milhões em massa estão curiosamente aqui,
Os mercados populosos, os templos com seus ídolos enfileirados nas laterais ou ao fundo, em bronze, brâmane e lama,
Mandarim, agricultor, mercador, mecânico e pescador,
A jovem cantora e a jovem dançarina, as pessoas extáticas, os imperadores isolados,
O próprio Confúcio, os grandes poetas e heróis, os guerreiros, as castas, todos,
Se agrupando, vindo de todas as direções, dos montes Altai,
Do Tibet, dos rios longínquos dos quatro ventos da China,
Das penínsulas do sul e das ilhas semicontinentais, da Malásia,
Essas e tudo o que pertence a elas se apresenta de forma palpável para mim, e é capturado por mim,
E eu sou capturado por elas e amistosamente abraçado por elas,
Até aqui eu canto todas elas, Liberdade! Para elas e para ti.

Pois eu também, erguendo minha voz, uno-me às fileiras dos carros alegóricos,
Sou o cantor, canto alto sobre o carro alegórico,
Canto o mundo sobre o meu mar ocidental,
Canto, copioso, as ilhas que estão além, densas como as estrelas no céu,
Eu canto o novo império, maior do que qualquer império anterior, como numa visão ele me aparece,
Eu canto a América, a soberana, eu canto uma supremacia maior,
Eu canto mil cidades que ainda florescerão no tempo naqueles grupos de ilhas,
Meus barcos a vela e barcos a vapor varando por entre os arquipélagos,
Minhas estrelas e faixas agitadas no vento,
Abrindo o comércio, o sono das idades tendo completado seu trabalho, raças renascidas, renovadas,
Vidas, trabalhos retomados — o objeto que não conheço — mas o antigo, o asiático renovado tal como deve ser,
Começando desde hoje, tendo o mundo à sua volta.


3

E tu, Liberdade do mundo!
Tu hás de sentar-te bem ao meio, bem postada por milhares e milhares de anos,
Assim, hoje, de um lado os nobres da Ásia vêm a ti,


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Assim, amanhã, do outro lado a rainha da Inglaterra envia o seu filho mais velho para ti.

O sinal está se invertendo, o orbe está cercado,
O anel está fechado, a jornada está feita,
A tampa da caixa está apenas perceptivelmente aberta e, contudo, o perfume se derrama copiosamente para fora da caixa.

Jovem Liberdade! Com a venerável Ásia, a mãe de todos,
Sê atenciosa com ela agora e sempre, quente Liberdade, pois tu és tudo,
Curva teu pescoço orgulhoso para a distante mãe que agora te envia mensagens sobre os arquipélagos,
Curva teu pescoço orgulhoso bem baixo uma vez, jovem Liberdade!

Estiveram os filhos vagando para oeste por tanto tempo? Foi tão extensa a caminhada?
Duraram tempo demais as eras sombrias que emergiram no oeste vindas do Paraíso?
Foram os séculos estabelecendo as coisas, firmemente desse modo?
Sem que tu o soubesses, por razões desconhecidas?
Eles estão justificados, estão realizados, e devem agora também se voltar para outras estradas, em tua direção,
Eles agora devem também marchar, obedientes, para o leste em teu nome, Liberdade!



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À deriva no mar


Saindo do berço, para sempre embalado

Saindo do berço, para sempre embalado,
Saindo da garganta do pássaro-das-cem-línguas, a expressão musical,
Saindo da meia-noite do nono mês,
Sobre as areias estéreis e os campos além, onde a criança, deixando seu leito, perambula em solidão, sem cabelo, descalça,
Vindo de baixo, do halo que a chuva deixou,
Vindo de cima, da dança das sombras que se entrelaçam e se torcem como se estivessem vivas,
Saindo dos canteiros de roseiras bravas e amoras pretas,
Das memórias do pássaro que cantou para mim,
De suas memórias, irmão triste, dos caprichosos vôos e quedas que ouvi,
De debaixo daquela meia-lua amarela tardia e inchada como se estivesse em lágrimas,
Daquelas notas iniciais de anelo e de amor que ouvi ainda na névoa,
Das mil reações de meu coração que jamais cessará,
Das miríades de palavras que surgiram desde então,
Da palavra mais forte e mais deliciosa que qualquer outra,
Com a qual, tal como se dá agora, eles retornam à cena,
Como um bando, cantando, se erguendo, ou voando sobre as cabeças,
Resistindo até aqui, antes que tudo escape de mim, apressadamente,
Um homem e, contudo, em virtude destas lágrimas, um menino outra vez,
Atirando-me sobre a areia, confrontando-me com as ondas,
Eu, cantor de dores e alegrias, aquele que une aqui e acolá,
Carregando todos os sinais para usá-los, mas agilmente saltando além deles,
Canto uma reminiscência.



- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 253] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Uma vez em Paumanok,
Quando o perfume dos lilases estava no ar e a grama do quinto mês estava crescendo,
Acima desse litoral, sobre algumas roseiras bravas,
Vi dois visitantes emplumados do Alabama, os dois juntos,
Em seus ninhos, quatro ovos verde-claros com manchinhas marrons,
E todos os dias o pássaro macho ficava de lá para cá, bem próximo, ao alcance,
E todos os dias o pássaro fêmea abaixava-se em seu ninho, silenciosa, com seus olhos brilhantes,
E todos os dias eu, um rapaz curioso, sem nunca me aproximar demais, sem nunca incomodá-los,
Cuidadosamente perscrutava, absorvia, traduzia.

Brilha! Brilha! Brilha!
Derrama o teu calor, grande sol!
Enquanto nos aquecemos, nós dois juntinhos.

Nós dois juntinhos!
Os ventos sopram no sul ou os ventos sopram no norte,
O dia vem branco, ou a noite vem preta,
No lar, ou nos rios e montanhas distantes do lar,
Cantando o tempo todo, sem perceber o tempo,
Enquanto nós dois ficamos juntinhos.

Até que, de repente,
Talvez morta (mistério para o seu amor),
Numa certa manhã, o pássaro fêmea não pousou no ninho,
Nem voltou naquela tarde, nem na próxima,
Nem nunca mais apareceu.

E desse dia em diante, em todos os verões, ao som do mar,
E à noite, sob a luz da lua cheia, em clima mais calmo,
Sobre o avanço rouco do mar,
Ou voando de uma sarça para a outra, durante o dia,
Passei a ver e a ouvir, a intervalos, aquele que restou, o pássaro macho,
O visitante solitário do Alabama.

Sopra! Sopra! Sopra!
Sopra com força, vento marítimo do litoral de Paumanok;


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 254] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Eu aguardo e aguardo até que sopres o meu amor de volta para mim.

Sim, quando as estrelas cintilavam,
A noite inteira, no topo de um poste fincado no brejo,
Quase na altura em que as ondas se esbatem,
Sentava-se o gracioso cantor solitário, fazendo chorar.

Ele chamou continuamente seu par,
E derramou os significados que eu, entre todos os homens, conheço,

Sim, meu irmão, eu conheço,
E mesmo que nem tudo carregasse sentido, tratei de entesourar cada nota,
Mais de uma vez, sem ser notado, deslizei até a praia,
Em silêncio, evitando ser atingido pelos raios da lua, misturando-me às sombras,
Lembro-me das formas obscuras, dos ecos, dos sons e das visões de todos os tipos,
Lançando meus braços brancos incessantemente sobre a amurada,
Eu, descalço, uma criança, com o vento a balançar meus cabelos,
Ouvi o pássaro horas a fio.
Ouvi para guardar, para cantar, e agora traduzo as notas,
Seguindo-te, meu irmão.

Conforta! Conforta! Conforta!
Se aproximando, uma onda conforta a onda que vem atrás,
E novamente outra onda que vem atrás envolve e aplaca aquelas que estão perto,
Mas o meu amor não me conforta, não a mim.

A lua está baixa, ela ergueu-se com atraso,
Ela está lenta — Ó eu acho que ela está pesada de amor, cheia de amor,

Ó furiosamente o mar se lança sobre a terra,
Com amor, com amor.

Ó noite! Não é o meu amor que vejo voando sobre o quebra-mar?
O que é aquele pequeno vulto preto que vejo ali sobre o branco?

Alto! Alto! Alto!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 255] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Alto eu te chamo, meu amor!
Alta e clara eu lanço minha voz sobre as ondas,
Certamente deves saber quem está aqui, está aqui,
Deves saber quem eu sou, meu amor.

Lua no céu tão baixa!
O que é aquele ponto escuro na tua superfície amarela e castanha?
Ó é a silhueta, a silhueta de meu amor!
Ó lua, não me prives mais da companhia dela.

Terra! Terra! Ó terra!
Para qualquer lado que me volte, ó penso que poderias me devolver o meu amor se quisesses,
Pois estou quase certo de que a vejo vagamente por toda parte.

Ó altas estrelas!
Talvez aquela que eu amo tanto se erguerá, se erguerá com uma de vós!

Ó garganta! Ó garganta que estremece!
Soa com mais clareza através da atmosfera!
Atravessa as florestas, a terra,
Em alguma parte, com o ouvido atento, a fim de apanhar-te, deve estar aquela que desejo!

Canções para agitar!
Solitárias aqui, as canções da noite!
Canções de amor solitário! Canções de morte!
Canções entoadas sob aquelas luas lentas, amarelas e minguantes!
Ó sob aquela lua que quase mergulha dentro do mar!
Ó canções imprudentes e desesperantes.

Mas com brandura! Submerge!
Com brandura! Deixa-me apenas murmurar.
E aguarda um momento, mar vigoroso e sonoro,
Pois, em alguma parte, acredito ter ouvido a resposta de meu par ao meu chamado,
Então desmaia, preciso estar quieto, estar quieto para ouvir,
Mas não fiquemos todos quietos, simultaneamente, pois nesse caso ela pode não vir imediatamente para mim.


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 256] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



Aqui, meu amor!
Aqui estou! Aqui!
Com essa nota sustenida, há pouco, eu me anuncio para ti,
Este chamado gentil é para ti, meu amor, para ti.

Não te sintas atraída para outras paragens,
É apenas o assobio do vento, não é a minha voz,
É apenas a azáfama, a azáfama da chuva,
São as sombras das folhas.

Ó escuridão! Ó em vão!
Estou muito doente e cheio de tristeza.

Ó halo dourado no céu, próximo da lua, mergulhando no mar!
Ó reflexo desordenado sobre o mar!
Ó garganta! Ó coração latejante!
Enquanto canto inutilmente, inutilmente a noite inteira.

Ó passado! Ó vida feliz! Ó canções de alegria!
No ar, nas florestas, sobre os campos,
Amada! Amada! Amada! Amada! Amada!
Contudo minha companheira não está, não está mais comigo!
Não estamos mais juntos.

A melodia naufragando,
Tudo o mais permanecendo, as estrelas brilhando,
Os ventos soprando, as notas emitidas pelo pássaro ecoando incessantemente,
Com gemidos raivosos, a mãe velha e ameaçadora gemendo sem cessar,
Nas areias do litoral de Paumanok, desolada e sussurrante,
A meia-lua amarela e inchada, caindo, mergulhando, quase tocando a face do mar,
O jovem extático, com seus pés descalços nas ondas, a atmosfera a brincar com seus cabelos,
O amor, há muito encerrado no peito, agora solto, agora, enfim, estourando tumultuosamente,
O sentido da melodia, os ouvidos, a alma, agilmente se estabelecendo,
As lágrimas estranhas descendo pela face,
O colóquio lá, o trio, cada um falando,
A meia-voz, a velha mãe selvagem chorando sem parar,


- - - - - - - - - - - - - - - - - - [begin page 257] - - - - - - - - - - - - - - - - - -



As questões sobre a alma do rapaz taciturnamente surgindo, alguma sibilação ficando em segredo,
O bardo no princípio.

Demônio ou pássaro! (disse a alma do rapaz),
Estás de fato cantando para a alma de teu par? Ou será realmente para mim?
Pois eu, que fui uma criança cujo uso da língua está adormecido, agora posso te ouvir,
Agora, em um momento, sei o que sou, pois estou desperto,
E já mil cantores, mil canções, mais claras, mais altas, e mais tristes que as tuas,
Mil ecos gorjeando nasceram para a vida dentro de mim, para jamais morrer.

Ó tu, cantor solitário, cantando sozinho, projetando-me,
Ó meu Eu solitário a ouvir, nunca mais devo deixar de te perpetuar,
Nunca mais devo escapar, nunca mais as reverberações,
Nunca mais os gritos de amor insatisfeito estarão ausentes de mim,
Nunca me permitas ser novamente a criança pacífica que eu era antes, durante a noite,
Próximo do mar, sob a lua amarela e cadente,
O mensageiro lá se levantou, o fogo, o inferno doce no íntimo,
O desejo desconhecido, o destino de mim.

Ó dá-me o novelo! (ele espreita à noite, aqui, em algum lugar)
Ó se devo ter tanto, deixa-me que eu tenha mais!

Uma palavra então (pois hei de conquistá-la)
A palavra final, superior a tudo,
Subitamente, emitida — o que é isso? — eu ouço;
Tende-a sussurrado, e assim tem sido todo o tempo, ó vós, ondas do mar?
Será que ela provém de tuas margens líquidas e de tuas areias molhadas?

Para onde responde, o mar,
Sem demora, sem pressa,
Sussurrou-me através da noite e escancaradamente antes do amanhecer,
Balbuciou-me a baixa e deliciosa palavra morte,
E outra vez morte, morte, morte, morte,


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Assobiando, melodiosamente, não como o pássaro nem como o meu desperto coração infantil,
Mas aproximando-se com intimidade por mim, sussurrando aos meus pés,
Rastejando dali, sem parar, até os meus ouvidos e lavando-me gentilmente por toda parte,
Morte, morte, morte, morte, morte.

A que não esqueço,
Mas funde a canção de meu demônio escurecido e meu irmão,
Que ele cantou para mim no luar da praia cinzenta de Paumanok,
Com mil canções sensíveis ao acaso,
Minhas próprias canções despertadas do tempo,
E com elas a chave, a palavra dita pelas ondas,
A palavra da canção mais doce e todas as canções,
Aquela forte e deliciosa palavra que, rastejando aos meus pés,
(Ou como alguma velha mulher enrugada embalando o berço, vestida em trajes doces, dobrando-se para o lado),
O mar me segredou.


Quando refluí com o oceano da vida

1

Quando refluí com o oceano da vida,
Quando segui margeando os litorais que conheço,
Quando andei por onde as ondulações continuamente te banham, Paumanok,
Onde elas farfalham roucas e sibilantes,
Onde a impetuosa velha mãe chora sem cessar por aqueles que perdeu,
Eu, cismando até tarde, num dia de outono, olhando fixamente para o sul,
Seguro por este Eu elétrico, nesse orgulho que me leva a expressar poemas,
Fui tomado pelo espírito que caminha nas linhas sob os pés,
A borda, o sedimento que sustenta toda a água e toda a terra do globo.

Fascinado, meu olhar retornando do sul, caído, para seguir aqueles delgados sulcos profundos,
Farelo, palha, lascas de madeira, ervas daninhas e o glúten do mar,


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Refugo, escamas das pedras brilhantes, folhas de algas deixadas pela maré,
Andando por milhas, o som das ondas quebrando no outro lado de mim,
Paumanok lá e, então, tal como eu pensara, o velho pensamento da imagem,
Isso tu me presenteaste, tu, ilha com forma de peixe,
Quando eu seguia o litoral que conheço,
Quando andava com aquele Eu elétrico procurando tipos.


2

Quando me dirijo ao litoral que não conheço,
Quando arrolo no hino fúnebre as vozes dos náufragos, dos homens e das mulheres,
Quando inalo as brisas imponderáveis que se instalam sobre mim,
Quando o oceano tão misterioso se agita em minha direção, cada vez mais próximo,
Eu igualmente significo, no máximo, um pequeno escombro molhado e à deriva,
Uns poucos grãos de areia e folhas para serem reunidos,
Para reunir-me e tornar-me parte das areias e dos escombros à deriva.

Ó confundido, empacado, vergado para a própria terra,
Sinto-me oprimido porque ousei abrir a minha boca,
Consciente agora, pois que em meio a tudo o que me segredam aqueles cujos ecos repercutem sobre mim, nem uma única vez tive idéia de quem ou o que sou,
E apesar de todos os meus arrogantes poemas, o Eu real permanece intocado, inenarrável, de um modo geral inalcançável,
Retirado, ironizando-me, com sinais de certa ironia congratulatória, fazendo reverências,
Com trejeitos de riso desdenhoso e distante acerca de cada palavra que já escrevi,
Apontando em silêncio para estas canções e depois para a areia do chão.

Percebo que de fato não compreendi coisa alguma, nem um único objeto, e que nenhum homem o fará um dia,
A natureza aqui, à vista do mar, tirando vantagem de mim para lançar-se sobre mim e me ferir,
Apenas porque ousei abrir a minha boca para cantar.




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3

Vós, ambos os oceanos, pareço-me convosco,
Murmuramos de modo semelhante e, de modo censurável, balançamos areia e escombros, sem saber por quê,
Esses diminutos fragmentos boiando por ti e por mim e por todos.

Tu, margem que esboroa com trilhas e entulho,
Tu, ilha com forma de peixe, eu levo o que está debaixo de meus pés,
O que é teu é meu, meu pai.

Eu também, Paumanok,
Eu também borbulhei e flutuei a flutuação sem medida, e fui lavado em tuas praias,
Eu também sou apenas uma trilha de restos de um naufrágio e escombros,
Eu também deixo pequenos naufrágios sobre ti, tu, ilha com forma de peixe.

Eu me lanço sobre o teu peito, meu pai,
Eu me apego a ti de tal modo que não possas me soltar,
Eu te prendo com tamanha firmeza que te sentes obrigado a me responder alguma coisa.

Beija-me, meu pai,
Toca-me com teus lábios, tal como procedo com aqueles a quem amo,
Sussurra para mim, enquanto te aperto num abraço, o segredo do murmúrio que eu invejo.


4

Reflui, oceano da vida (o fluxo retornará),
Não cessa o teu gemido, minha velha mãe ardente,
Chora eternamente por aqueles que perdeste, mas não sintas medo nem fujas de mim,
Não rujas com voz tão rouca e com tal raiva contra os meus pés quando me roço em ti, ou quando colho de ti.

Minha intenção é terna para contigo e para com todos,
Eu colho para mim e para esse fantasma que olha para baixo, para o local em que avançamos, eu e o que é meu.



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Eu e o que é meu, paveia solta, pequenos corpos,
Espuma, flocos de neve branca, e bolhas,
(Vê, de meus lábios mortos o vapor expirar finalmente,
Vê, as cores do prisma brilhando e se agitando),
Tufos de palha, areias, fragmentos,
Que boiaram até aqui, vindos pela força dos humores, um a contradizer o outro,
Vindos com as tempestades, a calma longa, a escuridão, o inchaço,
Meditando, ponderando, um suspiro, uma lágrima salgada, um salpico de líquido ou de solo,
Para cima tanto quanto para fora de insondáveis trabalhos fermentados e atirados,
Um ou dois botões frágeis, feridos, do mesmo modo, flutuando sobre as ondas, boiando sem rumo certo,
Tal como é para nós aquele hino fúnebre da natureza,
Tal como o lugar de onde vem para nós aquele som rijo do clarim das nuvens,
Nós, caprichosos, trouxemos aqui não sabemos de onde, e espalhamos diante de ti,
E tu, lá em cima, andando ou sentado,
Quem quer que sejas, nós também estamos à deriva aos teus pés.



Lágrimas

Lágrimas! Lágrimas! Lágrimas!
À noite, na solidão, lágrimas,
Na praia branca gotejando, gotejando, absorvidas pela areia,
Lágrimas, não de uma estrela brilhando, escura e desolada,
Lágrimas úmidas, caídas dos olhos de uma cabeça disfarçada,
Ó quem é aquele fantasma? Aquela forma na escuridão, com lágrimas?
Que fragmento informe é aquele, vergado, abaixado lá na areia?
Lágrimas torrenciais, lágrimas que vêm com um soluço, com agonia, afogadas em gritos selvagens;
Uma tempestade, incorporada, se erguendo, correndo com passos ligeiros ao longo da praia!
Ó tempestade noturna lúgubre e selvagem, acompanhada de vento, sonora e desesperada!
Ó sombra tão composta e decorosa de dia, com calma continência e passo regulado,


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Mas, retirada à noite, como voas, sem olhar para ninguém, ó então, o oceano engessado,
De lágrimas! Lágrimas! Lágrimas!


Ao pássaro navio-de-guerra

Embora tenhas dormido a noite inteira sob a tempestade,
Despertando renovado sobre tuas asas prodigiosas,
(Explodiu a tempestade selvagem? Acima dela tu te sobressaíste,
E descansaste no céu, enquanto teu escravo te embalava.)
Agora um ponto azul, longe, longe no céu flutuando,
Como uma luz que emerge aqui no convés, eu te contemplo,
(Eu mesmo um átimo, um ponto a flutuar no mundo vasto.)

Longe, longe no mar,
Depois que os redemoinhos ameaçadores da noite espalharam destroços pela praia,
Com o reaparecimento do dia, como agora tão feliz e sereno,
O crepúsculo róseo e impermanente, o sol faiscante,
Com o límpido banquete do ar azul celeste,
Tu também reapareceste.

Embora nascido para ser páreo ao vendaval (tu és todo asas),
Para encarar o céu e a terra e o mar e o furacão,
Tua nau de vento, da qual jamais desfraldaste as velas,
Dias, até semanas, sem cansar e avançando, através dos espaços, correndo livre por entre reinos,
No crepúsculo olhaste para o Senegal, de manhã para a América,
E em meio àquelas aventuras, o brilho do raio e a nuvem do trovão,
Neles, tuas experiências, tinhas a minha alma,
Que alegrias! Que alegrias foram as tuas!


Na cabine de comando de um navio

Na cabine de comando de um navio,
Um jovem timoneiro opera o leme com cuidado.

Através do nevoeiro, em uma costa marítima, ouve soar pesarosamente,


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Um sino de oceano — ó um sino de alerta, balançado através das ondas.

Ó, tu de fato ofereces aviso com antecedência, tu, sino que tocas próximo aos recifes,
Tocando, tocando, para avisar o navio sobre o perigo de uma colisão.

Pois estando alerta, ó timoneiro, tu levas em conta a sonora admoestação,
Virando o leme, o navio cargueiro arranca veloz sob suas velas cinzentas,
O belo e nobre navio, com toda a sua preciosa riqueza, corre para longe, alegremente e seguro.

Mas, ó navio, navio imortal! Ó navio a bordo do navio!
Navio do corpo, navio da alma, viajando, viajando, viajando.


À noite, na praia

À noite, na praia,
Está uma criança com seu pai,
Olhando, para leste, o céu de outono.

Acima, através da escuridão,
Enquanto nuvens vorazes, nuvens de sepultamento, se espalham em massas negras,
Descendo sombrias e ligeiras, obliquamente, no céu mais abaixo,
Em meio a um cinturão claro e transparente de éter que ainda resta no leste,
Ergue-se grande e calma a estrela soberana de Júpiter,
E bem próxima, apenas um pouco acima,
Nadam as delicadas irmãs, as plêiades.

Na praia, a criança segura a mão de seu pai,
Observando aquelas nuvens de sepultamento que se abaixam logo, vitoriosamente, para tudo devorar,
Observando, lamentando silenciosamente.

Não chores, criança,